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O retrato de um nu produzido por inteligência artificial

Obra idealizada pelo alemão Mario Klingemann e executada por máquinas levou maior prêmio de organização dedicada à arte digital

    A imagem abaixo é uma obra de arte. Quem assina é o Mario Klingemann. No lugar de pincel, tela e cavalete, o artista usou uma ferramenta pouco tradicional: inteligência artificial.

    Foto: Reprodução/Mario Klingemann
    ‘The Butcher's Son’, feito por máquinas programadas pelo artista Mario Klingemann
    ‘The Butcher's Son’, feito por máquinas programadas pelo artista Mario Klingemann

    No fim de setembro de 2018, o prêmio inglês The Lumen Prize – dedicado desde 2012 à celebração de trabalhos digitais de artistas do mundo todo – laureou Klingemann com a maior premiação da edição.

    Segundo o site do Lumen, “pela primeira vez, um retrato criado por uma máquina ganhou um grande prêmio de arte global”. Artistas que produzem seus trabalhos por meio de tecnologia podem se inscrever no prêmio em categorias como imagens móveis, estáticas, interativas ou ainda criações com realidade aumentada (AR, na sigla em inglês) e realidade virtual (VR).

    Máquinas criativas

    Para produzir “The Butcher’s Son” (O filho do açougueiro, em inglês), Klingemann “treinou” máquinas para assimilar padrões de retratos humanos e seus corpos e produzir algo com o que aprendeu.

    O artista selecionou uma série de imagens que correspondiam ao que ele pretendia para a obra final e “apresentou” sua curadoria ao computador, por sua vez instruído por um algoritmo desenvolvido por Klingemann.

    Como o objetivo era chegar a um retrato de corpo inteiro, o artista alemão montou uma base de fotos de pessoas nuas – pornografia mesmo. “Outra fonte poderia ter sido imagens de esportes, mas eu admito que não sou muito ligado em esportes”, disse à Fast Company.

    Para “orientar” a máquina, Klingemann fez uso de uma técnica conhecida como GAN (redes neurais contraditórias generativas, na sigla em inglês), já usada para fazer computadores gerarem fotografias realistas de pessoas, por exemplo.

    A técnica usa duas redes neurais (algoritmos que tentam mimetizar o método de raciocínio humano para solucionar problemas): uma produz um rascunho de imagem partindo de padrões visuais obtidos de uma série de referências dadas por Klingemann; a outra pega esse rascunho e melhora sua qualidade e adiciona mais detalhes.

    “Eu controlo esse processo indiretamente treinando o modelo com um conjuntos de dados selecionados, os hiperparâmetros do modelo e, por fim, fazendo uma escolha curatorial, escolhendo dentre as milhares de variações produzidas pelos modelos a que mais me diz algo.”

    Mario Klingemann

    Em entrevista à revista Fast Company

    Só um pincel

    Segundo Klingemann, na produção artística, algoritmos são como os pincéis. Com a diferença de que os resultados podem sair mais obviamente não-humanos do que alguns artistas gostariam. “É aí que muita gente para [de criar com GANs]”, disse.

    Em agosto de 2018, a tradicional casa britânica de leilão de obras de arte Christie’s perguntou em um artigo se a inteligência artificial já está pronta para se tornar o próximo grande meio de produção artística. Na mesma ocasião, a empresa anunciou ser a primeira casa de leilão a oferecer uma obra de arte produzida por um algoritmo.

    O artista alemão diz que ainda espera testar o potencial oferecido pelas técnicas de aprendizado de máquina na arte. “Eu quero que as minhas imagens possam ser interessantes mesmo que as pessoas não saibam que se trata de algo produzido por inteligência artificial.”

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