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Quais as semelhanças entre o PRN de 1990 e o PSL de 2018

Partido de Fernando Collor, primeiro presidente eleito após a redemocratização, era pequeno e obteve 40 cadeiras no Congresso

     

    O PSL (Partido Social Liberal), do candidato à Presidência Jair Bolsonaro, elegeu 52 deputados federais na votação de 7 de outubro de 2018. Com esse desempenho, terá a segunda maior bancada da Câmara, ficando atrás apenas do PT, com quatro parlamentares a mais.

    Bolsonaro vai disputar o segundo turno das eleições presidenciais contra o candidato do PT, Fernando Haddad. O número de cadeiras conquistadas surpreendeu sobretudo as lideranças do PSL, que, até então, contava apenas com oito deputados federais.

    Um crescimento tão brusco, de um partido pequeno elevado à condição de potência parlamentar puxado pela figura de um líder nacional, já ocorreu antes no Brasil, no período da redemocratização pós-ditadura militar. Foi o caso envolvendo o PRN (Partido da Reconstrução Nacional), hoje PTC (Partido Trabalhista Cristão).

    A origem do PRN

    As origens do PRN remontam a 1985, após o fim da ditadura militar. Inicialmente, era o Partido da Juventude. Com uma estrutura muito pequena, o PJ participou das eleições municipais daquele ano, mas teve um desempenho inexpressivo.

    Na época, a sigla não tinha representantes no Congresso e, por isso, contava com pouco tempo de propaganda no horário eleitoral na TV e no rádio. O PJ só conseguiu ter representante na Câmara em 1988, quando o então deputado paulista Arnaldo Faria de Sá deixou o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) para se filiar à sigla. Sá ingressou na vida parlamentar quando foi eleito deputado federal em 1986 pelo PTB. Dois anos depois, já pelo PJ, ele disputou as eleições de 1988 como candidato a vice-prefeito de São Paulo na chapa de Paulo Maluf (PDS).

    O PJ passou a ter projeção a partir da filiação do então governador de Alagoas Fernando Collor de Mello, em 1989, ano da primeira eleição presidencial após a ditadura. Antes, Collor, governador de Alagoas, era do PMDB.

    Ele ganhou destaque nacional por manifestar oposição aberta ao governo do então presidente José Sarney e pelo discurso contra os altos salários recebidos por funcionários públicos. Essa bandeira lhe rendeu o apelido de “caçador de marajás”.

    Com a filiação de Collor, o PJ também trocou de nome. Tornou-se então PRN. A partir daí, elaborou um manifesto no qual se definia como um partido liberal-democrático e defendia a retomada do crescimento econômico a partir da redução da interferência do Estado na economia.

    Collor foi lançado como candidato do PRN à Presidência da República e venceu as eleições de 1989, numa disputa de segundo turno contra o petista Luiz Inácio Lula da Silva.

    Há uma questão que diferencia aquele período: os eleitores escolheram apenas presidente em 1989. Os outros cargos em Brasília, para a Câmara e para o Senado, foram disputados em 1990, ano seguinte. O PRN elegeu 40 deputados federais e cinco senadores na esteira do presidente.

    Collor não chegou a cumprir todo o mandato. Foi alvo de um processo de impeachment em 1992, após denúncias de corrupção. O PRN, então, sofreu um esvaziamento. Em poucos meses, a maioria dos integrantes abandonou o partido. Em alguns estados, como São Paulo, os diretórios da sigla foram extintos.

    Em 2000, o PRN alterou seu nome para PTC (Partido Trabalhista Cristão), mas manteve a liderança de seu fundador, Daniel Sampaio Tourinho. Collor se desfiliou da legenda em 2007, mas retornou a ela em 2016.

    Semelhanças com as eleições de 2018

    O Nexo entrevistou dois cientistas políticos sobre o fenômeno de 1990, com o PRN, e o de 2018, com o PSL. São eles:

    • Hilton Fernandes, professor de ciência política da Fespsp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo)
    • Marco Aurélio Nogueira, professor de ciência política da Unesp

    É possível traçar um paralelo entre o PRN e o PSL?

    Hilton Fernandes As eleições de 2018 apresentaram muitas coincidências com as ocorridas em 1989. Embora sejam contextos bastante diferentes, há pelo menos duas grandes semelhanças: a baixíssima avaliação do presidente em exercício [José Sarney em 1989 e Michel Temer em 2018] e o surgimento de um candidato competitivo outsider, de um partido pequeno, apoiado em um discurso antissistema [Collor em 1989 e Bolsonaro em 2018].

    Os resultados das urnas trouxeram outra semelhança entre Collor e Bolsonaro. Os dois se lançaram candidatos por partidos nanicos, sem histórico para serem criticados ou associados a governos anteriores. Mas, ao alcançarem grandes votações como candidatos a presidente, potencializaram os candidatos ao legislativo em seus partidos.

    Esse fenômeno não é novidade. Partidos cujos candidatos a cargos majoritários são bem votados tendem a receber boas votações para cargos proporcionais. Mas chama atenção o desempenho do PSL, partido de Bolsonaro, que conseguiu eleger 52 deputados federais. Um partido que corria o risco de se extinguir passou a ser a segunda força na Câmara.

    Collor também influenciou o resultado das eleições parlamentares de 1990, ano seguinte à eleição presidencial na época. O PRN, que não existia antes da eleição de Collor, elegeu 40 deputados federais, sem contar o desempenho nos estados.

    Os partidos de candidatos com grandes votações também experimentam bons resultados em pesquisas que avaliam a preferência partidária. Assim como o PRN em 1990, o PSL apareceu em 2018 como um de maior identificação partidária.

    Vale ressaltar que essa preferência partidária baseada em ondas personalistas não tende a se sustentar por muito tempo. O PRN de Collor deixou de existir após a derrocada do ex-presidente. O PSL dependerá diretamente do desempenho de um eventual governo Bolsonaro.

    O fenômeno pode ser explicado por alguns fatores, entre eles a fraca adesão dos eleitores aos partidos políticos e o caráter personalista dessas eleições.

    Nas eleições em que os mais bem colocados representaram partidos grandes, essa relação personalista fica, de certa forma, disfarçada, pois associamos o bom desempenho nas eleições parlamentares à força do partido.

    Mas não quando surge um candidato competitivo sem base partidária. Nessas circunstâncias, os votos nos parlamentares do partido deste candidato evidenciam o peso do personalismo no voto, que leva o eleitor a escolher candidatos apoiados pelo líder personalista.

    Marco Aurélio Nogueira Evidentemente é possível [associar o PRN ao PSL]. Os dois partidos praticamente não existiam e ganharam uma força que não estava prevista em nenhum dos casos.

    As circunstâncias das eleições de 1990 e de 2018 são completamente diferentes. Os próprios partidos em questão também são diferentes do ponto de vista ideológico e político. O PRN era um partido de tendência oligárquica, tradicional. O PSL é um partido de extrema-direita, mais ideológico. O PRN era fisiológico. Partidos ideológicos orientam-se mais por convicções do que por interesses. O PSL é assim: seus seguidores e seus militantes seguem ideias e “mitos” de forma fanática.

    Apesar dessas diferenças, a comparação mais interessante é que ambas as legendas cresceram por forças espontâneas e foram impulsionadas pelo magnetismo dos próprios candidatos [Collor e Bolsonaro].

    Em momentos muito polarizados como nos dois casos, o candidato que funciona como polo magnetiza os eleitores. Com isso, ele transfere votos para o seu partido.

    No caso de Haddad, por exemplo, o PT conseguiu formar uma bancada grande. Mas o PCdoB e o PROS, que estão na coligação, não. Foi uma campanha muito focada na figura do candidato e na sua identidade partidária.

    No caso de Bolsonaro, que não tinha uma coligação grande, a massa de votos que ele recebeu acabou por se desdobrar em votação expressiva para o PSL.

    Tanto o PRN, de Collor, quanto o PSL, de Bolsonaro, vão funcionar muito na dependência da capacidade que o candidato tem de continuar alimentando o partido de alguma maneira.

    Se o candidato for eleito presidente e, por algum motivo, mudar sua orientação, passar a praticar coisas que não dizia na campanha, o partido poderá abandoná-lo com facilidade. A sigla ficará coesa na medida em que o presidente conseguir animá-lo e garantir a coesão dele. 

    Quando candidatos têm discursos salvacionistas, eles sempre serão mobilizadores. Collor se apresentava como o justiceiro, que salvaria a nação dos marajás. Bolsonaro faz o mesmo, com a questão da ordem, da segurança e do combate à esquerda.

    Essa forma de apresentação converte o candidato em uma espécie de salvador da pátria. O PT também fez isso, transformando Luiz Inácio Lula da Silva [ex-presidente, hoje preso por corrupção e lavagem de dinheiro pela Operação Lava Jato] no mito que baixaria sobre a Terra e faria o povo feliz de novo.

    A ideia de salvação, do mito que salva, ou do herói que salva, é sempre muito magnética, mobilizadora. E ela, no caso de disputas eleitorais parlamentares de 1990 e 2018, beneficia partidos que se identificam com o salvador.

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