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Quais são as apostas de Bolsonaro e Haddad no 2º turno

Candidatos à Presidência ajustam estratégia para tentar ocupar os espaços em que sofrem mais resistência

     

    Já no dia seguinte à votação do primeiro turno era possível ver os rumos que Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) vão seguir na segunda etapa da eleição presidencial.

    De início, Bolsonaro e Haddad procuraram afastar ideias de que, se eleitos, tomariam medidas contra a Constituição. Em breves entrevistas ao Jornal Nacional, na segunda-feira (8), os candidatos recuaram de declarações e de intenções de convocar Assembleias Constituintes para fazer alterações na lei máxima do país, que em 2018 completa 30 anos em vigor.

    A partir daí, as campanhas do deputado federal e do ex-prefeito paulistano deram outros sinais do que pretendem reforçar ou amenizar até a votação final, em 28 de outubro. A partir de sexta-feira (12), eles voltam a aparecer mais, com a retomada do horário eleitoral de rádio e TV.

    Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente, com 46% dos votos válidos. Haddad recebeu 29,2% dos votos. A primeira pesquisa de intenção de votos, divulgada na quarta-feira (10) pelo Datafolha, mostra que a vantagem do deputado federal se mantém, com 58%, ante 42% do ex-prefeito, levando em conta apenas a intenção de votos válidos, excluindo brancos e nulos.

    Bolsonaro: atenção ao Nordeste

     

    Ainda em recuperação do ataque a faca que sofreu em 6 de setembro, Bolsonaro vinha aparecendo pouco em público. Agora, aposta em transmissões ao vivo no Facebook e retomou as entrevistas em rádios, apesar de ter cancelado sua participação nos próximos debates de TV.

    Bolsonaro tem reforçado o discurso que lhe deu notoriedade: os ataques ao PT e o maior rigor no combate à criminalidade. No primeiro, associa a imagem de Haddad à do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba; atribui ao PT a responsabilidade pela crise econômica e voltou a se referir a Haddad como “pai do kit gay” — termo pejorativo usado para se referir ao projeto Escola Sem Homofobia elaborado por organizações não governamentais em 2004, que não foi enviado às escolas nem foi criado por Haddad, mas virou polêmica em 2011, quando o petista era ministro da Educação.

    Quanto à segurança pública, o candidato repete as propostas de liberação do porte de armas, de penas mais severas a crimes violentos e implantação de ao menos uma escola comandada por militares por estado.

    Na gestão, repetiu que vai reduzir o número de ministérios e que pretende acabar com o “ativismo ambiental xiita” que, segundo ele sugeriu, é um entrave ao desenvolvimento econômico.

    “Eu não posso virar ‘Jairzinho paz e amor’ e me violentar, tenho que continuar sendo a mesma pessoa. Lógico que a gente usa sinônimos. De vez em quando eu falava palavrões e não falo mais”

    Jair Bolsonaro

    candidato do PSL à Presidência, em entrevista à rádio Jovem Pan, na segunda-feira (8)

    Bolsonaro declarou que, se autorizado pelos médicos a se deslocar, visitará o Nordeste, tradicional reduto petista e região onde o capitão da reserva recebeu menos votos. De modo geral,o candidato ainda enfrenta desconfiança do eleitorado feminino e mais pobre, grupos para os quais Bolsonaro tem procurado se dirigir agora.

    Os acenos no 2º turno

    Bolsa Família

    Nos dias seguintes à votação, o candidato enfatizou suas declarações favoráveis ao Bolsa Família, programa de transferência de renda criado no governo Lula (2003-2010). Além de dizer que não acabaria com o programa, Bolsonaro prometeu ampliá-lo, dando “13º salário” aos beneficiários.

    Mulheres

    Declarações anteriores de Bolsonaro, de teor machista, racista e homofóbico, fizeram com que o candidato enfrentasse forte resistência entre parte do eleitorado feminino. O deputado se diz rotulado injustamente pela imprensa. Em manifestações recentes em suas redes sociais, destacou que suas ações serão para “todas as pessoas”. “Vamos pegar pesado contra a violência para termos um Brasil mais seguro e livre para todas as pessoas, independente de cor, sexualidade e religião”, escreveu na terça-feira (9).

    Haddad: distância de Lula

     

    Haddad tem o desafio de virar o resultado do primeiro turno numa campanha marcada pelo antipetismo. A alta rejeição ao ex-prefeito é reflexo da crise pela qual passa seu partido, após o impeachment de Dilma Rousseff, da prisão de Lula e da recessão econômica.

    No primeiro turno, a figura do ex-presidente (que era o oficial candidato e liderava as pesquisas) era usada para transferir seus votos a Haddad. O ex-prefeito assumiu a candidatura em 11 de setembro, após Lula ser barrado pela Lei da Ficha Limpa.

    No segundo turno, a estratégia é outra. Já na segunda-feira (8), Haddad não repetiu a prática de, após visitar Lula na prisão, conceder entrevista em frente ao prédio da Polícia Federal. As visitas tendem a não ocorrer mais, para evitar os ataques da oposição.

    Na busca pelos votos, Haddad tenta vencer resistências ao seu nome, se aproximando, por exemplo, do setor religioso, parte dele simpatizante a Bolsonaro.

    Na noite de quarta-feira (10), Haddad visitou Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo que relatou o julgamento do mensalão. Barbosa hoje é filiado ao PSB, que apoia oficialmente o petista no 2º turno. O ex-ministro cogitou disputar a presidência, mas depois desistiu. 

    A visita faz parte de seu esforço pela busca de alianças no que chama de “forças democráticas”, num contraponto à figura militar ostentada pelo adversário — que tem reiterado seu respeito à democracia, embora faça elogios à ditadura militar.

    O apelo à democracia é um dos pontos que o petista usa para atacar o adversário. Nesta frente, a estratégia tem sido associar as propostas econômicas de Bolsonaro às medidas do governo Michel Temer, o mais impopular da história.

    “Queremos unir os democratas do Brasil, as pessoas que têm atenção aos mais pobres, projeto amplo, profundamente democrático, que busque justiça social. (...) Nós não portamos armas, vamos com a força do argumento para defender o Brasil e seu povo tão sofrido”

    Fernando Haddad

    candidato do PT, em pronunciamento no domingo (7)

    Os acenos no 2º turno

    Menos Lula e menos PT

    Além de reduzir as menções ao ex-presidente, Haddad alterou a identidade visual de sua campanha. O vermelho, cor do PT, perdeu o destaque nas fotos e materiais que identificam a candidatura, que agora estampam as cores verde, amarelo e azul. A foto de Lula, bem como o slogan “Haddad é Lula”, também não aparecem mais.

    Segurança pública

    Temática que deu força à figura de Bolsonaro, o combate à violência tende a ter mais destaque no plano de governo de Haddad. O petista incluiu em suas propostas a de colocar a Polícia Federal no combate ao crime organizado. Haddad considera ainda incluir em seu programa ideia semelhante à do candidato derrotado Geraldo Alckmin, que propôs a criação de uma guarda nacional.

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