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O que Haddad e Bolsonaro dizem sobre as notícias falsas

Petista apontou ataques diretos à sua família às vésperas do primeiro turno. No Jornal Nacional, candidato do PSL falou em ‘fake news’ contra sua candidatura

     

    Os candidatos à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) se acusaram mutuamente de difundir notícias falsas nestas eleições de 2018.

    No dia 3 de outubro, a quatro dias da votação de primeiro turno, Haddad convocou a imprensa para acusar Jair Bolsonaro e seus apoiadores de difundirem montagens fotográficas vulgares nas quais aparecem a filha e a esposa do candidato petista, vinculadas a conteúdo sexual.

    Um dia depois da votação, Bolsonaro afirmou no Jornal Nacional, da TV Globo, que seus adversários petistas promovem uma campanha de desinformação a respeito de propostas que ele e o economista Paulo Guedes, seu conselheiro da área, pretendem implementar no Brasil.

    Esses são exemplos de pronunciamentos públicos recentes dos dois candidatos que estão no segundo turno das eleições presidenciais.

    Os casos e acusações têm suas particularidades, assim como a intensidade dos ataques feitos nas redes, numa campanha marcada pela desinformação.

    As notícias falsas e o WhatsApp

    A difusão de informações falsas — também conhecidas pelo nome em inglês “fake news” — é uma marca não apenas desta campanha presidencial, mas de muitas outras disputas eleitorais em curso no mundo atualmente.

    O uso do WhatsApp e das redes sociais criou um submundo de informações deliberadamente falsas que se espalham com rapidez e sem qualquer tipo de filtro de verificação.

    66%

    é o percentual de brasileiros entrevistados pelo Datafolha em outubro que dizem usar o Whatsapp

    68%

    é o percentual de brasileiros entrevistados pelo Datafolha em outubro que dizem usar redes sociais

    O Tribunal Superior Eleitoral reconhece que não é capaz de coibir essa prática como deveria. Logo após a votação do primeiro turno, neste domingo (7), a presidente do TSE, ministra Rosa Weber, declarou o seguinte:

    “De fato, ‘fake news’ é o assunto do momento. O que a Justiça Eleitoral está fazendo? No primeiro momento, aprendendo a lidar com ‘fake news’. Neste primeiro momento, foi compreender o que é uma ‘fake news’”

    Rosa Weber

    presidente do Tribunal Superior Eleitoral, em declaração após a apuração do primeiro turno, no dia 7 de outubro de 2018

    Desde o início da campanha, agências de checagem, jornais e portais lançaram iniciativas individuais ou em conjunto para tentar desmentir esses boatos.

    Algumas dessas iniciativas foram apoiadas pelo Google e pelo Facebook, que se comprometeram a reduzir o alcance de notícias comprovadamente falsas, e até a fechar perfis envolvidos na disseminação de mentiras.

    No WhatsApp, do mesmo grupo do Facebook, porém, há maior dificuldade para encontrar as origens dos boatos. O aplicativo de mensagens automáticas se tornou, assim, o principal difusor de desinformação nas eleições.

    Enquanto isso, jornalistas envolvidos no trabalho contra as notícias falsas vêm sendo vítimas de campanhas de perseguição e difamação, acusados de tentar censurar as redes.

    Um dos maiores projetos, o Comprova, reuniu 24 diferentes veículos brasileiros de comunicação, incluindo o Nexo.

    O que diz Haddad

    “Parece que a campanha do Bolsonaro está agindo muito fortemente com ‘fake news’ contra minha família”, queixou-se a jornalistas, em São Paulo, no dia 3 de outubro, o petista Fernando Haddad.

    “São acusações muito vulgares, com imagens vulgares”, afirmou o candidato. “Isso está acontecendo nos últimos dias, sobretudo relacionado ao público evangélico, que cultiva valores que nós também cultivamos.”

    As montagens às quais Haddad se refere mostram ora o próprio candidato, ora sua esposa e filha segurando um pênis de borracha. Em outras falsificações, a vice na chapa do petista, Manuela D’Ávila (PCdoB), aparece usando uma camiseta na qual se lê “Jesus Travesti”.

    Todas essas imagens são falsas e tentam associar Haddad, o PT e a esquerda com o que os eleitores de perfil conservador e religioso podem considerar uma ofensa moral.

    Os evangélicos das mais diversas denominações representam 22% da população brasileira, segundo o IBGE. Metade deles vota em Bolsonaro, de acordo com o Datafolha.

    No dia 6 de outubro, a dois dias da votação do primeiro turno, o TSE determinou, a pedido do PT, que Google e Facebook retirassem de suas redes 35 notícias falsas e montagens grosseiras envolvendo Haddad e sua família.

    O que diz Bolsonaro

    “Não tive mais [votos no Nordeste] por ‘fake news’. Nós não pretendemos acabar com o Bolsa Família, muito pelo contrário”, disse Bolsonaro na noite desta segunda-feira (8), na primeira entrevista após o primeiro turno, no Jornal Nacional da Rede Globo.

    “Nós pretendemos acabar com as fraudes [no Bolsa Família], para que aqueles que realmente precisam possam ter um dinheiro um pouco maior”, disse o candidato.

    Durante a semana, mensagens em redes sociais e no WhatsApp atribuíram ao capitão da reserva o plano de extinguir o programa.

    Ele também se referiu a outras duas informações difundidas durante a campanha: a primeira, de que seu economista pretendia recriar a CPMF (Contribuição Provisória Sobre Movimentação Financeira), extinta em 2007, e a segunda, de que ele pretendia cobrar Imposto de Renda dos mais pobres.

    O candidato se referia a informações publicadas pela imprensa e repercutidas nas redes sociais segundo as quais o economista da campanha de Bolsonaro, Paulo Guedes, disse a um grupo de empresários, em São Paulo, no mês de setembro, que estudava recriar um imposto nos moldes da CPMF e estabelecer uma alíquota única no Imposto de Renda.

    “Não pretendemos recriar a CPMF. Eu fui um dos que votaram contra a CPMF no passado”, disse Bolsonaro ao Jornal Nacional. Ele também afirmou: “Não pretendemos aumentar a cobrança de imposto de renda. É mentira”.

    De forma mais ampla, o candidato do PSL também diz que todas as afirmações de que ele é misógino, racista e homofóbico são mentiras. Nesse caso, o jornal El País compilou num único vídeo todas as declarações de Bolsonaro sobre esses temas. Ele frequentemente diz que é mal interpretado.

    A tentativa de acordo

    Logo após a divulgação do resultado do primeiro turno, na noite de domingo (7), Haddad anunciou que procuraria a campanha do rival, Bolsonaro, para propor a assinatura de um pacto contra a difusão de notícias falsas na campanha.

    “Vamos fazer esse esforço para que eles assinem uma carta de compromisso contra a calúnia e a difamação anônima, que aconteceu nas redes sociais, sobretudo no WhatsApp”, disse Haddad.

    A resposta de Bolsonaro veio numa mensagem de Twitter, na qual ele chama Haddad de “canalha” por propor o acordo. O filho do candidato, Eduardo Bolsonaro, se juntou ao pai, dizendo que não é preciso pacto, “basta ter caráter”.

    Por dois dias, o Nexo procurou a campanha de Bolsonaro por mensagem de texto, por telefone e por e-mail, mas não obteve retorno.

    Fernando Haddad disse ao Nexo por telefone que o fato de Bolsonaro não ter assinado o pacto proposto pela candidatura petista “é um atestado de culpa, uma confissão de culpa”.

    Quando o TSE propôs a adesão dos partidos políticos a um compromisso contra a disseminação de notícias falsas, ainda antes do início da campanha, o PT não quis participar, assim como o PCO e o PTC. O partido de Bolsonaro, o PSL, está entre os que assinaram.

    O impacto das notícias falsas no voto

    O Nexo conversou nesta terça-feira (9), por telefone, com o pesquisador André Miceli, professor e coordenador do MBA em Marketing Digital da FGV (Fundação Getúlio Vargas) sobre a relação da política e dos políticos com as chamadas ‘fake news’.

    Como os candidatos se posicionam em relação às notícias falsas que circulam nas campanhas?

    André Miceli De maneira geral, o que interessa a eles — seja a notícia falsa ou verdadeira — é negar. Essa, na verdade, é uma prática política que vem de muito tempo, é o velho “isso é intriga da oposição”. Agora, está ainda mais fácil usar esse argumento para se referir a qualquer notícia que não agrade. Tudo virou ‘fake news’, mesmo quando não é. O posicionamento será sempre esse: “isso não é verdade. Isso é ‘fake news’”.

    Claro que quando essas ‘fake news’ desrespeitam a família e o próprio candidato, quando tocam a honra dessas pessoas, elas têm o direito e até o dever de se posicionar falando a verdade, ter um direito de resposta, mesmo que não seja possível vincular a autoria dessa informação diretamente ao outro candidato. A imprensa vai ter um papel importante nessa história, porque vai caber a ela dar espaço para o candidato afetado, ofendido, dialogar com a população.

    Qual o limite e a diferença entre um candidato espalhar notícias falsas e apenas interpretar e criticar determinadas posturas e propostas de seu adversário?

    André Miceli A grande questão é que não necessariamente todas essas notícias são feitas diretamente pela campanha dos candidatos. Tem muita coisa — e é difícil separar e identificar a origem de tudo — mas existem muitas informações falsas que saem de simpatizantes das campanhas dos dois lados.

    O PT historicamente já faz isso muito bem, mas o lado do Bolsonaro conseguiu fazer isso nesta eleição. Os dois lados conseguiram engajar muita gente. Como é muito fácil espalhar esses boatos, tem gente produzindo isso ao seu bel prazer.

    Pelo lado dos candidatos, tem duas justificativas. A primeira é que isso é muito conveniente para eles que essas ‘fake news’ que sejam a favor deles sejam realmente espalhadas. E depois, é muito difícil monitorar e ter controle sobre tudo o que as pessoas falam na internet. É muito difícil fazer esse mapeamento.

    Como o sr. avalia o papel da Justiça Eleitoral sobre as ‘fake news’?

    André Miceli Talvez o maior aprendizado deles seja o de perceber que é impossível controlar isso plenamente. Uma das coisas que eu já dizia antes da eleição é o seguinte: o ministro Luiz Fux chegou a dizer que a eleição poderia até ser anulada caso houvesse certeza de que as ‘fake news’ interferiram na eleição. Isso é impossível. Não tem como medir o quanto da opinião de cada pessoa é afetado por meio do acesso a uma notícia falsa.

    Além disso, as notícias falsas servem muito mais para corroborar um pensamento do que para a mudança de voto de alguém. São ‘fake news’ que reforçam ideias que já estão construídas. Ninguém muda de viés político por causa de algo que viu na internet. Mas a pessoa pode mudar de político, mudar de candidato, dentro de um mesmo viés. No caso do segundo turno, pessoas que estão indecisas ou que pretendem anular ou votar em branco, de esquerda ou de direita, podem, corroboradas por notícias reais ou não, tomar uma determinada decisão que já esteja alinhada com seus próprios valores.

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