A violência na eleição. E o efeito do discurso dos políticos

Três pesquisadores analisam o papel dos candidatos diante dos casos de agressão motivados por divergências eleitorais

     

    A campanha eleitoral tem acirrado o clima entre eleitores que pensam diferente. Divergências partidárias são comuns neste período, mas têm se tornado mais frequentes registros de agressões verbais e físicas.

    Há exemplos em pontos diversos do país, e os relatos se tornaram mais numerosos após a confirmação do segundo turno presidencial entre os candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT).

    Logo ao final do primeiro turno, na madrugada de segunda-feira (8), o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, foi morto a facadas em uma discussão política em Salvador. O capoeirista defendeu o voto em Haddad, sendo repreendido, e depois agredido, por Paulo Sérgio Ferreira, que confessou o crime e está preso.

    O histórico de acirramento

    Mesmo antes do início oficial da campanha, casos de violência e intolerância já haviam ocorrido por motivação política, inclusive envolvendo candidatos.

    Em março, tiros, pedradas e bloqueios em estradas foram registrados contra a passagem da caravana de Luiz Inácio Lula da Silva pelo Sul do país. À época, o ex-presidente ainda era o nome oficial do PT na disputa do Planalto — ele viria a ser preso pela Lava Jato e barrado pela Lei da Ficha Limpa.

    Depois, já na campanha do primeiro turno, Bolsonaro sofreu um ataque a faca em Juiz de Fora, em Minas Gerais. O candidato ficou internado por 23 dias. O agressor disse ter motivação política. Ele está preso e, segundo a Polícia Federal, agiu sozinho.

    O cenário do 2º turno

    O candidato do PSL recebeu 46% dos votos válidos no primeiro turno. Capitão da reserva, Bolsonaro ganhou notoriedade com a defesa da ditadura militar, a exaltação de torturadores do regime, a apologia do uso de armas, o endurecimento da ação policial como solução na segurança pública e o ataque a minorias (neste último ponto, tem atenuado as declarações públicas). Na eleição de 2018, ocupou o lugar de principal adversário dos petistas, atraindo um eleitor desiludido com a série de escândalos de corrupção no país.

    Haddad recebeu 29% dos votos. O ex-prefeito substituiu Lula e representa o PT num momento de forte desgaste do partido, marcado por denúncias de corrupção, pelo impeachment de Dilma Rousseff, pela prisão de Lula e pela crise econômica iniciada nos governos petistas. Colou fortemente sua imagem à do padrinho político no primeiro turno, o que lhe garantiu uma rápida ascensão, mas também uma forte rejeição (algo que agora, no segundo turno, tenta atenuar).

    Os atos e denúncias

    Nos três dias seguintes à votação do primeiro turno, houve registros, queixas e relatos de agressões em cidades de estados como Bahia, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul.

    Há também relatos de ameaças sofridas pela comunidade LGBT. E há registros de agressões praticadas contra jornalistas. Durante a campanha, houve ao menos 137 casos de violência contra esses profissionais, segundo levantamento da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

    Abaixo, alguns casos que vieram a público nos últimos dias e foram registrados pela imprensa. A Agência Pública fez um levantamento nacional sobre denúncias de agressões. Parte está sob investigação policial.

    Exemplos

    No Sudeste

    Em São Paulo, uma mulher de 26 anos relatou ter sofrido agressões físicas e verbais de policiais após ser detida em flagrante por pichar os dizeres “ele não” em um muro. Em suas redes sociais, ela disse que os policiais diziam “ele sim” enquanto a agrediam. O caso foi registrado como crime ambiental (em razão da pichação) no 64º Distrito Policial, onde a mulher também relatou agressões. A Secretaria de Segurança Pública afirmou que não há indícios de irregularidade na ação dos policiais e que as denúncias de agressão não constam no termo circunstanciado. Também na capital, um apoiador de Bolsonaro relatou ter sido agredido por eleitores contrários ao candidato. Todos foram levados para delegacia.

    No Nordeste

    Em Natal, uma médica rasgou a receita feita para um paciente de 72 anos, após ele dizer que votou em Haddad. José Alves de Menezes registrou boletim de ocorrência. A infectologista Tereza Dantas declarou-se depois arrependida do que fez.

    No Sul

    Em Curitiba, um estudante que vestia uma camiseta vermelha e um boné do MST foi agredido por outras cinco pessoas nas dependências da Universidade Federal do Paraná. A vítima fala em motivação política. A universidade repudiou o ocorrido.

    Os discursos dos candidatos

    Bolsonaro foi questionado a respeito dos casos de agressões na terça-feira (9). Ele disse lamentar, lembrou já ter sido alvo de violência e que não tem controle sobre as ações de seus apoiadores.

    “Será que a pergunta não tem que ser invertida, não? Quem levou a facada fui eu. É um cara lá que tem uma camisa minha, comete um excesso, o que eu tenho a ver com isso? Eu lamento, peço que o pessoal não pratique isso, mas eu não tenho o controle”

    Jair Bolsonaro

    candidato do PSL, em declaração a jornalistas na terça-feira (9)

    Haddad, nesta quarta-feira (10), disse que Bolsonaro estimula a violência ao elogiar a tortura na ditadura miliar.

    “Meu adversário diz: eu não posso responder pelos atos dos meus correligionários. É como alguém que tem um cachorro bravo, solta da coleira e diz que não pode responder pelas ações do animal. (...) É alguém que naturalizou a violência e agora se assusta com ela”

    Fernando Haddad

    candidato do PT à Presidência, em declaração a jornalistas na quarta-feira (10)

    Na noite de quarta-feira (10), Bolsonaro se pronunciou de forma mais direta em relação aos casos relatados de violência, por meio de uma postagem em suas redes sociais.

    “Dispensamos o voto e qualquer aproximação de quem pratica violência contra eleitores que não votam em mim. A este tipo de gente peço que vote nulo ou na oposição por coerência, e que as autoridades tomem as medidas cabíveis, assim como contra caluniadores que tentam nos prejudicar”

    Jair Bolsonaro

    candidato do PSL, em mensagem nas redes sociais na noite de quarta-feira (10).

     

    A pedido do Nexo, três pesquisadores analisam os efeitos do discurso de políticos sobre seus apoiadores e as responsabilidades deles no atual momento. São eles:

    • Dauto da Silveira, sociólogo e professor do Instituto Federal Catarinense
    • Marcos César Alvarez, sociólogo e pesquisador sênior do Núcleo de Estudos da Violência da USP
    • Mauricio Fronzaglia, cientista político e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie

    O discurso dos candidatos tem efeito sobre seus apoiadores?

    Dauto da Silveira Tem, sim. Se observar o discurso da primeira etapa da votação até o episódio da facada em Bolsonaro, você perceberá que o candidato do PSL (uma vez que o PT ainda não estava com seu real candidato declarado) foi construído em cima de uma ideia de violência. Até o momento não tenho visto por parte da militância petista um discurso semelhante.

    Se nós observarmos os gestos de Bolsonaro em campanha, inclusive ensinando crianças a simular o gesto de armas, as declarações anteriores a respeito de mulheres e gays, a própria escolha de um vice que vem de um passado associado à ditadura militar [o general Hamilton Mourão], todas essas formas de violência simbólica depositadas nesse candidato fizeram com que se acirrasse o clima de violência.

    Esse é um lado muito objetivo do caráter da violência nas eleições. O outro caráter é de uma profunda insatisfação da população em geral contra o sistema político. Há um cenário bastante precário, de desigualdade dentro da sociedade, e, nesses momentos eleitorais, cria-se o terreno propício para esses atos de violência.

    O ato de Bolsonaro em um palanque dizendo que vai metralhar petistas é muito expressivo. Esses atos naturalizam a violência e fazem com que fiéis eleitores se sintam autorizados a fazer o mesmo. Aquele ideário democrático, fruto da redemocratização do país, se desfez. Desde as jornadas de junho de 2013, o que vemos são recorrentes casos de anormalidade política. As eleições já foram ruins em 2014, com a polarização entre Dilma e Aécio. Agora estamos em piores condições.

    Marcos César Alvarez Desde 2013 entramos numa crise econômica e política que nos colocou num cenário eleitoral muito conflitivo. E candidatos assumiram uma retórica que é muito complicada em termos de valores democráticos, em especial no caso de Bolsonaro.

    Eu ainda não consigo falar que existe uma onda de violência porque os casos que eu vejo são via imprensa. E esses casos podem estar aparecendo mais agora devido às próprias narrativas que estão em disputa. Cientificamente não é simples dizer que há uma onda de violência. A campanha levava a acreditar que a violência seria até maior, e não foi.

    O problema do atual momento é que temos narrativas muito fortes disputando o espaço público e calcadas na violência. Uma das partes a estimulou e a valorizou. Não é possível dizer, em termos sociológicos, que uma parcela consolidada da sociedade vê na agressão uma forma de atitude política motivada por esse tipo de retórica.

    Me parece que não é possível achar que todos os votos dados ao Bolsonaro são de defesa da violência. Mas infelizmente [esse discurso] abre essa possibilidade. Eu diria que para a pessoa passar para a violência ela já está predisposta pelo seu contexto local. O problema é que, vendo uma autoridade com discurso dando apoio à violência, a pessoa pode se sentir mais encorajada. Mas diria que para o cidadão comum essa passagem não é simples e não é automática.

    Mauricio Fronzaglia O discurso das lideranças têm efeito sobre seus seguidores. Não é sobre 100% deles, digamos assim, mas há um efeito. Estamos diante de duas lideranças carismáticas (no caso do PT, estou me referindo ao Lula) que inspiram amor e ódio, o que é normal.

    O PT usou como ferramenta de poder a acentuação da polarização entre aqueles que o seguem e entre os que não o seguem. Por outro lado, a oposição (o PSDB de Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin) também se colocou nessa polarização, principalmente na eleição de 2014.

    Esse clima de polarização se acentuou desde o início do século 21. É normal numa sociedade haver conflitos de interesses e de ideias entre grupos sociais. A democracia é o sistema em que os lados em conflito conseguem entrar em acordo. A questão é que se radicalizou o conflito a ponto de tornar difícil o diálogo.

    Qual o papel dos candidatos e das autoridades diante desse cenário?

    Dauto da Silveira Tenho dito que a institucionalidade democrática, ou seja, aquelas instituições que cuidam do terreno democrático (o Judiciário, a Procuradoria e a própria da mídia), têm sido muito relapsas em seu papel. Me parece que o jogo eleitoral já descambou, se tornou muito violento e não vejo por parte dessas instituições um posicionamento mais firme.

    Por parte dos candidatos, o que vemos nestas eleições é a ausência da normalidade democrática. Se Bolsonaro for eleito, o que é possível em razão da atual vantagem dele, este atual clima político pode ser negativo mesmo para ele. Uma coisa é legitimidade eleitoral, outra é a legitimidade política. Esta precisará ser construída dentro da sociedade, dentro da legalidade democrática.

    Marcos César Alvarez O importante é que as autoridades falem que não toleram esses atos e condenem qualquer tipo de violência. Deixar claro que a violência não se justifica sob nenhuma forma e que as ideias e os conflitos terão de ser traduzidos em propostas.

    Mauricio Fronzaglia Seria essencial que os dois candidatos buscassem pacificar sua militância. No ponto em que estamos, se furtar à responsabilidade não é bom. O candidato não pode controlar o ato dos seus seguidores, mas pode mostrar a direção adequada. Pode mostrar que essa direção não é por meio da violência, mas por meio do voto. Já as autoridades precisam ser rigorosas. Não se pode permitir que esses atos se generalizem. Precisa ter ação de prevenção e de inteligência.

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