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Por que o ensino a distância tem crescido no Brasil

Enquanto matrículas em cursos presenciais de ensino superior vêm caindo, número de estudantes em cursos não presenciais já correspondem a 20% do total

     

    Lançado em 2014, o PNE (Plano Nacional de Educação) propõe 20 metas para serem cumpridas até o ano de 2024. Uma delas diz respeito à educação superior. O PNE pretende elevar a taxa de matrícula nessa modalidade pedagógica em 50%, e assegurar que 33% da população, entre 18 e 24 anos, esteja matriculada no ensino superior.

    Os dados do último Censo da Educação Superior, divulgados em setembro de 2018, entretanto, mostram que o número de matrículas caiu. Organizado pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), o relatório refere-se a 2017. Este é o segundo ano consecutivo de queda. Nos cursos presenciais, a queda foi de 24.600 alunos, em relação a 2016. Somando-se os dois anos de queda, são 103 mil matrículas a menos no ensino superior.

    Apesar dessa diminuição, houve um aumento significativo nas matrículas de ensino a distância (EaD), com um crescimento de 17,6% em relação a 2016. Esses estudantes somam hoje 1,8 milhão, representando 21,2% do total de matrículas em todo o ensino superior. Em um intervalo de dez anos, entre 2007 e 2017, a quantidade de estudantes nessa modalidade cresceu mais de três vezes.

    Entendendo a ascensão do EaD

    Josiane Tonelotto, professora e conselheira da Abed (Associação Brasileira de Ensino a Distância), credita esse aumento a uma soma de fatores. A redução de programas de bolsas de estudo e financiamento estudantil, como o ProUni (Programa Universidade Para Todos) e o Fies (Financiamento Estudantil), são dois deles. “As mensalidades dos cursos a distância são mais baixas, então existe uma migração dos cursos presenciais para os EaD. O país também vive uma crise econômica. Existe ainda uma tendência de as pessoas aceitarem mais o EaD como uma forma de capacitação, de formação profissional, e ele também é mais inclusivo, atende pessoas que já deixaram a escola há algum tempo e querem retornar [aos estudos]”, afirmou ao Nexo.

    A média de idade dos matriculados no ensino remoto é de 30 anos, contra a média de 22, verificada nos cursos presenciais. Em nota ao Nexo, o Ministério da Educação afirmou: “O MEC acredita na educação a distância como modalidade inclusiva e que propicia a inserção de tecnologia e novas ferramentas de aprendizagem”.

    O Ministério da Educação cita também um aprimoramento nos padrões dos cursos EaD, com um aumento de polos de ensino da modalidade em 90%. “A qualidade dos cursos passa pelo crivo dos avaliadores do Inep, análise de mérito acadêmico e proposta curricular rígida, baseada em parâmetros estabelecidos pelo Conselho Nacional de Educação (CNE).” 

    Para analisar esse aumento, o Nexo falou com Marciel Consani, doutor em Ciência da Comunicação pela USP e especialista em ensino a distância. Ele observa, nessa expansão, uma maior disponibilidade de oportunidades para o próprio aluno administrar sua formação. “Ainda não chegamos onde poderíamos chegar. A UAB [Universidade Aberta do Brasil] vem verificando sim uma expansão importante, tanto em número e oferta de curso, como na qualidade desses cursos.”

    Porém, Consani aponta que há um aumento na oferta de cursos que visam só ao lucro, e que apenas replicam cursos presenciais nas plataformas onlines “visando economizar recursos de estrutura, de remuneração de professores, sem nenhuma preocupação com o diagnóstico prévio das necessidades dos estudantes, com uma formação cuja qualidade é abaixo da desejável”.

    Quem estuda a distância no Brasil

    Os números indicam que a imensa maioria dos estudantes frequenta a rede particular de ensino não presencial, representando cerca de 90,6% do total. Mulheres, que são maioria no ensino presencial, também o são no ensino a distância e somam 62% do total dos alunos. Ingressantes em licenciatura compõem 46,8% dos matriculados no EaD.

    Uma das mais importantes mudanças registradas, aponta Tonelotto, é a do aumento de unidades de educação remota no país, principalmente em localidades distantes das grandes capitais. “O Brasil tem um tamanho continental. É preciso que essas unidades estejam não só nas capitais, mas longe delas também, no interior. Isso facilitou o acesso a muita gente que via uma barreira em ter que se mudar para poder estudar.”

    Em relação a evasão, Consani aponta uma evolução em relação aos primeiros anos da oferta do curso. “Se você tivesse menos do que 50% de evasão já era um motivo de se comemorar. Antes o curso online era uma proposta pronta a qual o aluno deveria se moldar, e os alunos e estudantes que ainda não tinham hábitos digitais apresentavam muita dificuldade de acompanhar isso. Esses números hoje em dia foram bastante reduzidos.”

    Outro aspecto é o perfil etário dos ingressantes: em geral são pessoas que já estão no mercado de trabalho e que buscam uma melhoria de vida com a nova graduação “para garantir uma posição melhor em sua carreira”, afirma Tonelotto.

    Perspectivas

    Segundo um artigo publicado na revista Espaço Aberto, ligada à USP, o Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes) de 2007 aponta que, “em sete das 13 áreas de conhecimento, as maiores notas foram obtidas por alunos de EaD”. Apesar disso, há uma forte crítica de alguns setores sobre cursos não-presenciais ligados às áreas de licenciatura.

    Consani afirma que “a distância é um fator que levaria um curso a ter menos qualidade, ou até um impacto negativo nesse caso, sobre a formação. Mas eu vejo isso como uma possibilidade de você ampliar essa oferta e manter a qualidade”.

    Tonelotto concorda e acrescenta todos os cursos de licenciatura têm como prerrogativa para a formação os estágios obrigatórios, sem os quais os estudantes não conseguem se graduar. “Não existe um curso de pedagogia que seja totalmente online. Atividades são realizadas em ambientes simulados, em que esse estudante fica muito próximo de professores e de uma situação de aula.”

    O MEC, em nota, afirma que a mesma exigência é feita em relação aos cursos da área da saúde: ele “terá sempre e obrigatoriamente momentos presenciais que garantam a qualidade da formação do egresso naquelas práticas inerentes ao curso”.

    “Mesmo para cursos presenciais você tem que ter um hospital escola dando suporte, permitindo que os alunos possam interagir, fazer residência ter uma rotina prática, e isso também se verifica nos cursos online”, afirma Consani ao Nexo.

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