Como tirar o melhor dos anos de formação universitária

O ‘Nexo’ ouviu três professores do ensino superior de áreas distintas sobre as experiências, iniciativas e habilidades que consideram mais valiosas

 

Há cerca de oito milhões de estudantes matriculados em cursos de graduação no Brasil, segundo o Censo da Educação Superior de 2017.

Embora o número ainda represente menos da metade da população de jovens entre 20 e 24 anos no país, o acesso ao nível superior se ampliou nas últimas décadas. Mas nem sempre com o suporte acadêmico necessário.

“Massacramos adolescentes com conselhos sobre qual faculdade escolher. Os enchemos de dicas para entrarem. E depois? Ficamos em silêncio, usando de menos urgência e menos palavras sobre o assunto de se navegar os anos cruciais da universidade da melhor maneira”, escreveu Frank Bruni, colunista do jornal americano The New York Times, em um artigo de opinião publicado em agosto de 2018.

No Brasil, embora se prove mais verdadeiro para os jovens de classe média e alta, esse desequilíbrio também existe.

“A ênfase na escolha da carreira não é generalizada. É dada para jovens da classe média e da classe alta. Para os jovens da classe baixa, a ênfase é: ‘saia do ensino médio e vá procurar um emprego’. Tanto é que, nas escolas públicas, se ensina a fazer currículo, e nas privadas se fala em escolha de carreira. Já há uma desigualdade aí”, disse  Ângela Soligo, professora da Faculdade de Educação da Unicamp, em entrevista ao Nexo.

“De qualquer maneira, há uma crença de que, quando o estudante acessa a universidade, ele já sabe o que quer, e aí a universidade não investe na continuidade dessa discussão”, diz Soligo. “O que é um engano, e as estatísticas de evasão universitária mostram isso. Muitos entram achando que sabem o que queriam e não sabem, ou descobrem que o que achavam que queriam não é exatamente aquilo. Mas existe uma crença de que, uma vez ali, o aluno tem que se enquadrar nessa vida universitária.”

Várias universidades públicas e privadas contam hoje com serviços de apoio ao estudante. Recebem alunos que enfrentam dificuldades de diferentes ordens: acadêmicas, pessoais e emocionais, e também econômicas, como de permanência estudantil.

Estão “exatamente preocupados com esse aluno que está na universidade”, segundo Soligo, são muito procurados por alunos e bastante importantes.

Tendo em vista a pouca orientação que, em geral, estudantes recebem para esta etapa fundamental de sua formação, o Nexo consultou três especialistas, incluindo a professora da Unicamp, para compor um panorama de iniciativas, competências e experiências desejáveis na trajetória de universitários de todas as áreas:

  • Ângela Soligo é professora do Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação da Unicamp
  • Guilherme Martins, coordenador da graduação em Administração do Insper-SP
  • Mauro Braga, professor aposentado da Universidade Federal de Minas Gerais – químico de formação e docente do Departamento de Química da UFMG desde a década de 1970, dedicou-se posteriormente ao estudo de questões ligadas ao ensino superior e ocupou diversos cargos de gestão acadêmica

A partir das recomendações de Soligo, Braga e Martins, listamos abaixo os principais pontos lembrados.

Ir além da sala de aula

Os três educadores destacaram a importância de, na universidade, não restringir o aprendizado às aulas.

A professora da Unicamp aconselha os alunos a serem generosos consigo mesmos.

“Permitir-se aprender, e aprender para além da sala de aula. Entender que parte da formação está dentro dela, mas parte está fora: nos trabalhos em grupo, nas atividades extraclasse, na convivência com os colegas, na participação do movimento estudantil, no conhecimento da estrutura da universidade, no estudo. Ser generoso consigo mesmo é ter disposição para aprender, e para aprender além daquilo que vai ser pedido em sala”, disse em entrevista.

A oportunidade de trabalhar com a investigação científica e de exercitar a criatividade são valorizadas por Mauro Braga. Tanto ele quanto o coordenador do Insper falaram em “aprender a aprender”: para Braga, isso significa que o estudante deve tentar “andar cada vez mais com as próprias pernas”, tornando-se menos dependente das aulas e dos professores.

“Estou assumindo que a [parte da] sala de aula está sendo bem feita, porque não dá para largar, para voltar toda a experiência para fora”, diz o coordenador do Insper, Guilherme Martins, ao defender que o aluno vá além.

“Várias universidades têm oferecido oportunidades para o aluno ir bem além do mínimo básico de sala de aula”, diz Martins. “De certa forma, o que está em uma disciplina é o mínimo esperado para aquela profissão, mas ele pode ir muito além. Nesse além, há tanto aspectos de aprofundamento profissional, conteúdos de sala de aula específicos em que ele pode se aprofundar, quanto o desenvolvimento de habilidades socioemocionais que, cada vez mais, temos visto que são essenciais para diferenciá-lo ao longo da carreira.”

“A maioria dos cursos têm uma carga horária fixa, ligada às disciplinas, e oferece uma gama de atividades e, na prática, quando o aluno vai procurar estágio e emprego depois, a história que tem para contar não é de uma disciplina que ele fez, mas das atividades extra-sala de aula”

Guilherme Martins

Coordenador da graduação em Administração do Insper

Diversificar

Em uma pesquisa feita por Frank Bruni, do The New York Times, com estudantes do programa americano de bolsas universitárias The George J. Mitchell Scholarship, os entrevistados da área de Ciências disseram que, em retrospecto, gostariam de ter dado mais atenção a disciplinas de Humanidades.

Por sua vez, aqueles que eram da área de Humanidades desejavam ter aprendido ciências da computação e estatística.

A exemplo de sua própria trajetória, que começou na química e terminou na educação, o professor aposentado da UFMG Mauro Braga considera importante que a formação universitária inclua um “passeio” por diferentes campos do conhecimento, frequentando atividades e disciplinas diversas e circulando pela universidade. 

Braga defende que essa amplitude beneficia o estudante profissionalmente, preparando-o para se adequar melhor às circunstâncias e aumentando suas oportunidades de atuação no mercado de trabalho.

Estar aberto

“Esse é um período de muita descoberta. Então [o estudante] deve estar aberto para isso”, disse Braga ao Nexo. Essa atitude permite abrir a cabeça e as possibilidades do que se pretende para o futuro.

Ângela Soligo, da Unicamp, também considera essa abertura fundamental.

“Nós hoje temos muitos estudantes que até reproduzem bem os saberes, mas não estão abertos ao conhecimento, no sentido de estarem dispostos a rever as suas crenças. E o conhecimento nos obriga a revê-las. Porque ele vai além do aparente, do superficial, da experiência individual”, disse a professora.

Por isso, por mais dicas de percurso que possam ser dadas, seguir um roteiro pronto de sucesso não funciona.

“Acontece de o aluno entrar e querer seguir um ‘script’, e é extremamente empobrecedor. A formação não se dá por um caminho reto. É preciso conhecer as muitas possibilidades de aprendizagem que a experiência universitária te dá. Inclusive porque, quando você entra em um curso, não conhece a profissão. É naquele momento que vai descobrir várias possibilidades de aprendizagem, inclusive em que área pode atuar. Não tem como ter isso antes, é preciso entrar para saber”

Ângela Soligo

Professora da Faculdade de Educação da Unicamp

Conviver com a diferença

Para Soligo, além dos componentes básicos da experiência universitária – acesso ao conhecimento, a saberes do exercício profissional, à aprendizagem da pesquisa e da atitude investigativa –, um de seus aspectos mais ricos é o “convívio com diversas formas de pensar e interpretar a realidade” que dão ao aluno a possibilidade de desenvolver o pensamento crítico e a reflexão.

“O convívio com a diferença, com estudantes que têm experiências de vida diferentes, origens diferentes, experiências culturais distintas é uma aprendizagem extremamente rica que acontece no contexto universitário. O desenvolvimento de atitudes políticas, entender o que são, fazer escolhas, ser cidadão, pensar a realidade”, destacou a professora.

Desenvolver capacidades socioemocionais

Já mencionadas pelo coordenador do Insper como habilidades a serem desenvolvidas na busca do aluno por ir além da sala de aula, as tão faladas “competências socioemocionais” destacadas por ele foram trabalho em equipe, comunicação, curiosidade intelectual e lidar bem com feedback.

A primeira prepara os alunos para, como profissionais, “lidar com uma série de situações que não se pode prever de antemão, interagindo em equipe para resolver o problema”.

“Aquela ideia de que quem vai mudar o mundo é um alguém que está atrás de um computador, que não fala bem, que não fala com ninguém, é uma falácia. Um gênio ou outro se sobressai, e, quando se sobressai, já aprendeu a se comunicar bem”, disse Guilherme Martins em entrevista.

“É essencial saber ‘se vender’, transmitir uma ideia, argumentar. E isso se aprende, não é inato. É treino e retorno. Pode-se ter maior ou menor facilidade, mas se desenvolve”.

Martins também aponta a “capacidade de dar e ouvir feedback sem melindre” como essencial para o crescimento de qualquer estudante e futuro profissional.

É importante entender que, “quando alguém disser que seu trabalho não está bom, não é que a pessoa não gosta de você. Você só aprende quando aceita ou entende que não atingir um nível bom de desenvolvimento do seu trabalho acontece com todo mundo”, disse.

Por conta das dificuldades que enfrentaram ao longo da vida, estudantes cotistas já chegam à universidade tendo habilidades socioemocionais mais elevadas, segundo uma entrevista do professor  do Insper e da USP, Naércio de Menezes, concedida ao Nexo em 2017.

Se é verdade que nem todos os estudantes vão gozar da mesma estabilidade e de condições iguais para tirar o máximo proveito da universidade, a professora da Unicamp Ângela Soligo afirma que “há um grande engano” que se propaga na sociedade, que leva à crença de que um ingressante que teve menos oportunidades não vai ser capaz de extrair o máximo da universidade.

“Dadas condições de permanência [ao aluno], todos os estudos sobre ações afirmativas mostram que o aluno que na vida inteira teve menos oportunidade, atua no sentido de compensar isso quando esta oportunidade é dada. O progresso deles é imenso. Esses alunos têm as mesmas condições de usufruir da experiência universitária, e às vezes usufruem mais, porque têm noção quanto custou para estar ali”, disse Soligo.

Aprender um novo idioma e entender de tecnologia

Duas competências “extras”, citadas, respectivamente, por Mauro Braga da UFMG e Guilherme Martins do Insper, são a aquisição de um novo idioma e o aprendizado tecnológico. 

“Entender como é a tecnologia por dentro, não só como usuário, complementa bastante a formação hoje. O estudante cada vez mais vai ter que entender de tecnologia, vivenciar tecnologia”, diz Martins.

Formação contínua

A experiência universitária deve formar um sujeito cidadão, “capaz de pensar sobre a realidade e atuar nela”, segundo Ângela Soligo.

“Na vida profissional, esse sujeito bem capacitado terá mais segurança na procura e na obtenção de um trabalho. Embora não haja garantia. No Brasil de hoje, estamos vivendo um período de desemprego, de poucas expectativas e possibilidades. Garantia não tem pra ninguém. Mas esse sujeito bem capacitado pode mostrar suas habilidades, e isso será valorizado”, disse.

“Há uns 20 anos, tive a oportunidade de receber um grupo de estudantes que estavam chegando à universidade e falei aos alunos que a formação de um profissional nunca estaria completa”, disse o professor aposentado da UFMG, Mauro Braga, ao Nexo.

“Ou, pelo menos, que só estaria completa no dia em que ele resolvesse se aposentar daquela atividade. Ao longo da vida, ele teria que, por processos formais ou informais, sempre continuar a sua formação. E é isso que eu acho que o estudante que está começando precisa compreender hoje. Que ele tem que se preparar para um processo contínuo e constante de formação, até o fim da sua carreira.”

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