Ir direto ao conteúdo

Como o PSL tomou espaço da centro-direita na Câmara

De nanico à segunda maior bancada eleita em 2018, partido fica com tamanho que há pouco tempo era do PSDB e do MDB

     

    Até 6 outubro de 2018, PSL era classificado como um partido pequeno, ou nanico, no jargão político. Após o primeiro turno das eleições, no domingo (7), a legenda do candidato à Presidência Jair Bolsonaro passou a ser a segunda maior bancada da Câmara dos Deputados, ocupando 52 das 513 vagas.

    O PSL tornou-se o partido de Bolsonaro somente em março de 2018, quando o deputado federal deixou o PSC e migrou para a nova legenda, que assegurou ao capitão da reserva do Exército a candidatura à Presidência.

    O Partido Social Liberal terá apenas quatro deputados a menos que o PT, legenda do adversário de Bolsonaro no segundo turno, Fernando Haddad. No Senado, o PSL, que atualmente não tem representantes, passará a ter 4 nomes em 2019.

    Entre os deputados eleitos está um dos filhos do candidato à Presidência, Eduardo Bolsonaro, que conquistou 1,8 milhão de votos, a maior votação da história para Câmara em números absolutos. Entre os senadores, uma das vagas ficou com outro filho de Bolsonaro, Flávio, eleito pelo Rio com 31,3% dos votos (4,3 milhões de votos). Em 2018, 54 das 81 vagas do Senado estavam em disputa.

    Com o avanço registrado nas urnas no domingo (7), o PSL assumirá o posto de uma das maiores bancadas da Câmara, posição até então ocupada por legendas tradicionais, em especial dos campos da direita e da centro-direita, como DEM, MDB e PSDB.

    Os deputados em 2019

     

    Os senadores em 2019

     

    O crescimento do PSL na configuração do próximo Congresso vem no embalo do desempenho de Bolsonaro nos cenários político e eleitoral. O candidato recebeu 46% dos votos válidos no primeiro turno das eleições, ante 29,2% de Haddad.

    A representação partidária na Câmara e no Senado é essencial para o futuro presidente. Ter mais legendas alinhadas ao seu projeto político tende a facilitar a negociação do governo federal na busca de votos para aprovar medidas no Congresso e derrotar a oposição. Além disso, o número de deputados é adotado como critério de divisão dos fundos partidário e eleitoral e do tempo de TV.

    Os votos perdidos da centro-direita

    O desgaste das legendas tradicionais, atingidas por sucessivas investigações de corrupção, fez com que parte do eleitorado passasse a ver em candidatos filiados a legendas como o PSL a solução para os problemas do país.

    Embora o PT tenha sido bastante afetado por essa conjuntura negativa, partidos identificados à direita e à centro-direita, em especial aqueles que deram suporte ao governo Michel Temer, deram sinais de que não passaram incólumes às crises política e econômica.

    O crescimento do PSL

    Já as siglas e candidaturas que apostaram no discurso mais conservador nos costumes e focado no combate à violência e à corrupção demonstraram melhor desempenho nas urnas no primeiro turno.

    Entre os 11 partidos que ampliaram seus eleitos na comparação com 2014, a maioria delas enquadra-se no espectro da direita ou centro-direita, de acordo com classificação proposta pelo cientista político Cláudio Couto, professor da FGV-SP.

    O salto maior foi do PSL, que, na definição feita ao Nexo pela cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida, enquadram-se no que se entende por extrema direita, classificação igual a de Couto.

    Comparação

     

    Entre os 52 deputados do PSL, 13 têm algum vínculo militar, considerando candidaturas que declararam como ocupação serem policiais, bombeiro militar, militar reformado ou integrante das Forças Armadas, segundo levantamento da Folha de S.Paulo. Ao todo, há 22 deputados com essa vinculação, entre vários partidos, mais do que os 10 eleitos em 2014.

    A bancada eleita do DEM cresceu de 21 para 29, interrompendo uma trajetória acentuada de queda do número de eleitos. Mas, ainda assim, segue distante do que a legenda já foi no passado. Em 1998, por exemplo, quando ainda era o PFL, a sigla elegeu 105 deputados. Quando comparamos o tamanho da atual bancada (ainda com 43 nomes) com a eleita, a diminuição do DEM fica mais evidente.

    Também cresceram algumas legendas de centro-esquerda ou de esquerda, como o PDT, do candidato derrotado Ciro Gomes (que aumentou de 20 para 28 eleitos), e o PSOL (de 5 para 10).

    Quem perdeu mais votos

    Entre os partidos que terão a bancada reduzida em 2019 na Câmara, as perdas mais significativas estão entre expoentes da centro-direita, o MDB e o PSDB. Essas siglas têm em comum quadros tradicionais acusados e investigados por corrupção, defenderam o impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e foram base importante do governo Michel Temer, o mais impopular da história recente.

    Comparação

     

    No campo da esquerda e centro-esquerda, o PT elegeu 13 deputados a menos, mas ainda dispõe da maior bancada da Câmara. PSB e PCdoB, 2 e 1 a menos, respectivamente.

    O que pensa o PSL

    Quando Bolsonaro formalizou sua filiação ao partido, em março de 2018, por meio de nota, o partido afirmou que o PSL e o deputado tinham em comum o “pensamento econômico liberal, sem qualquer viés ideológico”, além da defesa da propriedade privada e da valorização das Forças Armadas e de segurança.

    O partido diz acreditar numa agenda liberal na economia e no “conservadorismo”, definido como aquele que “respeita e deseja preservar as instituições”, como família, entidades religiosas e polícia.

    “Liberalismo na economia significa que o Estado deve se intrometer o menos possível na vida econômica do país, permitindo que os indivíduos e as empresas possam atuar livremente, em um ambiente desburocratizado e imune à intervenção estatal excessiva”

    PSL

    texto publicado no site oficial da legenda

    A trajetória de Bolsonaro como deputado federal ficou marcada por um discurso de ataques a minorias, defesa da ditadura militar e exaltação de torturadores daquele período. Na campanha, manteve elogios ao período da ditadura, defende a liberação do porte de armas, adota um discurso de tom religioso em nome de “valores familiares”, mas nega ser machista, homofóbico ou racista.

    No campo econômico, o candidato também apresentou plano classificado como liberal, formulado com apoio do economista Paulo Guedes.

    A aproximação de Bolsonaro ao PSL incomodou parte de apoiadores da legenda, que integravam o Livres, movimento de renovação política alinhado às ideias liberais (tanto na economia quanto nos costumes). Antes mesmo da filiação de Bolsonaro, o Livres deixou o PSL e não declarou apoio formal a nenhum candidato à Presidência. A crítica principal deles era que o deputado era um representante da “velha política” e não estava inteiramente alinhado aos ideais do grupo.

    ESTAVA ERRADO: O gráfico com a comparação das bancadas eleitas pelo PSL, DEM, Podemos, PHS, PRP, Patriota e Avanta informou que o PSL elegeu 8 deputados em 2014, quando somente 1 nome foi eleito. A informação foi corrigida às 17h44 de 27 de outubro de 2018.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: