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A sombra de Bolsonaro na disputa do 2º turno do governo de SP

Enquanto o candidato tucano se associa ao nome do PSL à Presidência, adversário do PSB busca neutralidade

     

    Os paulistas terão de voltar às urnas em 28 de outubro para votar para presidente e também para definir quem será o futuro governador, algo que não ocorria desde 2002 no estado.

    O segundo turno será disputado por João Doria, do PSDB, partido que ocupa o Palácio dos Bandeirantes há seis mandatos consecutivos e venceu as últimas três eleições ainda no primeiro turno, e Márcio França, do PSB, atual governador, um antigo aliado dos tucanos. Doria, que é ex-prefeito de São Paulo, recebeu 6,4 milhões de votos válidos. França recebeu 4,3 milhões de votos.

    O resultado das urnas

     

    Doria e França têm em comum a proximidade com Geraldo Alckmin, candidato do PSDB derrotado à Presidência. Foi Alckmin que apostou em Doria como candidato à Prefeitura de São Paulo em 2016. E França era o vice do tucano durante a gestão Alckmin no governo de São Paulo.

    Embora do mesmo partido, Doria escondeu a imagem de Alckmin no primeiro turno. Com o tucano estagnado nas pesquisas presidenciais, o ex-prefeito evitou agendas conjuntas com o padrinho político.

    Mas se na primeira etapa a disputa presidencial não apareceu de forma explícita na campanha estadual, no segundo turno o embate entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) tende a ter reflexos no pleito paulista, em especial por causa da figura do capitão da reserva, que recebeu 46% dos votos no país. Em São Paulo, Bolsonaro recebeu 53% dos votos.

    João Doria: rejeição e avanço conservador

    Tão logo se confirmou o segundo turno presidencial entre Bolsonaro e Haddad, na noite de domingo (7), Doria declarou seu apoio pessoal ao capitão da reserva, mesmo sem uma definição oficial do partido.

    A manifestação de Doria acentuou as divergências entre tucanos e explicitou o distanciamento entre o ex-prefeito e Alckmin, que o acusou de traição durante reunião da legenda nesta terça-feira (9).

    O ex-prefeito, que no passado criticou o “extremismo” de Bolsonaro e disse que recusaria seu apoio, sinalizou já no final do primeiro turno sua intenção de aproximação com o capitão da reserva. Doria e Bolsonaro são políticos que fizeram do ataque ao PT uma das estratégias para atrair votos do eleitorado antipetista.

    “Eu declarei apoio ao candidato Bolsonaro por sua posição contra o PT, Haddad e Lula, mas não dei um endosso a todas as suas posições”

    João Doria

    candidato do PSDB ao governo de São Paulo, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em 9 de outubro

    Doria também passou a apostar no discurso mais duro na segurança pública, outra marca do candidato do PSL. Na reta final do primeiro turno, afirmou que, se eleito, a Polícia Militar vai “atirar para matar”, numa declaração que acabou contestada pelo próprio comando da PM. Ainda no primeiro turno, aliados reclamaram que Doria, mesmo que implicitamente, incentivava o voto “Bolsodoria”, para Bolsonaro à Presidência e Doria ao governo do estado.

    A visão do ex-prefeito caminha junto da percepção de que o tema atrai parte do eleitorado e dialoga bem com a pauta mais conservadora, que domina as campanhas das candidaturas que, até o momento, tiveram bons resultados no primeiro turno — a exemplo da expressiva votação de Bolsonaro e da bancada eleita na Câmara e no Senado.

    A despeito do aceno de Doria, a campanha do candidato do PSL reagiu com indiferença ao tucano. “Não vamos entrar nessa briga doméstica aqui em São Paulo”, afirmou o deputado federal Major Olímpio (PSL), recém-eleito senador por São Paulo.

    O 2º turno de Doria

    O embalo antipetista

    O clima antipetista favorece Doria, que já explorou esse discurso nas eleições de 2016, quando foi eleito prefeito de São Paulo já no primeiro turno, derrotando Haddad, então candidato à reeleição.

    A rejeição de Bolsonaro

    O candidato do PSL foi bem-sucedido no primeiro turno, mas era quem tinha o mais alto índice de rejeição entre parte do eleitorado. Doria parece atento aos riscos de atrair a rejeição do candidato. Não à toa, o tucano afirmou discordar de Bolsonaro quando ele defende a ditadura militar e, em outro contraponto, afirmou apoiar a igualdade de direitos entre homens e mulheres — faixa do eleitorado mais resistente ao presidenciável.

    A própria rejeição

    No primeiro turno, Doria tinha o índice mais alto de eleitores que declaravam não votar nele “de jeito nenhum”, de 38%, segundo a pesquisa de 6 de outubro do Datafolha. Na capital, a rejeição chegou a 49%. O desempenho negativo é atribuído à renúncia de Doria à prefeitura para disputar o governo. A saída prematura do cargo é um dos principais pontos explorados pela campanha de França.

    A queda do PSDB

    O partido de Doria teve seu pior momento no cenário nacional. Alckmin terminou a disputa pela Presidência em quarto lugar, e a bancada do PSDB na Câmara terá 20 deputados a menos em 2019. Doria, mesmo sendo o mais votado em São Paulo, teve desempenho inferior ao registrado por tucanos em eleições anteriores. Em 2006, 2010 e em 2014, o PSDB foi eleito e/ou reeleito no primeiro turno, com média de 55% dos votos.

    Márcio França: desvantagem e neutralidade

    O atual governador começou a disputa pela reeleição sem dar sinais de que teria chances de chegar ao segundo turno, numa campanha liderada ora por Doria ora por Paulo Skaf (MDB).

    Apenas na reta final da campanha, França cresceu nas pesquisas. O candidato cravou seu lugar na segunda etapa com uma estreita margem de 89.133 votos (0,44% do total de votos válidos) em relação a Skaf.

    O governador não apostou no clima antipetista, mas explorou o tema da segurança pública em sua campanha. França tem como vice a coronel da PM Eliane Nikoluk (PR) e está coligado com partidos identificados à direita, como PSC, PTB e PHS. Ainda em setembro de 2018, a vice declarou voto em Bolsonaro, o que fez França vir a público dizendo que o posicionamento era exclusivamente de Nikoluk.

    Definido o segundo turno presidencial, a direção nacional do PSB optou por apoiar Haddad, mas deu liberdade para França ficar neutro. Em razão das divergências entre o PSB nacional e o PSB paulista, França já vinha afirmando que preferia a neutralidade e evitou fazer críticas aos dois candidatos. O PT sofre alta rejeição entre os paulistas.

    “Se depender de mim, a gente não vai apoiar nenhum dos dois. São Paulo tem de fazer a unidade do Brasil, e essa unidade, neste momento, não é a divergência”

    Márcio França

    candidato do PSB à reeleição, em declaração a jornalistas na segunda-feira (8)

    O 2º turno de França

    O contexto nacional

    A proximidade entre PSB e PT no campo nacional já era explorada pela campanha de Doria para atacar França. O candidato tucano tenta associar ao governador a imagem de “esquerdista” e “socialista”, recorrendo ao termo que dá nome ao partido do adversário, e com frequência refere-se a ele como “Márcio Cuba”.

    A busca pelo voto

    Doria foi o mais votado em 509 dos 654 municípios paulistas. França, por sua vez, venceu em 101 cidades. O candidato do PSB, portanto, terá de correr atrás do voto do eleitor que, por ora, está majoritariamente do lado tucano.

    A máquina pública

    França tem ao seu favor o fato de estar no governo, o que o deixa mais em evidência, já que em paralelo às atividades de campanha acumula as ações oficiais que ainda desempenha.

    O retrospecto

    Desde a redemocratização, nas eleições em que a disputa foi para o segundo turno em São Paulo, houve virada em 1990 (quando Luiz Antônio Fleury Filho derrotou Paulo Maluf) e 1998 (quando Mário Covas superou, novamente, Maluf). Em outros dois pleitos, quem liderou o primeiro turno saiu vitorioso, caso de Covas em 1994 e Alckmin em 2002.

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