A busca por cosméticos ‘naturais’. E a discussão sobre o termo

O mercado de orgânicos já movimenta bilhões no Brasil, mas legislação sobre produtos fabricados com menos ingredientes sintéticos ainda não existe

     

    Comprar menos e com mais qualidade é como a maioria dos brasileiros prefere consumir, de acordo com estudo publicado em 2015 pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds). Alinhado a isso está o mercado dos orgânicos, que segundo a Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário registra crescimento anual médio de 20%, com expectativa de faturar cerca de R$ 4 bilhões em 2018, pelos dados do Sebrae (Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas).

    A alta do consumo sustentável, do ramo da alimentação à indústria cosmética, gera uma maior procura por produtos livres de substâncias que agridem o meio ambiente ou que tenham sido produzidos em situações degradantes, com sofrimento animal ou humano.

    A regulamentação para produtos orgânicos já está vigente desde 2007. Para receberem a certificação de orgânico, esses produtos são definidos, pela Federação Internacional, como uma alternativa agrícola segura e sustentável, baseada na interação dinâmica entre o solo, as plantas, os animais, as pessoas, o ecossistema e o meio ambiente.

    Esse respeito se traduz em itens como a rastreabilidade do produto (é possível saber onde e como ele foi produzido); ao uso de mão de obra paga a contento; à garantia que em todo o processo industrial não houve sofrimento animal; ao cultivo de matéria-prima livre de agrotóxicos e defensivos que agridam ao meio ambiente. Insumos, adubos e repelentes usados em uma lavoura orgânica precisam ser certificados.

    Segundo o Ministério da Agricultura, hoje existem 17.075 registros de entidades produtoras de orgânicos no país. Em 2013 havia apenas 6.700 registros.

    Quando o assunto são os cosméticos, entretanto, há complicações. A falta de uma legislação específica dificulta a computação de dados. Em entrevista ao Nexo, Priscila Hauffe, coordenadora de vendas da EcoCert, empresa de certificação internacional de produtos orgânicos, afirma que não há normativa no país que estabeleça o que é um cosmético orgânico. Isso porque “o autor dessa ação é o Ministério da Agricultura, mas quem regulamenta o setor de cosméticos é a Anvisa”. Hauffe diz que hoje o setor está em um “limbo da legislação”.

    Em nota enviada ao Nexo, a assessoria de imprensa da Anvisa respondeu apenas que sua regulamentação não está relacionada ao fato de um produto ser natural ou sintético, “mas sim se, sendo natural ou sintético, representa algum risco para o consumidor”. Assim, cabe à própria indústria reconhecer, em certificações próprias, os itens necessários para usar nomenclatura adequada ao processo.

    Quem mais se preocupa com esse limbo são as empresas voltadas para o setor. “O fato de não ter regulamentação dentro das nossas leis brasileiras atrapalha muito, faz com que a gente tenha de investir em certificações internacionais para que o consumidor saiba o que está levando para casa”, disse ao Nexo Patrícia Lima, fundadora da marca de cosméticos Simple Organic.

    Selo “verde”

    “Natural”, “verde” e “orgânico” são muitas vezes utilizados como sinônimos, porque não existe na legislação nada que fale explicitamente sobre o termo “natural”. A palavra passou a ser usada, assim, como argumento de venda. Na ausência de fiscalização, cada um usa o que quer no rótulo.

    Patricia Lima chama o marketing verde na beleza de “greenwashing”, referindo-se a produtos e marcas que “têm se vendido como tal, sem o serem efetivamente, enganando o consumidor que acaba acreditando em rótulos verdes, folhinhas que são colocadas na logomarca, marcas com nome ‘natural’ ou ‘botanical’, entre outras palavras que remetem a esse universo”.

    Há pelo menos duas certificadoras atuando no país, a EcoCert e o IBD (Instituto Biodinâmico). De modo geral, ambas trabalham segundo três premissas: cosméticos naturais se destacam dos demais produtos de beleza, chamados “sintéticos”, pelo uso limitado a 5% de matéria-prima derivada do petróleo (como silicone); por não terem sido testados em animais; por não serem feitos com ingredientes geneticamente modificados (transgênicos).

    A estratégia das empresas que querem aproveitar a abundância de produtos naturais no país é procurar se adequar a essas normativas privadas, em busca de certificação para poder exportar.

    “De 3 anos para cá, houve um aumento significativo dessas empresas que estão buscando a certificação de produtos cosméticos. O consumidor brasileiro só agora está começando a ler rótulos de produtos.”

    Priscila Hauffe

    coordenadora de vendas da EcoCert

    Lima também prevê essa mudança. “A gente acredita que, com o crescimento do mercado, esse cenário em breve não vai ser mais aceito [a ausência de legislação]. Os processos de certificação são lentos e têm um custo elevado.”

    A EcoCert nasceu na França, em um projeto de unificação das 5 maiores certificadoras da Europa -- cada uma tinha seu próprio selo e suas próprias normas. “[As empresas] harmonizaram suas normas e lançaram a primeira versão em 2010 da certificação Cosmo. E ficou decidido entre essas certificadoras que, a partir de janeiro de 2017, qualquer novo produto a ser certificado deveria ser por essa nova norma”, explica Hauffe. Para ganhar o selo, é preciso comprovar que todo o processo para geração daquele produto foi feito de maneira sustentável, desde a matéria-prima até a embalagem.

    Maquiagem natural: o mercado dos millennials

    Segundo a empresa Euromonitor International, o Brasil ocupa a 3ª posição no ranking mundial no consumo de cosméticos, e a cada ano se aproxima mais dos líderes Estados Unidos e Japão.

    Em 2025, os millenials comporão 75% da força de trabalho -- e de consumo. Eles procuram produtos ética e ecologicamente corretos, que sejam feitos através de boas práticas.

    A Simple Organic, por exemplo, marca criada por Lima, surgiu de uma preocupação quando ela estava grávida. “Decidi deixar de usar maquiagem química e fui pesquisar opções de maquiagem natural, porém naquele momento não me identificava com as marcas disponíveis no mercado.”

    Seu comportamento coincide com a lógica adotada pela geração que hoje tem entre 18 e 34 anos, e que representa 30% da população mundial.

    Não só novas empresas estão de olho nesse mercado. “Esse comportamento do consumidor de se preocupar com aquilo que está usando é percebido por empresas maiores, que começam a ver [surgir] um novo nicho, e criam-se linhas para atender a essa parcela do mercado”, afirma Hauffe.

    Clareza nos rótulos

    A pressão por transparência na rotulagem dos produtos cosméticos chegou às gigantes, como a Unilever. A empresa anunciou que vai divulgar voluntariamente os ingredientes das fragrâncias nos rótulos de suas marcas de beleza e cuidados pessoais como Dove, Axe e Suave.

    Mas transparência por si só não torna o produto natural ou orgânico. A produção nesses casos tende a ser mais lenta, a mão-de-obra também é mais cara, respeitando toda a cadeia produtiva de cada ingrediente, como explica Lima. “O nosso produto mais vendido é também o mais puro, que vem direto do processo via destilação do caule e da folha da pitangueira. Então isso mostra como o consumidor está ficando mais consciente sobre o consumo slow.” Resta saber se o público vai conseguir comprar produtos mais caros.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: