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Por que Minas e Rio tiveram viradas tão surpreendentes

Estreantes, Romeu Zema e Wilson Witzel decolaram às vésperas da eleição e vão ao segundo turno como os mais votados em seus estados

    Dois dos maiores colégios eleitorais do Brasil viveram neste domingo (7) grandes reviravoltas nas eleições para governador. Minas Gerais (estado brasileiro com o segundo maior número de eleitores) e Rio de Janeiro (terceiro maior eleitorado) terão segundo turno, como já era previsto, porém os candidatos mais votados em cada um foram surpresas.

    O empresário Romeu Zema (Novo) foi o mais votado em Minas Gerais. O ex-juiz federal Wilson Witzel (PSC) liderou no Rio de Janeiro.

    Estreantes em eleições e pouco conhecidos, eles vinham apresentando uma tendência de subida na reta final, mas muito distantes do primeiro lugar. Após a apuração, os dois ultrapassaram a marca de 40% dos votos válidos, alterando bruscamente o cenário da disputa.

    Os oponentes no segundo turno serão figuras mais conhecidas e tradicionais da política brasileira: Antonio Anastasia (PSDB), senador e ex-governador mineiro, e Eduardo Paes (DEM), ex-prefeito do Rio de Janeiro.

    Zema aparecia em terceiro lugar com 24% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha feita antes da votação e divulgada no sábado (6). O resultado foi o seguinte:

    Witzel estava empatado na segunda colocação na última pesquisa Datafolha, com 17% das intenções de voto. Este foi o resultado:

    O Nexo perguntou a dois cientistas políticos a que se devem essas reviravoltas nos dois estados. São eles: Carlos Ranulfo, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), e Flávia Bozza Martins, pesquisadora da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

    Por que Minas Gerais teve essa virada de Romeu Zema (Novo)?

    Carlos Ranulfo Zema estava crescendo, na última semana ele começou a crescer. Existe um desgaste tanto do PT quanto do PSDB no estado, assim como existe no Brasil. Com esse desgaste, Zema, um candidato pouco conhecido, começou a subir lentamente. A ascensão meteórica dele se deve, a meu juízo, por uma movimentação dos eleitores de Jair Bolsonaro, e não necessariamente da campanha de Zema. No debate da TV Globo [dia 2 de outubro], Zema foi ambíguo, mas falou que os seus eleitores poderiam escolher para presidente entre João Amoêdo e Jair Bolsonaro. Depois Zema afirmou que foi mal interpretado, mas ele de fato disse isso e sinalizou.

    ‘Zema deve estar agora pensando como vai governar Minas Gerais, porque ele não tem muita noção disso’

    Zema disse na entrevista depois do primeiro turno que o desempenho no debate da Globo fez com que ele subisse dessa maneira. Nenhum desempenho em debate faz alguém crescer de 15% a 42%, isso não existe. O que aconteceu foi dar um sinal para o eleitor de Bolsonaro ou o que estava entrando na onda de Bolsonaro. Essa onda, impulsionada pela internet e pelas redes sociais de modo absurdamente superior a qualquer outra campanha, incluiu Zema. Pegou eleitores que não estavam definidos.

    É claro que o fato de Zema ser um nome novo ajudou, mas isso vinha sendo dito desde que começou a campanha. Assim como ser dono de uma rede de varejo popular [Lojas Zema] no interior do estado. Mas só subiu depois que sinalizou para Bolsonaro.

    Isso criou uma situação completamente inesperada para Anastasia. Vai ser muito difícil ele vencer a eleição, acho que o favorito agora é Zema. Entre os candidatos ao governo de Minas, não havia um nome com ligação direta com Bolsonaro. O vice de Anastasia [o deputado federal Marcos Montes, do PSD] chegou a dar uma declaração de que apoiaria Bolsonaro se Geraldo Alckmin [PSDB] não fosse para o segundo turno presidencial, mas não teve grande repercussão e Anastasia nunca se pronunciou sobre isso. Em nenhum lugar do país o eleitor de Bolsonaro se identificou com o PSDB, então esse eleitor aqui em Minas estava procurando um candidato e acabou achando. Anastasia não tem arma contra Zema, vai dizer que ele é inexperiente, aí ele vai responder que a experiência de Anastasia não interessa. Também é difícil uma transferência de votos de Pimentel, uma parte pode ir contra o discurso ultraliberal e pró-Bolsonaro de Zema, mas acho que vai ter muito voto nulo, branco e abstenção entre o eleitorado petista.

    Essa eleição de 2018 é nova, com subidas meteóricas difíceis de encontrar em outras eleições. É outro padrão, que pegou de surpresa institutos de pesquisa, analistas, candidatos. O próprio Zema e o partido Novo não esperavam o que aconteceu, não estava nos planos. Certamente Zema deve estar agora pensando como vai governar Minas Gerais, porque ele não tem muita noção disso.

    Por que o Rio de Janeiro teve essa virada de Wilson Witzel (PSC)?

    Flávia Bozza Martins O fator principal para a subida de Witzel é a declaração de voto em Bolsonaro, com quem ele se associou explicitamente. Bolsonaro teve uma votação muito forte no Rio de Janeiro, um dos seus filhos [Flávio Bolsonaro] foi eleito senador com a maior votação. Bolsonaro não fez uma campanha em que pedia voto para deputados e senadores, o que mudou na reta final, e cresceu bastante a bancada do seu partido [PSL] no Congresso.

    ‘Uma opção que venha associada a um enxugamento do Estado está agradando ao eleitorado’

    A ascensão repentina de Witzel também tem relação com essa imagem de novidade, outsider, antipolítica. São características que se projetaram no resultado da eleição. Witzel tem essa questão da segurança pública falando muito forte, o que é um tópico que está entre as maiores preocupações dos eleitores, no Brasil inteiro. No Rio de Janeiro em especial isso é um tema bastante caro [o estado está desde fevereiro de 2018 sob intervenção federal na área da segurança pública].

    Assim como a questão da corrupção. Os políticos tradicionais são muito associados à imagem de corruptos pelos eleitores, seria um efeito endêmico que permeia a política em geral e todos os partidos. Então uma opção que venha associada a um enxugamento do Estado está agradando ao eleitorado.

    Witzel contou também com o apoio de algumas igrejas evangélicas e líderes religiosos. Isso está alinhado com o resultado geral do Brasil, o endireitamento da população, que elegeu partidos e um Congresso mais conservadores. A ascensão de Witzel tem a ver com o anseio generalizado da população brasileira por uma coisa nova. A imagem de antipolítico parece estar agradando ao eleitor, algo que já vinha acontecendo em 2016 e agora com Bolsonaro e alguns candidatos a governos estaduais. Não se sabia com que força esse fator viria na eleição de 2018, mas era algo esperado.

    Existe também a questão das pesquisas em si. Por mais ansiedade que elas gerem aos analistas e aos políticos, não é raro elas terem diferenças dos resultados. Essas mudanças podem ser tanto uma questão metodológica das pesquisas quanto do comportamento do eleitor, de migrar ou decidir o voto na última hora. Na eleição presidencial de 2014, por exemplo, houve uma disparidade com as pesquisas, com o crescimento acima do esperado de Aécio Neves [PSDB] no primeiro turno.

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