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PSDB: por que um dos maiores partidos do Brasil derreteu

Alckmin teve pior votação de um tucano em eleição presidencial. Sigla perde a frente do antipetismo e piora desempenho no Congresso

    Geraldo Alckmin, do PSDB, teve a pior votação de um candidato presidencial do seu partido da história. A legenda foi criada em 1988 e lançou um nome próprio ao Palácio do Planalto em todas as oito eleições desde a redemocratização, amargando agora a maior derrota, com pouco menos de 5% dos votos válidos, na quarta colocação.

    Governador de São Paulo em quatro mandatos, Alckmin já havia sido candidato à Presidência antes, em 2006, quando foi derrotado no segundo turno pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

    PSDB no 1º turno em eleições presidenciais

    Votos totais em Alckmin

    “Vamos nos reunir na terça-feira [9 de outubro], a executiva nacional [do PSDB] em Brasília, para fazer uma avaliação do processo eleitoral e também tomar posição em relação ao segundo turno”

    Geraldo Alckmin

    candidato do PSDB à Presidência, em discurso na noite deste domingo (7)

    A bancada tucana foi uma das que mais diminuiu na Câmara dos Deputados, ao lado da do MDB. No Senado, o partido também perdeu cadeiras: tem 12 e deve ficar com sete ou oito.

    Já nos estados, o PSDB pode manter ou mesmo superar o desempenho de 2014: na eleição anterior, elegeu cinco governadores, e agora tem o potencial de chegar a seis, todos em segundo turno.

    O caminho até a derrota

    Após perder para o PT as eleições de 2014, uma das mais acirradas da história, o PSDB ainda conseguiu voltar ao governo federal, apoiando o impeachment de Dilma Rousseff (PT), e teve bom desempenho nas eleições municipais em 2016.

    Mas o partido acabou perdendo força para o pleito de 2018 em razão de brigas internas e desgastes com escândalos de corrupção envolvendo nomes importantes da sigla. O PSDB viu então a frente do antipetismo ser capturada por Jair Bolsonaro.

    Volta à base do governo

    O tucano Aécio Neves foi derrotado em 2014 por Dilma Rousseff e questionou na Justiça o resultado das eleições, sem sucesso.

    Em 2016, depois de 13 anos como protagonista da oposição aos governos do PT, o PSDB apoiou e foi um dos principais articuladores do impeachment de Dilma. Com a saída da petista, em maio, os tucanos se tornaram fiadores do governo de Michel Temer, vice que ascendeu ao poder.

    Ao longo do mandato do emedebista, tucanos ocuparam os ministérios das Relações Exteriores, Justiça, Secretaria de Governo, Cidades e Direitos Humanos. E apoiaram os projetos que foram a marca do governo Temer: o teto de gastos públicos por 20 anos (aprovado), reforma trabalhista (aprovada) e a reforma da Previdência, que acabou não sendo votada.

    O governo Temer tornou-se o mais impopular desde a redemocratização. Na campanha de 2018, Alckmin buscou dissociar sua candidatura de Temer.

    Vitória na eleição de 2016

    Os tucanos foram um dos principais vencedores das eleições municipais de 2016. O PSDB foi o partido que mais cresceu no Brasil: foi o que mais elegeu prefeitos em capitais (Belém, Maceió, Manaus, Porto Alegre, Porto Velho, São Paulo e Teresina) e, considerando todos os municípios, só conquistou menos prefeituras do que o MDB.

    A vitória mais emblemática foi de João Doria, na capital paulista, ainda no primeiro turno contra Fernando Haddad, do PT. Empresário que fez sua estreia em eleições, Doria foi uma aposta de Alckmin e seu triunfo o impulsionou dentro do PSDB para a disputa presidencial. Dois anos depois, o clima vitorioso entre os tucanos não se concretizou.

    O episódio JBS e o desgaste

    Em maio de 2017, veio à tona a delação premiada de executivos da JBS, frigorífico que foi o maior doador privado de campanha no Brasil em 2014.

    O conteúdo das denúncias atingiu diretamente o senador A��cio Neves, na época também presidente nacional do PSDB. Aécio até então era cotado como um dos possíveis nomes tucanos ao Planalto em 2018.

    Em um áudio, Aécio aparece conversando com Joesley Batista, um dos donos da JBS. O tucano acertou o recebimento de R$ 2 milhões do executivo para ajudar a pagar advogados que o defendiam na Operação Lava Jato.

    Aécio afirmou que foi vítima de uma armação, que não cometeu nenhuma irregularidade e que o encontro era para saber do interesse de Joesley na compra de um apartamento de propriedade da mãe do tucano. O dinheiro da venda seria usado para custear sua defesa.

    Pressionado, Aécio se afastou da presidência do partido, mas se recusou a renunciar ao posto. O senador Tasso Jereissati assumiu interinamente. Então se criou um ambiente de disputa interna no partido.

    Em outubro de 2017, o Supremo Tribunal Federal decidiu afastar Aécio do mandato, o que foi revertido logo depois em votação no Senado. Em abril de 2018, Aécio virou réu no Supremo, em um processo que teve como origem a delação da JBS. Ele desistiu de tentar a reeleição e conseguiu se eleger deputado federal.

    A delação da JBS também teve consequências diretas para Temer, servindo para embasar duas denúncias criminais contra o presidente, algo inédito na história brasileira: uma por corrupção passiva, outra por formação de quadrilha e obstrução de Justiça.

    O PSDB se dividiu nas duas votações na Câmara sobre aceitar ou não as denúncias contra Temer. Aproximadamente metade da bancada tucana votou para barrar as denúncias e metade para dar prosseguimento.

    Isso foi mais um fator de desgaste para o partido, exposto publicamente como apoiador de um presidente acusado duas vezes de cometer crimes no cargo e fragmentado internamente sobre os rumos que deveria tomar.

    Internamente, o PSDB discutiu ao longo de 2017 sair ou permanecer da base do governo. No fim do ano, deixou o governo, mas não totalmente: Aloysio Nunes permaneceu como ministro das Relações Exteriores, cargo que ocupa até outubro de 2018. Em dezembro de 2017, o PSDB elegeu Alckmin como presidente nacional da legenda, afastando a máquina partidária do grupo de Aécio.

    A derrota na eleição

    Alckmin foi o candidato presidencial que conseguiu fechar a coligação com o maior número de partidos (oito, incluindo o PSDB), o que lhe garantiu o maior tempo de propaganda no rádio e na televisão. Mas em nenhum momento da campanha conseguiu converter esse apoio dos partidos do chamado centrão em intenções de voto, ficando com menos de dois dígitos nas pesquisas presidenciais.

    Essa ampla aliança também rendeu desgaste ao candidato, que foi associado a um grupo político fisiológico. Alckmin disse em vários momentos que uma coligação numerosa era importante para garantir governabilidade, caso vencesse, e que todos os partidos aliados tinham boas lideranças.

    O desempenho no primeiro turno foi pior do que vinham indicando as pesquisas de intenção de voto na reta final da campanha.

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