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Os derrotados: os entraves de quem ficou de fora

Com Alckmin, PSDB perde protagonismo. Marina disputa pela primeira vez com o próprio partido e vê sua força política derreter

     

    A votação deste domingo (7) colocou as candidaturas de Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) no segundo turno na disputa pela Presidência da República. Candidaturas que se mostravam promissoras na etapa inicial da campanha registraram o pior desempenho de suas trajetórias.

    Numa eleição marcada por ineditismos, a campanha 2018 viu saírem derrotadas as candidaturas mais ricas e com maior tempo de propaganda na TV — ativos políticos até então determinantes numa primeira etapa eleitoral.

    O debate econômico, que protagonizou os embates nas eleições anteriores, dividiu a atenção do eleitor com temas como combate à corrupção e à violência.

    O resultado das urnas

     

    Abaixo, o Nexo resume os entraves das candidaturas presidenciais que saíram derrotadas no primeiro turno. E mostra algumas surpresas.

    Ciro Gomes

    O candidato do PDT terminou em terceiro lugar, com 12,47% dos votos. O ex-governador do Ceará disputou sua terceira eleição presidencial. A proposta de tirar 63 milhões de brasileiros do SPC (Serviço de Proteção ao Crédito) rendeu espaço a Ciro na campanha, que apostava atrair o voto do eleitor petista órfão de Luiz Inácio Lula da Silva, preso pela Lava Jato e proibido de concorrer ao Planalto pela Lei da Ficha Limpa, e do eleitor à esquerda que não queria mais votar no PT.

    O ex-governador tentou formar aliança com o PT em busca de uma candidatura única da esquerda, plano que não prosperou. Na reta final, o candidato apelou à tese do voto útil, dizendo-se o único capaz de derrotar Bolsonaro num eventual segundo turno. Em entrevista após a confirmação do resultado, Ciro não falou qual será o posicionamento do PDT, mas sinalizou que não há possibilidade de apoio a Bolsonaro.

    “Estou cheio de gratidão pelos milhões de brasileiros que aceitaram minha mensagem. Especialmente agradecido pelo Ceará (...). Uma coisa posso adiantar: minha história de vida é uma história de defesa da democracia e contra o fascismo”

    Ciro Gomes

    candidato derrotado do PDT, em entrevista no domingo (7)

    Os entraves de Ciro

    Sem aliança

    Ciro fechou aliança somente com o Avante, o que o deixou com pequena estrutura e pouco tempo de propaganda eleitoral. O candidato do PDT chegou a conversar com o centrão, grupo de legendas médias (composto por DEM, PP, PRB, Solidariedade e PR), que preferiu fechar apoio a Alckmin. Depois, buscou o PSB, que anunciou neutralidade, resultado de um acordo com PT em troca de apoio em outros estados.

    Votos da esquerda

    A campanha do ex-governador não atraiu os votos de Lula na proporção esperada para se consolidar na segunda colocação nem como alternativa à esquerda.

    Não cresceu

    Ciro teve como vice Kátia Abreu, numa tentativa de atrair, também, o eleitorado feminino e mais diverso, para além do Ceará, seu reduto eleitoral. Apesar de filiada ao PDT, a trajetória da senadora foi construída no campo da direita e com apoio à pauta do agronegócio. Ciro, porém, só recebeu maioria de votos no Ceará.

    Geraldo Alckmin

    Pela primeira vez desde 1994, o PSDB deixou de ser protagonista numa eleição presidencial. O partido venceu no primeiro turno as eleições de 1994 e 1998 com Fernando Henrique Cardoso. Depois, sempre esteve no segundo turno contra o PT, numa delas, inclusive, com o próprio Alckmin, em 2006.

    Na sua segunda tentativa, o ex-governador de São Paulo terminou a votação de 2018 em quarto lugar, com 4,76% dos votos. É o pior desempenho do partido numa eleição presidencial desde sua fundação, em 1988.

    Após liderar o debate político-partidário no país nas últimas três décadas, o PSDB perdeu a frente do antipetismo, agora representado por Bolsonaro. A coligação numerosa (com outras oito legendas) e o maior tempo de propaganda em rádio e TV foram insuficientes para assegurar melhor desempenho a Alckmin nesta campanha.

    Em pronunciamento após a confirmação do resultado, Alckmin afirmou que, na terça-feira (9), a direção do partido definirá o posicionamento no segundo turno.

    “Queria transmitir nosso absoluto respeito ao resultado das urnas, à manifestação dos eleitores. (...) Quero reafirmar aqui nossa convicção na essência do regime democrático. Não tem poder que não seja legitimado pelo voto, pela expressão popular. Essa é a manifestação do amor e a nossa fé inquebrantável no Brasil, este país maravilhoso”

    Geraldo Alckmin

    candidato derrotado do PSDB, em pronunciamento no domingo (7)

    Os entraves de Alckmin

    Falta de apoio interno

    Alckmin não contou com apoio fiel de integrantes do próprio PSDB e do centrão, grupo de partidos médios com quem fechou acordo. Diante da estagnação de Alckmin nas pesquisas de intenção de voto, aliados foram dando sinais de desembarque na campanha, declarando apoio a outros candidatos.

    Migração dos votos

    O avanço das investigações da Operação Lava Jato e a delação da JBS atingiram também o PSDB, colocando no centro de denúncias nomes relevantes da sigla como o senador Aécio Neves, candidato à Presidência derrotado em 2014. Alckmin também se tornou investigado por suspeitas de doações irregulares em campanhas passadas. O envolvimento do partido nos escândalos, somado à consolidação de um cenário político mais conservador, fez com que boa parte do eleitorado tucano optasse agora por Bolsonaro.

    Apoio a Temer

    Teve efeito negativo para Alckmin também a participação do PSDB na administração do presidente Michel Temer, que assumiu o Planalto após o impeachment de Dilma Rousseff (PT), em maio de 2016. Temer assumiu com a promessa de resgatar a economia e gerar empregos, o que não ocorreu. Além disso, ele foi duas vezes acusado no âmbito da delação da JBS, fazendo de Temer o presidente mais impopular da história do país.

    Marina Silva

    A candidata da Rede saiu da sua terceira disputa presidencial com seu pior desempenho. A ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente recebeu cerca de 1 milhão de votos, 1% do total, terminando em oitavo lugar.

    Na primeira vez em que disputou com o partido que fundou, a Rede, Marina acabou ultrapassada por candidatos inexpressivos no cenário político e por estreantes, como o empresário João Amoêdo (Novo). Nas eleições anteriores, a ex-petista concorreu pelo PV, em 2010, e pelo PSB, em 2014.

    O desempenho nas urnas

     

    Na campanha, Marina enfatizou sua biografia, destacou o fato de ser mulher, mãe e negra, mirando o eleitorado feminino que, até a fase final da campanha, concentrava o maior número de indecisos. Ela chegou a ocupar a segunda colocação nas pesquisas de intenção de voto, mas entrou numa trajetória decrescente após Fernando Haddad ser confirmado candidato do PT. A candidata ainda não declarou quem vai apoiar no segundo turno.

    “Infelizmente uma realidade marcada cada vez mais pela velha polarização, que agora tornou-se tóxica, atingiu os candidatos que não estavam nestes polos tóxicos. (...) Independentemente de quem seja o vencedor, nós estaremos na oposição. O Brasil vai precisar de uma oposição democrática”

    Marina Silva

    candidata derrotada da Rede, em declaração no domingo (7)

    Os entraves de Marina

    Partido desestruturado

    Pela primeira vez Marina disputou a Presidência pela Rede, partido fundado por ela em 2015. A legenda, que já nasceu com estrutura tímida, perdeu filiados entre 2016 e 2018. Atualmente, a Rede tem dois deputados e somente um senador. A aliança com o PV foi insuficiente para ampliar a estrutura de campanha, que continuou com pouco tempo de TV e pouca representação nos estados.

    Fracasso da 3ª via

    A exemplo de 2010 e 2014, a ex-petista tentou emplacar o discurso da “terceira via”. Naquelas eleições, Marina buscou romper a polarização entre PT e PSDB. Em 2018, o discurso da moderação não encontrou espaço numa campanha que colocou em campos opostos Bolsonaro e PT. Sem propostas claras e com um programa de governo abstrato, a candidata não atraiu eleitores nem à esquerda nem à direita.

    Sem voto evangélico

    Marina é evangélica e recebeu apoio importante desse eleitorado na eleição de 2014, quando era filiada ao PSB. Em 2018, no entanto, percentual relevante desse grupo manifestou preferência por Bolsonaro. Declararam voto apoio ao ex-capitão os bispos Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, e Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Rede Record.

    Guilherme Boulos

    O candidato do PSOL ficou em 10º lugar, com 0,58% do total. Na comparação com as demais eleições presidenciais já disputadas pelo partido, Boulos recebeu o menor número de votos válidos. Líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), disputou sua primeira eleição, representando uma das candidaturas mais à esquerda nesta campanha. Ele anunciou que apoiará Haddad no segundo turno.

    O desempenho nas urnas

     

    Os entraves de Boulos

    Estrutura

    Boulos tinha uma estrutura de campanha modesta. Além do PSOL, o único aliado era o PCB, o que não resultou capilaridade no restante do país nem tempo de propaganda eleitoral. A aposta da campanha foi a atuação nas redes sociais, ambiente em que as candidaturas de Bolsonaro e Haddad dominam as interações.

    Partido distante

    Boulos é um filiado recente do PSOL. A escolha dele como candidato não foi consensual dentro do partido. Parte dos filiados manifestava preferência por outros quadros da legenda. Ao longo da campanha, Boulos não conseguiu consolidar em torno dele as diversas alas do PSOL.

    Conjuntura conservadora

    O avanço da campanha de Bolsonaro refletiu a consolidação de candidaturas mais à direita no campo partidário e conservadora nos costumes. Esse contexto, que já havia aparecido nas eleições municipais em 2016, tornou menor o espaço para candidaturas à esquerda, a exemplo do PSOL.

    João Amoêdo: perdeu ganhando

    O representante do Novo ficou em quinto lugar, com 2,5% dos votos. O empresário, candidato com maior patrimônio declarado nesta campanha (R$ 425 milhões), levou para as ruas um discurso liberal na economia e conservador nos costumes. Defendeu privatizações, enxugamento da máquina pública e participação do Estado somente em serviços essenciais. Nos estados, o Novo passou para o segundo turno com Romeu Zema, em Minas Gerais. Amoêdo anunciou que ainda vai definir o que fazer, mas já adiantou que não apoiará o PT.

    Outros derrotados

    Cabo Daciolo

    O candidato do Patriota, que chamou atenção por seus bordões religiosos, recebeu 1,26% dos votos, ficando em sexto lugar.

    Henrique Meirelles

    O candidato do MDB, partido de Michel Temer, teve 1,2% dos votos, ficando em sétimo lugar. O ex-ministro da Fazenda gastou R$ 45 milhões do seu bolso na própria campanha, que não era apoiada nem pelo seu partido.

    Menos de 1% dos votos

    Além de Boulos, tiveram menos de 1% dos votos Alvaro Dias (Podemos), Vera Lúcia (PSTU), José Maria Eymael (DC), e João Goulart Filho (PPL).

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