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Bolsonaro e Haddad vão ao 2° turno. Extrema direita avança

Às 20h50, Tribunal Superior Eleitoral decretou que candidatos do PSL e do PT vão se enfrentar, com votação marcada para 28 de outubro

     

    O candidato do PSL, Jair Bolsonaro, representante da extrema direita, e o candidato do PT, Fernando Haddad, representante da esquerda, vão disputar o segundo turno das eleições presidenciais de 2018, marcado para 28 de outubro. Por volta de 20h50 deste domingo (7), com 95,57% das urnas apuradas, o Tribunal Superior Eleitoral confirmou o resultado da campanha de primeiro turno, uma das mais tensas desde a redemocratização brasileira.

    Resultado definidor

     

    O resultado de domingo (7) reflete, por um lado, um sentimento de rechaço à política tradicional, com a ampla votação de Bolsonaro. Mesmo estando no Congresso há quase três décadas, o capitão da reserva acabou se transformando num símbolo antissistema.

    O candidato do PSL baseia seu discurso na defesa da ditadura militar, na exaltação de torturadores do regime, na apologia a armas de fogo e no ataque a minorias. Na economia, passou a adotar, mais recentemente, a defesa do liberalismo.

     

    O resultado também aponta uma forte resiliência do PT, partido que esteve entre os protagonistas das disputas presidenciais brasileiras desde o fim da ditadura militar, vencendo quatro eleições seguidas a partir de 2002. Em 2016, no entanto, o partido teve uma presidente, Dilma Rousseff, derrubada pelo Congresso num processo de impeachment e viu seu principal líder, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ser preso por corrupção e lavagem de dinheiro pela Lava Jato, além de barrado na eleição pela Lei da Ficha Limpa quando liderava todas as pesquisas de intenção de voto.

    Haddad construiu sua candidatura fortemente ligado à imagem de Lula e à lembrança da bonança social e econômica de seu governo, deixando Dilma no segundo plano. Na economia, adota um discurso desenvolvimentista e de forte presença do Estado, que desagrada ao mercado.

    Mudança e onda de extrema direita

    Ambos os candidatos representam uma mudança em relação ao governo atual. O atual presidente, o vice Michel Temer, que ascendeu ao poder com o impeachment de Dilma, tem o governo mais mal avaliado da história recente. Os candidatos mais ligados a Temer e sua administração, o tucano Geraldo Alckmin e o nome de seu próprio partido, Henrique Meirelles, do MDB, fracassaram na disputa.

    A vantagem de Bolsonaro sobre Haddad, no entanto, mostra que o sentimento de mudança tende mais para a extrema direita. A onda conservadora também foi registrada em eleições estaduais.

    No Rio, terceiro maior colégio eleitoral do Brasil, por exemplo, o candidato Wilson Witzel (PSC) chegou ao segundo turno numa disparada final ao associar seu nome ao de Bolsonaro. Ex-juiz federal, apostou no discurso antissistema, assim como o capitão da reserva.

    Em Minas, segundo colégio eleitoral, Romeu Zema, do Novo, também se apresentou como outsider e declarou apoio a Bolsonaro pouco antes das eleições. Terminou o primeiro turno na frente e agora vai para a segunda etapa como favorito.

    Em Santa Catarina, os dois candidatos que vão ao segundo turno se associam ao capitão da reserva, um deles do próprio PSL. O partido ainda está na segunda etapa em outros dois estados: Roraima e Rondônia.

    No Senado, o PSL de Bolsonaro elegeu ao menos quatro nomes, algo inédito, como o Major Olímpio, o mais votado em São Paulo, e um dos filhos de Bolsonaro, Flávio, no Rio. Na Câmara, o partido deve ter uma das maiores bancadas. 

    O antipetismo e o antibolsonarismo

    O segundo turno será disputado entre os dois candidatos mais rejeitados da eleição. Bolsonaro, segundo o último Datafolha antes da votação do primeiro turno, tinha 44% de rejeição. Já 41% diziam que não votariam em Haddad.

    Nas semanas que antecederam o primeiro turno, Bolsonaro foi alvo de um movimento liderado principalmente pelas mulheres, que o acusam de ser machista, racista e misógino. Por outro lado, mesmo tendo perfil mais moderado, Haddad carrega toda a rejeição ao PT, partido que governou o Brasil entre 2003 e 2016.

    O fenômeno Bolsonaro

    Bolsonaro tem apoio de eleitores conservadores no geral, que compactuam com seu discurso, mas não apenas isso. O capitão da reserva acabou por incorporar a figura do antipetismo no Brasil. Trata-se de um lugar que, dos anos 1990 até estas eleições, era ocupado pelo PSDB. Não à toa, o desempenho do capitão foi melhor nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde os tucanos costumavam vencer.

    A ascensão do candidato do PSL ocorre num momento de crise do PSDB, atingido diretamente pelo escândalo da JBS — Aécio Neves, então presidente do partido e candidato derrotado ao Planalto em 2014, foi flagrado numa conversa pedindo dinheiro a um dos sócios do frigorífico. Somada a proximidade com o governo Temer, também cercado de escândalos, os tucanos perderam fôlego. O discurso anticorrupção, bastante explorado pelo PSDB contra o PT, ficou nas mãos de Bolsonaro.

    O capitão da reserva é de um partido pequeno, sem estrutura tradicional da política. O candidato só se filiou ao PSL recentemente, já para se lançar candidato à Presidência da República. Bolsonaro não conseguiu fazer aliança com outros partidos maiores. O único parcero é o PRTB, que indicou o vice na chapa, o general da reserva Hamilton Mourão.

    A coligação pequena fez com que Bolsonaro tivesse apenas oito segundos de tempo de TV. O horário eleitoral, historicamente importante para a definição de eleições no Brasil, não fez falta ao candidato do PSL. O pouco tempo de TV foi compensado por uma intensa mobilização nas redes sociais e aplicativos de troca de mensagens.

    No dia 6 de setembro, durante um evento público em Juiz de Fora, Bolsonaro sofreu um atentado a faca. O ferimento na barriga o obrigou a ficar mais de 20 dias internado no hospital. Ele não foi mais a debates, momento em que seria confrontado por adversários, e comunicou-se apenas em vídeos para seus apoiadores e em três entrevistas. A estratégia funcionou, e ele ganhou votos mesmo ausente dos debates, baseando toda a sua estratégia nas redes sociais.

    Os desafios de Bolsonaro no 2º turno

    Se o líder mantiver os votos que teve no primeiro turno, precisará conquistar menos eleitores novos. Bastante rejeitado por uma parcela da população que o considera uma ameaça aos direitos humanos e à democracia, Bolsonaro terá de escolher se fará acenos a uma nova parcela do eleitorado ou se vai redobrar a aposta no discurso extremista. Os principais pilares de sua rejeição têm relação com machismo, racismo e temor de desrespeito às regras democráticas.

    Após o resultado, Bolsonaro falou a seus eleitores em uma transmissão ao vivo pela internet, direto de sua casa no Rio. Ao lado do economista Paulo Guedes, seu assessor e conselheiro, fez críticas às urnas eletrônicas dizendo que recebeu reclamações de eleitores. Citou, inclusive, uma notícia que foi desmentida pela Justiça Eleitoral sobre um vídeo em que a urna supostamente induzia ao voto em Haddad.

    “Nos restam apenas dois caminhos: o da prosperidade, da liberdade e da família, ao lado de Deus e daqueles que têm religião, e dos que não tem religião também, mas são responsáveis. Por outro lado, sobra-nos o caminho da Venezuela. Não queremos isso para o Brasil”

    Jair Bolsonaro

    candidato do PSL, em transmissão ao vivo neste domingo (7)

    O candidato também falou ao eleitorado do Nordeste, única região em que foi derrotado pelo petista. E disse que quer livrar o povo da “coação” e do “terrorismo” do PT, ressaltando que o país tem “um só povo”.

    O fenômeno Haddad

    Haddad foi eleito prefeito de São Paulo em 2012 com apoio direto de Lula. Em 2016, tentou se reeleger com o PT no olho do furacão, meses após o impeachment de Dilma e com a Lava Jato cada vez mais cercando o seu padrinho político. Foi derrotado ainda no primeiro turno pelo tucano João Doria.

    Em 2018, Lula foi lançado candidato oficial do PT novamente à Presidência, mesmo com o ex-presidente preso, desde abril, em razão do caso tríplex. Era um aposta arriscada mantê-lo o quanto possível na disputa. O cálculo político era: Lula unia a esquerda, dava fôlego aos candidatos ao Legislativo do partido e poderia, rapidamente, transferir votos a um substituto.

    Lula liderava as pesquisas e agiu, de dentro da cadeia, para manter a hegemonia do PT. Fechou um acordo, por exemplo, com o PSB, para que o partido se mantivesse neutro e não acordasse com Ciro Gomes, candidato do PDT com entrada no eleitorado de centro-esquerda.

    O Tribunal Superior Eleitoral barrou o registro de Lula em 1º de setembro e Haddad assumiu a candidatura dez dias depois. O ex-prefeito subiu rapidamente nas pesquisas, mas viu depois sua rejeição também crescer, resultado do sentimento antipetista de boa parte da população.

    Os desafios de Haddad no 2º turno

    O petista tem de conquistar uma parcela significativa de novos eleitores se quiser ser mais votado que Bolsonaro. Para isso, precisa diminuir a rejeição que o PT tem, principalmente ligada a temas como corrupção, radicalização de discurso de esquerda e má gestão da economia. Nesse ponto, Haddad vem sendo pressionado a fazer um aceno aos não petistas, nos moldes do que Lula fez em 2002 com a escolha de José Alencar para vice e a Carta ao Povo Brasileiro, em que o petista prometia cumprir contratos e manter os pilares da gestão macroeconômica.

    Em sua primeira aparição pública após o resultado, Haddad fez um discurso em São Paulo no qual buscou aproximação de possíveis aliados e tentou chamar atenção para “os riscos que a democracia no Brasil corre”.

    “Nós queremos unir os democratas do Brasil, queremos unir as pessoas que têm atenção aos mais pobres. Queremos um projeto amplo para o Brasil, profundamente democrático, mas que busque de forma incansavelmente a justiça social”

    Fernando Haddad

    candidato do PT, em discurso neste domingo (7)

    Falando a seus correligionários, Haddad disse que a eleição de 2018 coloca “muita coisa em risco”, inclusive a Constituição de 1988. O candidato disse que quer unir o campo democrático usando como arma “o argumento”. Ele afirmou que já conversou com três de seus antigos concorrentes: Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL).

    O horário eleitoral no segundo turno

    Se no primeiro turno as propagandas de rádio e TV tiveram papel secundário, sem ajudar os candidatos com maior tempo, como Geraldo Alckmin, é impossível saber qual influência essa mídia de massa terá a partir de agora.

    Uma grande diferença na campanha do segundo turno é o fato de a estrutura partidária não ser mais um fator para definir o tempo de TV e rádio dos candidatos. Na disputa direta, os dois candidatos têm exatamente os mesmos minutos no horário eleitoral.

    Para Bolsonaro, a mudança é mais drástica. Em vez dos oito segundos habituais, a campanha terá de fazer programas de cinco minutos que irão ao ar três vezes por semana. Haddad, que também terá cinco minutos, tinha pouco menos de quatro no primeiro turno.

    O horário eleitoral maior dará a Bolsonaro o tempo que ele não teve para explicar suas propostas em primeiro turno. Em seus oito segundos, o candidato do PSL costumava veicular pequenos jingles ou slogans. Por outro lado, para uma campanha com pequena estrutura, preencher o novo tempo de TV pode ser um desafio.

    O horário eleitoral das disputas de segundo turno está programado para começar no dia 12 de outubro. A votação é no dia 28 do mesmo mês.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que o Rio é o segundo colégio eleitoral do país, quando na verdade é o terceiro. A informação foi corrigida às 12h35 minutos de 8 de outubro de 2018.

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