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O comportamento de aliados nas campanhas de Alckmin e Meirelles

Tucano fechou ampla coligação, mas viu parceiros se afastarem. Candidato do MDB andou praticamente sozinho

     

    A disputa para a Presidência da República em 2018 tem 13 candidatos, um número superado, na história recente, apenas em 1989, na primeira eleição ao Palácio do Planalto após a ditadura militar.

    É a primeira vez desde 1994, por exemplo, que PT, MDB e PSDB, os três maiores partidos do Congresso nas últimas legislaturas, lançam ao mesmo tempo candidatos próprios.

    Além de representantes dos três maiores partidos do Congresso, há Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT), dois nomes conhecidos e com resultados relevantes em eleições anteriores para a Presidência.

    A pulverização de forças ocorreu num momento em que a política tradicional enfrenta uma grave crise de confiança. Dessa forma, novos atores também surgiram.

    Jair Bolsonaro (PSL) é o principal deles. Candidato antissistema, lançou-se por um partido pequeno, mas apoiado por boa parte de eleitorado.

    Uma eleição em aberto

    A campanha começou com Luiz Inácio Lula da Silva na frente, por ampla margem, mas sua permanência na corrida presidencial era improvável. Preso pela Lava Lava Jato, era iminente o veto a seu nome pela Lei da Ficha Limpa.

    A fragmentação podia ser vista nas pesquisas eleitorais com os cenários sem o líder petista, com vários candidatos separados por poucos pontos percentuais.

    Foi nesse quadro de incertezas que as alianças foram fechadas e as candidaturas, lançadas. Era uma eleição aberta, como mostravam as primeiras pesquisas após o início oficial da campanha, em 16 de agosto.

    Disputa embolada

     

    Depois que Fernando Haddad foi oficializado candidato do PT em 11 de setembro, com a confirmação do veto a Lula pela Justiça Eleitoral, o quadro se polarizou.

    O ex-prefeito petista subiu rapidamente nas pesquisas quando ficou claro que ele era o candidato indicado e apoiado pelo ex-presidente. Bolsonaro manteve a liderança e os demais candidatos não incomodaram mais os dois líderes.

    À medida que a votação foi se aproximando e a chance de recuperação de candidatos com grande estrutura de campanha foi diminuindo, apareceram os sinais de desmobilização.

    Polarização

     

    O desânimo apareceu principalmente nas candidaturas dos dois grandes partidos que devem ficar fora do segundo turno: PSDB do candidato Geraldo Alckmin e MDB do candidato Henrique Meirelles.

    O abandono de Alckmin

    Ao longo dos últimos quatro anos, Alckmin e o PSDB sempre estiveram entre os principais cotados para a vitória na eleição presidencial. Em 2014, o tucano havia sido reeleito governador em São Paulo no primeiro turno com grande votação.

    As expectativas em torno de Alckmin cresceram quando ele conseguiu formar a maior aliança da eleição presidencial: nove partidos. Entre eles, está o chamado “centrão”, grupo de legendas médias que negociou seu apoio em bloco com diferentes candidaturas e garantiu ao tucano o maior tempo de TV na propaganda eleitoral.

    O grupo se uniu a Alckmin, em parte, porque acreditava que ele tinha boas chances de vitória. Nem todos, porém, estavam ali para valer. No Piauí, o presidente do PP, Ciro Nogueira, sempre declarou apoio ao PT já no início da disputa. Lula é muito popular no estado.

    Quando o tucano passou a não sair do lugar nas pesquisas, mais aliados passaram a desistir do candidato e a migrar para adversários. No meio de setembro, Alckmin chegou a ser cobrado pelos aliados, impacientes com os resultados ruins. A cobrança não adiantou.

    A dissidência em Minas

    Em Minas Gerais, o candidato a vice na chapa do PSDB no estado, Marcos Montes, filiado ao PSD, que também integra a chapa de Alckmin, falou no fim de setembro sobre seus planos de apoiar Bolsonaro em um eventual segundo turno contra o PT.

    Em discurso, ele disse que Alckmin é “extremamente competente”, mas que “lamentavelmente, a sociedade brasileira começa a enxergar que não é o seu momento”.

    O candidato a vice disse ainda que, a partir do momento que achar que Alckmin não vai ao segundo turno, seria a hora de “dar as mãos ao Bolsonaro”.

    Antônio Anastasia foi obrigado a divulgar nota dizendo que batalha firme “pela vitória de Alckmin em Minas e no Brasil”.

    O voto Bolsodoria

    O candidato do PSDB ao governo de São Paulo, João Doria, vem causando desconforto no partido nas últimas semanas por, supostamente, estar tentando colar sua imagem à de Bolsonaro.

    Em um vídeo divulgado nas redes sociais, Doria aparece ao lado de um eleitor que diz: “Todo mundo que vota no Bolsonaro, essa é a dica: vamos apoiar o Doria”. O tucano ouve em silêncio. Bolsonaro é o líder das pesquisas de intenção de voto em São Paulo.

    Na sexta-feira (5), Doria faltou a um ato de campanha de Alckmin e só comunicou com 30 minutos de antecedência.

    Foi Alckmin o padrinho e principal apoiador da candidatura de Doria para a Prefeitura de São Paulo em 2016, vencida pelo tucano no primeiro turno.

     

    Fundador do PSDB abandona partido

     

    Na última semana antes da votação do primeiro turno, marcada para 7 de outubro, Xico Graziano, um dos fundadores do PSDB, decidiu deixar o partido para apoiar Bolsonaro.

    Ex-assessor e amigo de Fernando Henrique Cardoso, Graziano já vinha elogiando Bolsonaro e, ao deixar a legenda, disse que seu “voto agora será anti-PT”.

    A solidão de Meirelles

    A situação do candidato do MDB é diferente da de Alckmin. Ele não foi propriamente abandonado pelo partido porque nunca teve os correligionários ao seu lado.

    Sua candidatura é um projeto pessoal, foi incentivada pelo presidente Michel Temer, mas sempre teve a oposição de líderes do MDB.

    Recém-saído de um governo impopular e principal responsável por uma agenda econômica de corte de gastos, Meirelles teve dificuldades, apesar de ter dinheiro e tempo de TV.

    A maior parte do MDB não viu problema na candidatura porque, rico, Meirelles era capaz de bancar a própria campanha, sobrando mais dinheiro do fundo eleitoral para outros candidatos.

    Renan e Eunício

    Nomes importantes como Renan Calheiros e Eunício Oliveira, o atual e o último presidente do Senado, apoiaram desde o início o PT.

    Antes mesmo da oficialização da candidatura, Renan disse que, para um político do MDB, subir no mesmo palanque que Meirelles seria uma “condenação”. Eunício se encontrou com Haddad e posou para fotos com adesivo de Lula no peito.

    Sem dinheiro do partido

    A campanha de Meirelles arrecadou R$ 45 milhões, 100% disso veio do bolso do próprio candidato.

    O MDB cedeu a legenda para que Meirelles concorresse, mas jamais colocou dinheiro em seu candidato ao principal cargo do país.

     

    Skaf quer Bolsonaro

    O desembarque mais recente veio do candidato do MDB ao governo de São Paulo, Paulo Skaf. O ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado era um dos poucos que aparecia ao lado de Meirelles em eventos, mas na quinta-feira (4) ele anunciou publicamente seu apoio a Jair Bolsonaro já no primeiro turno.

    O discurso oficial é que um voto pró-Bolsonaro evitaria um segundo turno das eleições, quando o PT teria chances de vitória. “Para o Brasil seria bom a vitória do Bolsonaro já no primeiro turno”, escreveu Skaf no Facebook.

     

    A cristianização política

    O abandono de um candidato por seus próprios correligionários não é inédito no Brasil e tem até um nome: cristianização. O fenômeno vem da eleição de 1950, a segunda no Brasil após a ditadura do Estado Novo, e teve como personagem principal o político mineiro Cristiano Machado.

    O país estava dividido, basicamente, entre getulistas e udenistas. Entre os simpáticos a Getúlio Vargas, havia duas legendas: o PSD e o PTB. Machado era filiado ao PSD e, diante da indefinição de Getúlio, foi lançado candidato à Presidência contra o candidato da UDN.

    A questão é que, mais tarde, Getúlio Vargas decidiu ser candidato pelo PTB e o ex-presidente era muito forte dentro do PSD. Isso fez com que Cristiano Machado fosse abandonado pelo próprio partido, no processo que ficou conhecido “cristianização”.

    “Os aliados podem fugir porque um candidato não apresenta chances, é um candidato fraco, ou porque há um outro arranjo político mais favorável. Quando eles entendem que um candidato de outro partido traria mais retorno eleitoral ou benefícios políticos do que o candidato de seu próprio partido”

    Lara Mesquita

    cientista política em entrevista ao Politiquês, podcast de política do Nexo

    Em 1989, o PMDB (que agora se chama MDB) lançou Ulysses Guimarães, um dos políticos mais importantes do período de transição da ditadura para a democracia no Brasil. O PMDB, já naquela época um partido heterogêneo e desunido, não apoiou Ulysses. Mais um exemplo de “cristianização” nas eleições brasileiras.

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