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Estes são os pontos-chave para entender as eleições de 2018

Em campanha presidencial tensa, Bolsonaro se consolida na frente e chega em alta às urnas, seguido por Haddad

     

    Os brasileiros vão às urnas neste domingo (7) para escolher deputados, senadores, governadores e presidente, em uma das campanhas mais tensas do período pós-redemocratização, num momento em que o país passa por crises na política e na economia, com descrença em relação aos partidos tradicionais e instabilidade institucional.

    8h às 17h

    é período em que as urnas ficarão abertas, nos horários locais

    147 milhões

    é o número de eleitores aptos a votar nestas eleições de 2018

    Os institutos de pesquisa realizaram seus últimos levantamentos sobre a disputa presidencial antes da votação do primeiro turno. O Datafolha fez entrevistas na sexta-feira (5) e no sábado (6). A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. No quadro abaixo, estão computadas apenas as intenções de votos válidos, em que são excluídos brancos, nulos e indecisos.

    Datafolha

     

    O Ibope também foi a campo nesta sexta (5) e sábado (6) de outubro. Assim como no caso do Datafolha, o levantamento tem margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. No quadro abaixo, também estão computadas apenas as intenções de votos válidos, em que brancos, nulos e indecisos são excluídos.

    Ibope

     

    Para que um candidato vença ainda no primeiro turno, é necessário que ele tenha mais votos do que a soma de todos os outros adversários. Ou seja, os votos em branco, os votos nulos e as abstenções ficam de fora do cálculo final do resultado da eleição. Se isso não acontecer, os dois mais votados vão para o segundo turno, marcado para 28 de outubro.

     

     

    Desde que o Brasil saiu da ditadura militar (1964-1985), as eleições presidenciais foram decididas na primeira etapa só duas vezes: em 1994 e 1998, ambas vencidas pelo tucano Fernando Henrique Cardoso.

     

     

    A reta final dos candidatos

    Jair Bolsonaro

    Após passar boa parte da campanha internado em razão de um atentado a faca, o candidato do PSL chega à reta final em alta nas pesquisas, com esperança de vencer ainda no primeiro turno.

    Fernando Haddad

    Haddad teve crescimento rápido ao virar candidato do PT, mas a intenção de voto nele perdeu ritmo nos últimos dias. E o que cresceu mesmo foi sua rejeição. O petista é favorito para estar no segundo turno com Bolsonaro.

    Ciro Gomes

    O candidato do PDT aposta no discurso da terceira via, como uma alternativa da centro-esquerda. Apresenta-se como único capaz de derrotar Bolsonaro. Mas precisa, para isso, de uma grande virada. 

    Geraldo Alckmin

    O candidato do PSDB perdeu espaço entre o eleitorado antipetista com a ascensão de Bolsonaro. Sua aposta nas alianças para ter o maior tempo de TV acabou frustrada. Na reta final, viu aliados se afastarem.

    Marina Silva

    Terceira colocada nas duas últimas eleições presidenciais, a candidata da Rede fez uma campanha sem estrutura. E acabou vendo seu apoio minguar aos poucos, diante da polarização entre Bolsonaro e PT.

    Outros

    A campanha ainda tem outros oito candidatos. Henrique Meirelles, do MDB, gastou muito, mas avançou pouco. João Amoêdo, do Novo, se equiparou a Marina. Guilherme Boulos, do PSOL, deve ter um rendimento menor do que o atingido pelo partido em outras eleições. Ainda estão nas urnas Alvaro Dias (Podemos), Cabo Daciolo (Patriota), Vera Lúcia (PSTU), Eymael (DC) e João Goulart Filho (PPL).

    Como chegamos aqui

    O Brasil passou por uma ditadura militar de duas décadas, do golpe de 1964 à transferência do poder para os civis em 1985. Desde então, dois presidentes sofreram processos de impeachment no Congresso Nacional: Fernando Collor, em 1992, e Dilma Rousseff, em 2016.

    Entre esses dois momentos, o país viveu numa certa estabilidade política na maior parte do tempo, com uma polarização nacional entre dois grandes partidos: de um lado o PSDB, que venceu duas eleições com FHC, e o do outro o PT, que venceu quatro eleições, em que Luiz Inácio Lula da Silva, seja como candidato ou cabo eleitoral, foi protagonista.

     

     

    Muitos analistas buscam estabelecer exatamente quando a crise de representatividade começou, quando os brasileiros passaram a questionar a capacidade de mediação dos políticos.

    Angela Alonso, professora de sociologia da USP e presidente do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), aponta 2012 como um ano importante. A partir desse marco, o Nexo elenca abaixo os principais fatos políticos ocorridos no Brasil.

    Os grandes fatos pré-2018

    O julgamento do mensalão

    Em 2012, a cúpula do PT, partido que estava no poder, foi julgada por corrupção no Supremo Tribunal Federal. Foi um marco contra a impunidade de políticos poderosos. E o início da elevação de juízes ao patamar de heróis nacionais. Relator do caso, o ministro Joaquim Barbosa era celebrado nas ruas.

    As manifestações de junho

    Em junho de 2013, centenas de milhares de pessoas foram às ruas para protestar inicialmente contra aumentos de passagens de ônibus nas cidades, mas depois contra os serviços públicos em geral. As manifestações se tornaram difusas. Emergiu aí a questão da falta de representatividade política.

    A Operação Lava Jato

    Deflagrada em março de 2014, a Lava Jato revelou um megaesquema de desvios na Petrobras, maior estatal brasileira, dando início a uma série de operações de combate à corrupção no país, celebradas pela população, mas também questionadas por seus métodos. O PT, partido do poder, foi o mais atingido.

    A contestação das urnas

    Dilma Rousseff foi reeleita em outubro de 2014. O PSDB, do derrotado Aécio Neves, pediu auditoria nas urnas eletrônicas. O clima de contestação de resultado acabou nas ruas, com atos contra o governo no começo de 2015. Acusada de estelionato eleitoral por adotar prática diferente do discurso, Dilma perdeu apoio na base social.

    A crise do impeachment

    Com o país em recessão e a Lava Jato avançando, grandes manifestações ocorreram pelo país. Sergio Moro, juiz da operação em Curitiba, era celebrado. Sem apoio no Congresso e travando uma disputa direta com o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (MDB), Dilma foi afastada num processo de impeachment por manobras fiscais em maio de 2016. O vice Michel Temer assumiu o governo com apoio direto do PSDB.

    O escândalo da JBS

    Temer, que adotou uma agenda de reformas liberais, e Aécio, seu principal apoiador, foram gravados em diálogos comprometedores com um dos sócios do frigorífico JBS em março de 2017. Acabaram denunciados por corrupção. PSDB e MDB, então, foram para a berlinda. Os três maiores partidos, incluindo o PT, estavam diretamente implicados em escândalos. Temer, presidente, e Aécio, senador, conseguiram manter seus cargos.

    As decisões no Supremo

    O Supremo Tribunal Federal passou a ser cobrado por decisões contraditórias, a depender de quem era julgado. Aécio, por exemplo, recebeu tratamento diferente de Eduardo Cunha, afastado do cargo judicialmente por envolvimento com a Lava Jato e posteriormente cassado pelos colegas de Câmara. Houve conflitos diretos com outros Poderes, tanto o Executivo quanto o Legislativo.

    A prisão de Lula

    Apesar da crise que atingiu o PT, Lula ainda era o nome mais forte para a eleição presidencial de 2018. Em janeiro, foi condenado em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro no caso tríplex pela Lava Jato, ficando sujeito à Lei da Ficha Limpa. Em abril, com o aval do Supremo, teve a prisão decretada por Sergio Moro e passou a cumprir pena de 12 anos e 1 mês de detenção.

    Quais sentimentos emergiram

    A sequência de fatos elencados acima trouxe não apenas uma descrença com a política em razão dos escândalos de corrupção, mas também o surgimento de um discurso de defesa de saídas autoritárias para a crise.

    Os atos pelo impeachment de Dilma já registravam grupos organizados favoráveis à intervenção militar, com seus caminhões de som. Mas o discurso radicalizado ficou evidente no fim de maio de 2018, durante uma grande greve nacional de caminhoneiros e empresas de transporte, que paralisou o país.

     

    Tudo isso diante de uma administração federal que dava cada vez mais protagonismo aos militares. Em fevereiro de 2018, o governo Temer decretou uma intervenção na segurança pública no estado do Rio de Janeiro, comandada por generais.

    Um mês depois da intervenção, a vereadora do PSOL Marielle Franco, com histórico de atuação na área de direitos humanos, e o motorista Anderson Gomes foram assassinados no centro do Rio, num crime ainda não solucionado.

    No mesmo mês, num momento pré-campanha em que ainda não havia sido preso pela Lava Jato, Lula viajava em caravana pelo país. Na passagem pelo Paraná, ônibus da caravana foram atingidos por disparos de arma de fogo. Ninguém se feriu. Os responsáveis pelos tiros não foram descobertos.

    Os sentimentos pré-eleição

    Desilusão

    Do julgamento do mensalão em 2012, passando pelas manifestações de junho de 2013, pela deflagração da Operação Lava Jato em 2014 e pela contaminação de praticamente todos os partidos tradicionais por escândalos de corrupção nos anos seguintes, boa parcela do eleitorado ficou desiludida com a política, segundo apontam pesquisas de opinião. Isso criou um ambiente propício para o crescimento de candidatos de fora do establishment.

    Mudança

    Temer tornou-se o presidente mais mal avaliado da história recente. Criou-se assim um sentimento de mudança entre os eleitores, do qual emergiram o PT, que explora a lembrança do bom desempenho social e econômico dos anos Lula, praticamente ignorando Dilma, e o candidato que, apesar de estar no Congresso há três décadas, acabou se tornando um símbolo antissistema e também antipetista: Jair Bolsonaro.

    Radicalização

    As manifestações dos caminhoneiros em maio de 2018 revelaram um discurso de apoio a saídas autoritárias. As redes sociais, em especial os aplicativos de mensagem como WhatsApp, foram amplamente usadas, transformando-se num forte difusor de informações radicalizadas, quando não falsas. Boatos cresceram, assim como o efeito “bolha”, em que grupos com ideias parecidas falam só entre si e, não raro, radicalizam ainda mais seu discurso.

    Os fatos marcantes da campanha de 2018

    A campanha eleitoral de 2018 tem uma particularidade: sua duração caiu praticamente pela metade em relação à disputa nacional anterior, quatro anos antes.

    As propagandas de rádio e TV também ficaram mais curtas. Assim, os meios tradicionais de divulgação eleitoral perderam um poder que, em outras eleições, era determinante.

     

    O eleitor, agora, precisa decidir num tempo de debate público menor. Além disso, esta foi a primeira eleição presidencial sem doações de empresas, que eram foco central dos esquemas de corrupção.

    Neste período de campanha oficial, iniciado em 16 de agosto, alguns fatos se destacaram. Foram eles:

    Marcos da campanha

    Lula barrado e substituído

    Lula foi preso por corrupção e lavagem de dinheiro pela Operação Lava Jato em abril de 2018 e, mesmo assim, liderava todas as pesquisas de intenção de voto para a Presidência. O Tribunal Superior Eleitoral negou seu registro em 1º de setembro e foi substituído como candidato do PT pelo ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad dez dias depois. A transferência de intenção de votos se deu rapidamente, assim como o aumento da rejeição ao ex-prefeito.

    Atentado a Bolsonaro

    Líder nas pesquisas nos cenários sem Lula, Jair Bolsonaro sofreu um atentado a faca em Juiz de Fora, Minas Gerais, durante um ato público em 6 de setembro. O candidato do PSL ficou hospitalizado por mais de 20 dias e, durante esse período, sua campanha entrou em crise interna com seguidos desencontros envolvendo ora seu vice, Hamilton Mourão, ora seu assessor econômico, Paulo Guedes. Depois que teve alta, Bolsonaro não foi ao debate final da TV Globo, preferindo dar uma entrevista à Record.

    Mobilizações pela democracia

    Bolsonaro chegou a dizer que não aceitaria o resultado da eleição caso não vencesse. Falou em fraude nas urnas eletrônicas, mas depois recuou. Mourão, seu vice, falou em “autogolpe”, com uso das Forças Armadas, em caso de “anarquia”. Artistas, intelectuais e empresários reagiram com o manifesto “Democracia, sim”. Uma parcela da sociedade, incluindo líderes do PSDB, passou a apontar a volta do PT também como ameaça.

    Ação e decisão feminina

    A mobilização contra Bolsonaro teve as mulheres como protagonistas, a partir das redes sociais, com o slogan #EleNão, e ganhou as ruas no fim de semana anterior a 7 de outubro. Com ataques a minorias e ao feminismo, o capitão da reserva sofre alta rejeição entre as mulheres. Os apoiadores de Bolsonaro também foram às ruas, com ataques às manifestantes do #EleNão.

    O protagonismo do Judiciário

    A Polícia Federal, os procuradores e promotores, assim como juízes e ministros do Supremo, tiveram ações determinantes na campanha. Ações foram propostas contra Haddad e Alckmin. Líderes do PSDB, como os ex-governadores Marconi Perillo, de Goiás, e Beto Richa, do Paraná, foram alvo de operações. O Supremo proibiu Lula de dar entrevistas. Sergio Moro divulgou uma delação premiada do ex-ministro Antonio Palocci que atingiu diretamente o PT a seis dias da eleição.

    WhatsApp e desinformação

    Na reta final da campanha as redes sociais, em especial o aplicativo de mensagens WhatsApp, foram inundados por notícias falsas. Haddad chegou a acusar diretamente Bolsonaro por propagar desinformação. O Tribunal Superior Eleitoral, que havia prometido atuar contra as fake news, pouco fez. O poder da internet ficou evidente em 2018, reduzindo a influência dos meios tradicionais de campanha, a partir do alto investimento em programas eleitorais de rádio e TV.

    A divulgação dos resultados

    O início da divulgação dos resultados ocorre a partir dos fechamentos das urnas. No caso da eleição presidencial, as primeiras parciais devem ir ao ar a partir das 19h, no horário de Brasília. É quando acaba a votação no Acre, estado em que o fuso tem duas horas a menos do que a capital federal.

    O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) disponibiliza um aplicativo gratuito para quem quiser acompanhar o andamento da contagem dos votos. Está disponível para celulares com sistemas Android e iOS.

    Em meio a uma campanha tensa, de discurso radicalizado, em que o debate sobre a ascensão do autoritarismo ganhou destaque, uma informação publicada a dois dias da eleição trouxe um dado novo. Segundo uma pesquisa Datafolha, nunca foi tão alto o índice de brasileiros que aprovam a democracia: 69%.

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