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A parceria de Edir Macedo e Bolsonaro na eleição

Líder da Igreja Universal manifestou apoio ao capitão da reserva e abriu espaço em sua emissora para entrevista exclusiva no dia do debate da Globo

     

    Por recomendação médica, o candidato do PSL à Presidência da República Jair Bolsonaro não participou do último debate antes do primeiro turno das eleições de 2018, realizado pela Rede Globo nesta quinta-feira (4), a três dias da votação em 7 de outubro.

    Mas, no mesmo horário, Bolsonaro apareceu na TV Record, em uma entrevista exclusiva de meia hora concedida à emissora ligada à Igreja Universal do Reino de Deus. A gravação foi ao ar quatro dias depois de o presidente da Record e líder máximo da igreja, o bispo Edir Macedo, ter manifestado publicamente apoio à candidatura de Bolsonaro nas eleições de 2018.

    Vários integrantes da cúpula da Rede Record são pastores ou bispos da Igreja Universal e também são ligados ao PRB (Partido Republicano Brasileiro). O presidente nacional da legenda, Marcos Pereira, foi vice-presidente da emissora entre 2003 e 2009.

    Os evangélicos e as eleições

    Líder isolado nas pesquisas de intenção de voto, Bolsonaro tem a preferência de metade do eleitorado evangélico do país, segundo o Instituto Datafolha. Os evangélicos são diversos. Integram fiéis de uma série de denominações religiosas.

    De acordo os dados mais recentes do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), representavam 22,2% da população brasileira em 2010. 

    Existem atualmente diversas denominações evangélicas com origens específicas como as presbiterianas, anglicanas, metodistas, batistas, pentecostais, neopentecostais, congregacionalistas, etc.

    Não é apenas a Igreja Universal que está com Bolsonaro. Um dos líderes mais influentes no país, Silas Malafaia, da Assembleia de Deus, também declarou voto no capitão da reserva. Foi Malafaia quem celebrou o casamento de Bolsonaro com sua atual mulher, que é evangélica e ligada à Igreja Batista.

    Nesta quinta-feira (4), o pastor participou de uma transmissão ao vivo pelo Facebook ao lado do presidenciável do PSL e de Claudio Duarte, líder da Igreja Batista. Ambos confirmaram apoio a Bolsonaro nas eleições de 2018.

    Bolsonaro tem formação católica e não esconde sua antiga religião em encontros fechados com líderes evangélicos. Em público, diz que é cristão.

    Outro líder religioso que já prometeu apoiar Bolsonaro é o presidente do PSC, pastor Everaldo. Ele, que batizou o capitão da reserva nas águas do Rio Jordão, em Israel, disse que vai apoiá-lo em um eventual segundo turno. O PSC pertence à coligação do candidato do Podemos, Alvaro Dias.

    Nesta quinta-feira (4), a Frente Parlamentar Evangélica, composta por 199 dos 513 deputados federais da Câmara, oficializou apoio à candidatura de Bolsonaro. A manifestação ocorreu por meio de uma carta, assinada pelo presidente do colegiado, deputado Hidekazu Takayama (PSC-PR).

    Bolsonaro foi o candidato que recebeu o apoio das denominações evangélicas mais influentes no Brasil. Os líderes evangélicos costumam tomar posições em anos eleitorais.

    Em 2014, quem atraiu a maior parte do apoio dos líderes religiosos evangélicos foi Marina Silva, então candidata do PSB à Presidência.

    Nas eleições de 2002, a Igreja Universal apoiou a candidatura vitoriosa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A igreja também apoiou Dilma Rousseff (PT), a sucessora de Lula, nas eleições de 2010 e 2014.

    A entrevista durante o debate da Globo

    Bolsonaro foi convidado para o debate da TV Globo, mas por recomendação médica não participou. Alguns partidos entraram na quinta-feira (4) com um pedido para que o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) impedisse a veiculação da entrevista de Bolsonaro na Record, sob o argumento de a emissora dar tratamento privilegiado ao candidato do PSL. A corte, no entanto, negou a solicitação.

    A lei 9.504/1997 prevê, entre outros pontos, que emissoras de rádio e TV estão proibidas de dar “tratamento privilegiado” a candidatos, partido ou coligação na sua programação normal e no noticiário. A lei dedica mais atenção a emissoras de rádio e TV, de canal aberto, por serem concessões públicas (autorizadas pelo governo federal a exercerem um serviço público) — diferentes de empresas de caráter privado comum, como jornais impressos ou sites.

    O ministro substituto do TSE Carlos Horbach negou a solicitação para suspender a entrevista de Bolsonaro por entender que a medida poderia configurar censura prévia. Segundo ele, era necessário uma análise cuidadosa do caso para verificar se, ao longo da campanha, a emissora de fato priorizou mais esse ou aquele candidato.

    A lei eleitoral não detalha o que é “tratamento privilegiado” ou “tratamento isonômico”, o que abre brechas para interpretações subjetivas. É facultado às emissoras, por exemplo, decidir se dedica espaço na cobertura diária aos candidatos mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto. Apenas para debates a lei traz uma regra específica, de convidar candidatos de partidos com representação mínima de cinco deputados na Câmara.

    Para o professor de direito eleitoral da PUC-SP Antonio Carlos Mendes, a entrevista à Record não feriu a isonomia, prevalecendo a liberdade jornalística, nos termos da Constituição.

    “No caso da matéria jornalística não tem que se falar propriamente em isonomia, mas aquilo que o órgão de imprensa entender como importante para divulgação. Se o veículo transformar um programa jornalístico em instrumento de promoção de candidato, isso é abuso”

    Antonio Carlos Mendes

    advogado e professor de direito eleitoral da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo)

    Já a professora de direito eleitoral Raquel Machado, da UFC (Universidade Federal do Ceará), considera ter havido violação da norma eleitoral. Para ela, a liberdade assegurada aos veículos não pode ser exercida sem critérios claros de igualdade, sob o risco de desequilibrar o debate eleitoral.

    “Claro que há liberdade, mas um veículo de comunicação tem papel social. (...) Acho que o ministro do TSE deveria ter suspendido a entrevista até que a emissora dissesse que ao menos tentou marcar com os demais candidatos ou adotou qualquer procedimento de tentativa de igualdade. Claro que suspender a entrevista é grave, mas a questão não era proibir o conteúdo, mas assegurar o tratamento aos demais”

    Raquel Machado

    professora de direito eleitoral da UFC (Universidade Federal do Ceará)

    Daniel Falcão, coordenador na pós-graduação em Direito Eleitoral do IDP (Instituto Brasiliense de Direito Público), entende que a decisão de manter a entrevista foi correta. Mas para ele houve, sim, quebra da isonomia. No entanto, Falcão pondera que são incomuns casos assim, o que torna a decisão bastante complexa.

    “Acho que tem que ocorrer a entrevista [para não configurar censura prévia] e, comprovada a irregularidade, aí sim garantir reparação. Como não vai dar tempo [em razão da proximidade do primeiro turno], que se assegure igual tempo para quem for ao segundo turno. Bolsonaro não foi ao debate da Record [por recomendação médica], então a emissora pode alegar que a entrevista foi uma forma de compensação”

    Daniel Falcão

    advogado e coordenador na pós-graduação em Direito Eleitoral do IDP (Instituto Brasiliense de Direito Público)

    A Record não se manifestou oficialmente sobre a entrevista até a publicação deste texto.

    Paralelo com a relação entre Trump e Fox News

    O jornal Folha de S.Paulo apontou um paralelo entre a relação de Bolsonaro com a TV Record com o que ocorre hoje nos EUA entre o presidente Donald Trump e a Fox News, de perfil conservador e alinhado à Casa Branca.

    O Nexo perguntou ao jornalista Rosental Calmon Alves, fundador e diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, da Universidade do Texas, sobre esse paralelo.

    Rosental diz ver com preocupação a relação próxima entre líderes políticos “e meios de comunicação de massa tradicionais à la Fox”. “Seja para uma Bolsonarolândia, seja para uma Lulalândia”, afirmou.

    O remédio, diz o professor, é o fortalecimento do “jornalismo profissional, ético e regido pela disciplina da verificação e pela busca da verdade”. Rosental considera que “por mais imperfeito que seja, o jornalismo honesto, fiscalizador e transparente é e continuará sendo indispensável para a democracia funcionar”.

    Em outubro, Christopher R. Browning, professor emérito de história na Universidade da Carolina do Norte, publicou um artigo na New York Review of Books sobre a relação entre líderes populistas com os meios de comunicação.

    “O controle total da imprensa e de outras mídias semelhantes passou a ser desnecessário, uma vez que o fluxo de notícias falsas e manipuladas tornou a verdade irrelevante para moldar a opinião pública”, diz Browning no artigo.

    “No governo Trump, essas funções foram privatizadas na figura da Fox News e de Sean Hannity”, que é âncora da emissora. “A Fox publica os ‘fatos alternativos’ com a versão de Trump para os fatos e, em retorno, Trump recebe dos apresentadores e comentaristas a inspiração para seus tuítes e seus pronunciamentos cheios de fantasia”, escreve Browning.

    O historiador diz que “o resultado é a criação de uma ‘bolha de Trump’ para sua base de apoio, que é irreconhecível para espectadores [de outras emissoras como] PBS, CNN e MSNBC e para leitores do The Washington Post and The New York Times.”

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