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Sete semanas e meia de campanha: incerteza, violência e boato

Newsletter de eleições do ‘Nexo’ acompanhou semanalmente o desenrolar de uma das disputas mais tensas pós-redemocratização. Neste texto, você pode relembrar a história a quente

     

    A campanha começou oficialmente no dia 16 de agosto, com 13 candidatos na disputa pela Presidência da República, num cenário de descrença na política tradicional e muita incerteza pela frente.

    Desde então, o Nexo passou a produzir uma newsletter semanal, a fim de apresentar materiais com conceitos da política, discussões mais amplas, ângulos diferenciados e, principalmente, ideias para estimular a reflexão neste momento central do processo democrático.

    Junto com os conteúdos do jornal, a newsletter trouxe resumos da conjuntura, reunidos abaixo — em relatos em tempo presente — para que você relembre os principais movimentos de uma campanha cuja votação de primeiro turno ocorre neste domingo (7).

    Primeira semana, de 16 a 22 de agosto: a incerteza

    As primeiras pesquisas presidenciais com a campanha em andamento estão aí. Candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva lidera, mesmo preso em Curitiba pela Operação Lava Jato. Mas muito provavelmente será barrado pela Lei da Ficha Limpa, pois está condenado em duas instâncias judiciais, incluindo um órgão colegiado, pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Sem o ex-presidente, Jair Bolsonaro, do PSL, toma a frente, mas o que dispara mesmo nesse cenário é o índice de votos brancos e nulos.

     

    Os debates de presidenciáveis também estão em curso. Já foram dois na televisão e há pelo menos sete confirmados até o primeiro turno. O “Politiquês”, podcast de política do Nexo, contou a história desses enfrentamentos, no Brasil e no mundo, e mostrou como é que eles se encaixam hoje nas estratégias dos candidatos.

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    Segunda semana, de 23 a 29 de agosto: expectativa da TV

    A campanha está prestes a entrar numa nova fase. Na sexta-feira e no sábado, os candidatos a deputado, senador, governador e presidente estreiam seus programas eleitorais de rádio e na TV. Algo que colocará à prova a capacidade de alguns políticos de transformar em voto sua alta exposição em veículos de comunicação de massa.

    Na corrida pelo Palácio do Planalto, há candidatos com muito mais tempo do que outros, em razão dos acordos que fecharam e do tamanho dos partidos que compõem suas alianças. Geraldo Alckmin tem ampla vantagem nesse quesito. Mas o tucano vai mal nas pesquisas, sem atingir sequer dois dígitos das intenções de voto.

    O candidato do PSDB travará uma disputa particular com Jair Bolsonaro, que terá pouquíssimo espaço no palanque eletrônico. O candidato do PSL, porém, é forte na internet e, atualmente, lidera as pesquisas nos cenários sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

    Lula, por sua vez, vem sofrendo derrotas nas suas tentativas de falar em público ou gravar vídeos de propaganda enquanto ainda é o candidato oficial do PT. Ele está preso e a caminho de ser barrado pela Lei da Ficha Limpa. Provável substituto, Fernando Haddad viaja pelo país, mas não tem exposição nas coberturas dos telejornais em razão da sua condição de vice.

    Diante desse quadro, num início de polarização entre petistas e antipetistas, como ficam Marina Silva, da Rede, e Ciro Gomes, do PDT? Ambos têm em comum o fato de serem ex-ministros de Lula e terem estrutura precária de campanha, incluindo aí o pouco tempo na propaganda de rádio e TV.

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    Terceira semana, de 30 de agosto a 5 de setembro: Lula fora

    O Tribunal Superior Eleitoral barrou a candidatura de Lula com base na Lei da Ficha Limpa, algo que já era esperado. Mas o PT adia o quanto pode sua substituição pelo vice Fernando Haddad, numa estratégia que leva em conta o melhor jeito de tentar transferir o capital eleitoral do ex-presidente para o ex-prefeito de São Paulo.

    Preso em Curitiba, Lula recorreu ao Supremo, mas a Justiça Eleitoral estipulou uma data-chave: 11 de setembro, prazo para a troca de candidato. É possível que a partir daí a disputa presidencial de 2018 tenha, finalmente, o quadro fechado de nomes que vão estar na urna na votação do primeiro turno, em 7 de outubro.

    A propaganda eleitoral de rádio e TV começou. E dela emergiu uma batalha particular, com ataques diretos e indiretos de Alckmin a Bolsonaro. Atrás nas pesquisas, o tucano usa parte de seu amplo espaço contra o candidato do PSL, na busca do eleitorado antipetista. O capitão da reserva responde às investidas nas redes sociais, pois seu tempo no palanque eletrônico é pouco.

     

    Numa semana marcada pelo incêndio que destruiu o Museu Nacional no Rio, o papel do poder público na preservação do patrimônio histórico e científico veio à tona. Mas o que os candidatos ao Palácio do Planalto diziam em seus planos de governo sobre o tema antes dessa tragédia sem precedentes na história do país? E o que disseram depois de o fogo consumir 90% do acervo do mais antigo museu do Brasil?

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    Quarta semana, de 6 a 12 de setembro: atentado a Bolsonaro

    O quadro da corrida presidencial ficou completo a 26 dias da votação de 7 de outubro. O PT atendeu ao prazo do TSE e Fernando Haddad é agora o candidato oficial do partido. Substitui Lula e tenta herdar o apoio dado ao ex-presidente, preso em Curitiba. Mas a incerteza ainda dá o tom da eleição.

    Jair Bolsonaro sofre um grave atentado a faca em Minas e reacende o debate sobre a violência na política brasileira. E do caso envolvendo o candidato do PSL emerge uma questão específica: um fato extremo como esse, realizado por um agressor aparentemente desequilibrado, pode ser dissociado do clima que toma conta da sociedade? O Nexo abordou o assunto numa entrevista com Christian Dunker, psicanalista e professor titular do Instituto de Psicologia da USP.

    As pesquisas tentam captar os efeitos eleitorais da facada em Bolsonaro e da exclusão de Lula pela Lei da Ficha Limpa. Com o ex-presidente fora, o capitão da reserva fica isolado na frente, mas sua rejeição continua alta. Na segunda colocação existe um empate quádruplo, levando em consideração as margens de erro dos institutos. Estão ali Ciro Gomes, Marina Silva, Geraldo Alckmin e Fernando Haddad, mas as tendências são diferentes. Ciro e Haddad apresentam viés de alta e disputam o voto do eleitor de centro-esquerda, além do espólio de Lula. Alckmin pouco se mexe até aqui. E Marina registra queda na intenção de voto. O Nexo lançou uma central de pesquisas, em que você pode usar ferramentas interativas para acompanhar a evolução dos números em 2018 e resgatar o desenrolar das intenções de voto de outras eleições, desde 1989.

     

    A marca da Polícia Federal, Ministério Público e da Justiça nestas eleições já seria indelével apenas com o caso Lula, mas suas ações vêm ganhando novos contornos durante a campanha. Candidatos ao Palácio do Planalto e a governos estaduais vêm sendo alvo de operações, denúncias criminais e acusações no âmbito civil nesse período. E nesta semana Beto Richa, ex-governador do Paraná e candidato ao Senado pelo PSDB, foi preso temporariamente. O Nexo buscou análises sobre a presença judicial na campanha e tratou do caso do tucano em si, a fim de avaliar como a prisão de alguém relevante como ele mexe com a eleição não só local, mas nacional.

     

    Nesta campanha incerta e atípica, o Brasil já teve, por quase um mês, um líder nas pesquisas presidenciais preso, sem poder participar de eventos públicos, debates e entrevistas. Agora tem o novo líder hospitalizado, que precisou suspender as atividades de campanha. Sem contar Cabo Daciolo, o candidato anedótico que está sempre “jejuando nos montes”. Apesar disso, existe muita movimentação pelo país. Para que você possa acompanhá-la, o Nexo criou um mapa interativo em que é possível localizar todas as cidades visitadas pelos candidatos à Presidência, assim como fazer comparações entre eles.

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    Quinta semana, de 13 a 19 de setembro: polarização

    As mais recentes pesquisas presidenciais apontam para o favoritismo de dois candidatos no primeiro turno. De um lado, Fernando Haddad, que vem registrando forte crescimento desde que virou o candidato chancelado oficialmente por Lula. De outro, Jair Bolsonaro, líder de intenção de voto que retomou uma curva ascendente desde que sofreu um atentado a faca no início do mês.

    A polarização versão 2018 foi o tema do “Durma com essa”, novo podcast de notícias do Nexo que vai ao ar todo início de noite, de segunda a quinta. O programa de estreia tratou da histórica divisão do voto entre petistas e antipetistas, marca das disputas pós-redemocratização.

    Em segundo lugar, Haddad sinaliza movimentos em direção ao centro político. Já a campanha de Bolsonaro aposta no extremismo. O capitão da reserva pôs em xeque o futuro resultado da votação falando em fraude nas urnas eletrônicas. Seu vice, o general da reserva Hamilton Mourão, abriu possibilidades para um “autogolpe”, caso chegue ao governo, e propôs uma nova Constituição feita exclusivamente por “notáveis”, sem a participação de representantes eleitos. Qual o efeito de declarações assim para uma democracia? E para as próprias eleições?

     

    Enquanto isso, outros candidatos tentam romper o cenário desenhado a menos de 20 dias das eleições. E o apelo ao chamado voto útil ganha corpo nos discursos de quem está atrás nas pesquisas. Daí surge um debate sobre a lógica na hora de digitar um número na urna. Cálculo, convicção e protesto estão entre as motivações dos eleitores.

    O Nexo também mostra as distorções que emergem das novas regras de financiamento eleitoral. E reforça a aposta nas ideias para o país, com um amplo material, com vídeos e textos, nos quais especialistas debatem temas como educação, saúde, segurança pública, desigualdades no mercado de trabalho, mobilidade urbana, meio ambiente, crise fiscal e regime previdenciário.

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    Sexta semana, de 20 a 26 de setembro: mobilização

    As eleições entram na reta final com uma mobilização contra Jair Bolsonaro. Intelectuais, empresários, ativistas, atletas e artistas assinaram o manifesto “Democracia Sim”, no qual dizem que o candidato do PSL é uma “ameaça franca ao nosso patrimônio civilizatório primordial”. O Nexo mostrou como essa manifestação foi precedida por outras, como o movimento #EleNão, comandado por mulheres, e analisou o estado da democracia no Brasil e no exterior.

    A polarização entre Bolsonaro e Fernando Haddad fez crescer um segundo tipo de discurso: a ameaça viria não apenas do capitão da reserva, mas também do PT. A tese é explorada em propagandas do candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, e ganhou reforço com uma carta de Fernando Henrique Cardoso, também tucano. Nela, o ex-presidente condena “soluções extremas” e faz um apelo para união dos nomes que se dizem de “centro”, algo sem sucesso até aqui.

     

    Nesta quarta teve debate entre os presidenciáveis no SBT, com muitos enfrentamentos. Haddad e PT foram os alvos principais. Você pode conferir como foi o encontro a partir do modelo de navegação do Nexo que vai tomar um, dois ou cinco minutos de seu tempo.

    Com o tema democracia em destaque na pauta eleitoral, o Nexo preparou ainda um “Explicado” sobre a Constituição de 1988, cuja aprovação no Congresso completou 30 anos no sábado. Foi um marco do período de transição do Brasil, que havia saído poucos anos antes de uma ditadura militar de duas décadas. É uma boa oportunidade para relembrar seus princípios, assim como o clima que tomava conta da sociedade civil naquela época.

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    Sétima semana e meia, de 27 de setembro à votação: reta final

    Com pesquisas diárias, os institutos tentam captar a dinâmica das intenções de voto. Há movimentos importantes registrados nos primeiros levantamentos da semana final do primeiro turno. Entre protestos do #EleNão, declarações polêmicas na campanha e apoio de igrejas evangélicas, o líder Jair Bolsonaro cresceu. Já Fernando Haddad, segundo colocado, viu sua rejeição disparar numa onda antipetista, que agora ganha fôlego com a divulgação da delação premiada de Antonio Palocci, ex-ministro que reitera acusações de corrupção contra Lula e o PT.

     

    Os resultados das pesquisas até aqui também apontam um terceiro fenômeno: o enfraquecimento do papel das propagandas do horário eleitoral de rádio e TV, algo que poderá ter impacto nas políticas de alianças de disputas futuras. Ao mesmo tempo, sobressaem as redes sociais, em especial os grupos de WhatsApp, aplicativo usado por boa parte da população e que se tornou central na difusão de informação, seja ela verdadeira, seja ela falsa. O Nexo produziu uma série de gráficos sobre a circulação de dados políticos nesse serviço de mensagens e sobre como os brasileiros lidam com eles.

    A proximidade da votação faz a tensão tomar conta das campanhas e também do eleitor. As discussões entre conhecidos, amigos e familiares, que já são comuns em épocas assim, ganharam novos contornos, com muita gente até rompendo relações, dentro e fora da internet. O Nexo ouviu relatos de episódios em que a conversa ficou impossível, mas também encontrou quem busque acalmar os ânimos. Um dos textos desta newsletter trata do tema. E traz um guia para quem está disposto a travar discussões políticas de um jeito respeitoso. Você pode dizer: “está difícil”. Mas fica aqui uma aposta no diálogo. Bom voto no domingo.

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