Os trabalhos de reconstrução do Museu Nacional

Doações para o acervo chegam de todas as partes, explica ao 'Nexo' a historiadora da instituição Regina Dantas. Por outro lado, governo parece ter esquecido do assunto

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    Em 2 de setembro de 2018, o Museu Nacional, um dos mais importantes do país, foi devastado por um incêndio que durou seis horas ininterruptas. O teto do palácio que abriga a instituição colapsou sobre artefatos, documentos, múmias do Egito antigo e Luzia, fóssil que é considerado o mais precioso achado da arqueologia brasileira.

    O museu não tinha sistema de prevenção de incêndio. Ele seria instalado com a verba de um contrato de R$ 21 milhões, assinado em junho de 2018 com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social).

    Um mês depois da tragédia, ainda se encontram em fase inicial os trabalhos de reconstrução do prédio e recuperação do acervo. Também ainda não há certeza sobre a chegada dos recursos necessários: em entrevista à imprensa, o diretor do museu, Alexander Kellner, declarou que refazer a infraestrutura do prédio depende da liberação de uma verba da ordem de R$ 50 milhões a R$ 100 milhões. O dinheiro viria da União mediante aprovação de sua inclusão no orçamento do ano que vem pelo Congresso Nacional.

    Para obras emergenciais, que devem durar seis meses, o Ministério da Educação vai destinar R$ 8,9 milhões. Parte destas obras inclui o escoramento do imóvel e a instalação de um teto provisório.

    O Nexo conversou com Regina Dantas, historiadora do Museu Nacional e pesquisadora da história da instituição, sobre o rumo dessas reformas, os apoios que o Museu tem recebido e o envolvimento do governo na restauração desse patrimônio.

    Qual o cronograma dos trabalhos de reconstrução do Museu Nacional?

    Regina Dantas Foi concluída a primeira etapa, que foi a colocação de tapumes para cercar o palácio. Deu-se início aos trabalhos de escoramento das paredes e depois posterior colocação de teto na edificação. A preocupação inicial é com a segurança. Colocados o escoramento e a cobertura, pode-se prosseguir com a perícia da Polícia Federal e o trabalho de resgate feito pelos pesquisadores. Depois da perícia, será iniciada a segunda etapa, o projeto de reconstrução. Na etapa seguinte, serão pleiteados recursos, por meio da Lei Rouanet, para a reconstrução do museu. A quarta e última etapa é a recomposição do acervo.

    Para essa última fase, foram criados núcleos de trabalho. Faço parte do núcleo de doação, subdividido em mobiliário e aparelhos de informática e objetos históricos. Todo mundo quer doar pensando exatamente na recomposição do acervo. [Há] Pessoas físicas no Brasil doando moedas dos avós, uma espada que acha que foi da guarda de dom Pedro. Muitas instituições fora do Brasil, nos EUA, Europa, Egito, estão doando. Não pensamos em recompor o que existia antes, é mais uma reinvenção. Temos doações de instituições nacionais, por exemplo, da USP (Universidade de São Paulo) e da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro). A Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) fez levantamentos, pedindo a pesquisadores dentro e fora do Brasil que têm documentos digitalizados do museu que os encaminhem. Tivemos também propostas de empresas do exterior. Uma empresa de tecnologia da China quer armazenar na nuvem arquivos documentais e imagéticos.

    Na época da tragédia, muitas autoridades e políticos se pronunciaram. Como está hoje o envolvimento do governo federal nos trabalhos de recuperação do museu?

    Regina Dantas Uma coisa é clara. Estamos no bicentenário do museu e quando houve o evento de comemoração percebemos a importância que as autoridades davam para o lugar. Fiz um estudo sobre o primeiro centenário do museu e, no evento de comemoração, estava lá o presidente Rodrigues Alves. Em 2018, o presidente foi convidado. Nosso diretor, Alexander Kellner, foi a Brasília levar o convite e ficamos na expectativa de que viesse. Não veio. Não vejo hoje no âmbito governamental o assunto sendo tratado. E nem crio expectativa quanto a isso. Por outro lado, o Ibram [Instituto Brasileiro de Museus, vinculado ao Ministério da Educação] estava presente em muitos momentos. No dia seguinte ao incêndio, o Ibram foi substituído pela Abram (Agência Brasileira de Museus), acabou numa canetada, e hoje ninguém sabe bem como vai ficar. Há uma mobilização dos diretores de museus, que estão completamente aborrecidos e desesperados com a situação. Toda uma política de museus que foi conquistada no Brasil sabe-se lá como está.

    Pode fazer um resumo do que se perdeu com a destruição do museu?

    Regina Dantas Como museu universitário, o Museu Nacional atua nos campos acadêmico e científico. Ele cumpria a finalidade de produção e disseminação do conhecimento nas áreas de ciências naturais e antropológicas. Além da história da edificação, que é o Palácio de São Cristóvão, tem também a história da instituição e de todas suas atividades de pesquisa e ensino. O palácio em si já era expositivo, as pessoas vinham visitar o museu e ficavam de boca aberta. No segundo piso, tinha as salas de poder do imperador dom Pedro 2º, toda uma cultura de época e objetos, que não tem mais.

    Do acervo em exposição, destacava-se a coleção egípcia, considerada a maior da América Latina, o acervo da imperatriz Teresa Cristina, toda a parte da coleção greco-romana, cultura pré-colombiana, também as áreas da paleontologia, da qual fazia parte a Luzia [o fóssil humano mais antigo do Brasil], os artefatos indígenas e africanos. Além disso, tem as seções que se perderam: conservação, museologia, arquivos, o decreto de criação do Museu Nacional.

    Existem hoje aproximadamente dois milhões de itens, em lotes ou coleções, que não se perderam. Antes eram cerca de 20 milhões.

    Como está a discussão sobre o futuro do museu e de políticas que possam evitar novas tragédias, entre os acadêmicos?

    Regina Dantas Tenho feito palestras o tempo inteiro sobre esse assunto. Não só a UFRJ, mas a Unirio e a UFF (Universidade Federal Fluminense) estão discutindo esse assunto, não paramos nenhum minuto. Os meios acadêmicos estão impactados, nunca vi discutirem tanto os museus. Mas se discute muito não o que aconteceu, mas o que vai ser agora, como fica a pesquisa, o ensino. E se discute também o papel, a relevância dos museus no país. O paradoxo é que agora precisaríamos do Ibram, pois a Abram é uma agência. Nosso museu não foi criado para dar lucro, estávamos até discutindo a ideia de um domingo gratuito. Museus universitários não têm de dar lucro. Há também uma equipe discutindo a reconstrução com a Unesco. O que o diretor do Museu Nacional tem enfatizado é que a instituição será outra coisa, será uma reinvenção.

     

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