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Esta carta de Galileu revela sua briga com a Inquisição

Em documento recém-descoberto, termos mais duros foram trocados pelo astrônomo, físico e matemático italiano, visando driblar a Igreja Católica

Foto: Reprodução/Royal Society
Carta de Galileu Galilei a Benedetto Castelli foi encontrada ao acaso em biblioteca da Royal Society
Carta de Galileu Galilei a Benedetto Castelli foi encontrada ao acaso em biblioteca da Royal Society

Um mistério que se arrasta há mais de quatro séculos parece ter chegado ao fim graças à descoberta de uma carta escrita e rasurada por Galileu Galilei (1564-1642).

O documento e seu conteúdo é um dos mais conhecidos da história da ciência. Nele, o pensador italiano discorre sobre o modelo heliocêntrico – na qual o Sol, e não a Terra, é o elemento central do universo – e faz comentários sobre, por exemplo, como o texto da Bíblia nunca negou tal possibilidade.

Até então, pesquisadores conheciam duas versões dessa carta. A primeira contém frases certeiras e palavras duras contra a doutrina da Igreja Católica, e fora enviada em 1613 ao amigo Benedetto Castelli, matemático e professor na Universidade de Pisa, na sua cidade natal.

Cópias da carta foram feitas e uma delas caiu nas mãos do frade dominicano Niccolò Lorini, que diante de tal heresia vazou o documento para Roma e as autoridades da Inquisição. A carta original foi devolvida por Castelli a Galileu no mesmo ano.

Outra, com o mesmo teor, porém dito de modo mais sutil e menos ofensivo aos olhos eclesiásticos, foi enviada por Galileu em 1615 ao seu amigo Piero Dini, clérigo em Roma, com o alerta de que havia uma versão anterior, falsa e agressiva, editada por religiosos com o intuito de incriminá-lo.

A pergunta até então sem resposta era se a carta amenizada era de fato a verdadeira – o que faria da alegação de Galileu, de que havia uma conspiração contra ele, verdadeira –, ou se as palavras suaves da segunda versão da carta haviam sido obra do próprio Galileu, em uma tentativa de não acabar como Giordano Bruno, pensador também simpático às ideias de Copérnico, condenado em 1600 à fogueira pela Inquisição por heresia.

Como notou a revista Nature, em artigo sobre a descoberta, a teoria de que Galileu havia sido vítima de um complô que buscava a sua execução foi aceita e reproduzida por Antonio Favaro (1847-1922), maior referência no assunto, em sua obra de 20 volumes sobre os trabalhos de Galileu Galilei.

A resposta

A carta original, assumida como perdida, foi encontrada recentemente por Salvatore Ricciardo, um pós-doutorando que buscava registros de comentários feitos por terceiros em documentos de Galileu Galilei para sua pesquisa na biblioteca da Royal Society, instituição científica fundada no século 17 em Londres.

Para sua surpresa, ao buscar documentos envolvendo Benedetto Castelli, encontrou uma carta catalogada de 1618 assinada por “G.G.” presente no arquivo da biblioteca desde 1840. Ao ler o documento, ele imediatamente entendeu do que se tratava, mas um detalhe saltou aos olhos: o texto estava todo rasurado, palavras estavam cortadas e cobertas por outros termos escritos com a mesma grafia.

“Eu pensei: ‘Não creio ter descoberto a carta que praticamente todos os estudiosos de Galileu acreditavam, sem esperanças, estar perdida’. Parecia ainda mais inacreditável porque a carta não estava em uma biblioteca obscura, mas na biblioteca da Royal Society.”

Salvatore Ricciardo

Pesquisador que acidentalmente encontrou a carta de Galileu

Ricciardo fotografou as sete páginas da carta e contatou seu orientador e professor de história da ciência na Universidade de Bérgamo, Franco Giudice, bem como o historiador Michele Camerota, da Universidade de Cagliari. Com eles, o pesquisador relatou a descoberta à revista “Notes and Records”, da própria Royal Society.

Foto: Reprodução
Retrato de Galileu Galilei, pelo pintor Justus Sustermans
Retrato de Galileu Galilei, pelo pintor Justus Sustermans

Sobre o fato de a carta ter passado séculos “escondida” nos arquivos da biblioteca da instituição sem nunca ter sido devidamente identificada, o professor Franco Giudice acredita que o fato de ter sido catalogada erroneamente como sendo de 1618, e não de 1613, deve ter colaborado.

Outra razão é o fato de a carta ter ficado guardada em um lugar onde ninguém normalmente procuraria. Isso porque documentos históricos dessa relevância, quando devidamente identificados, costumam ficar sob a guarda da British Library (Biblioteca Britânica).

A edição

A carta foi conferida por três especialistas e comparadas com outros documentos e escritos de Galileu Galilei. A grafia era mesmo a do pensador italiano, tanto a que redige o texto original quanto o das edições.

Em uma passagem, Galileu faz comentários sobre a Bíblia e diz que certas afirmações poderiam ser assumidas como “falsas se alguém seguir o sentido literal das palavras”, indicando que em muitos casos o texto bíblico fazia uso de uma linguagem mais fácil e acessível, com analogias e figuras de linguagem que deviam ser interpretadas e não assumidas diretamente pelo sentido colocado. O termo “falsas” foi cortado por Galileu em sua nova versão, trocando-o por “diferentes da verdade”.

Em outro trecho, diz como o livro sagrado cristão “ocultava” do leitor os seus dogmas mais básicos. Na edição, amenizou a afirmação dizendo que a Bíblia fazia isso de modo “velado”.

A condenação

No ano seguinte ao envio da sua carta mais “suave” a Roma, em 1614, a Igreja Católica notifica o cientista dizendo que ele deveria abandonar seu apoio ao modelo teorizado por Copérnico.

Tempos depois, em 1632, Galileu publica “Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo”, relativizando as duas grandes teorias da cosmologia sobre o universo (mais especificamente o Sistema Solar): o ptolomaico e o copernicano.

O primeiro, do grego Claudius Ptolomeu (100-170 d.C), é o modelo geocêntrico, preferido da Igreja Católica, que coloca a Terra no centro e os demais astros, inclusive o Sol, girando ao seu redor.

Por voltar a divulgar suas ideias sobre o assunto proibido por Roma, Galileu é chamado para ser julgado pela Inquisição sob a suspeita de ter praticado heresia e seu livro é banido. O tribunal em Roma condenou Galileu, então com 69 anos, a passar o resto da vida na cadeia – punição posteriormente convertida em prisão domiciliar.

Galileu viveu nessa condição por mais nove anos até morrer, em Florença, em 1642, aos 77 anos de idade.

Nature cita incêndio no Museu Nacional

Na edição em que a revista Nature trata da “nova” carta de Galileu, a publicação diz em seu editorial que a descoberta evidencia o “valor de repositórios físicos”, como o da biblioteca da Royal Society.

Em certa altura do texto, a revista cita o incêndio que devastou o arquivo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, no dia 2 de setembro de 2018.

“Recursos digitais são de valor inestimável para historiadores, mas a descoberta da carta de Galileu reforça a necessidade de proteger objetos originais, muitos deles armazenados em museus e bibliotecas vulneráveis. O mesmo se dá em relação à perda devastadora de artefatos no incêndio do Museu Nacional, do Rio de Janeiro, no início deste mês. Nunca saberemos se um equivalente à carta de Galileu pereceu nas chamas. Alguma história foi perdida. Mas outras histórias, se pudermos preservá-las, estão apenas esperando para serem descobertas.”

Revista Nature

Editorial publicado no dia 25 de setembro de 2018

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