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Quem é a 3ª mulher a ganhar o Nobel de física na história

Cientista canadense é a primeira mulher em 55 anos a ser laureada na área, uma das mais desiguais das ciências. Ela divide o prêmio com mais dois colegas

 

No dia 2 de outubro de 2018, a física ótica canadense Donna Strickland recebeu o Prêmio Nobel por sua pesquisa com laser.

Junto ao francês Gérard Mourou, com quem divide o prêmio, ela tornou possível a emissão dos pulsos de laser mais intensos já criados.

A técnica desenvolvida por eles em 1985, conhecida como amplificação de pulso com varredura em frequência – CPA, em inglês –, tornou-se a ferramenta-padrão para obter lasers de alta intensidade, utilizados desde então em milhões de cirurgias oculares.

A dupla também divide o prêmio com o americano Arthur Ashkin, inventor das pinças ópticas, capazes de capturar partículas, átomos, vírus e células vivas com “dedos de luz laser”.

As mulheres na física

Contando Strickland, apenas três mulheres receberam o Prêmio Nobel de física na história. Desde 1901, quando foi instituído, entre 209 cientistas laureados, somente Marie Curie (1903) e Maria Goeppert-Mayer (1963) figuravam na lista até então.

Quando seu nome foi anunciado entre os vencedores do Nobel de 2018, não havia nenhum artigo na Wikipédia sobre ela. Até então, a única menção à cientista na enciclopédia virtual constava no verbete sobre Gérard Mourou, coinventor da técnica.

Em maio, um editor da Wikipédia rejeitou um esboço de artigo sobre Strickland com a justificativa de que as referências usadas não provavam que a pessoa em questão estava habilitada a ter um verbete sobre si.

O rascunho trazia as informações de que a física é professora associada da Universidade de Waterloo, no Canadá, e ex-presidente da sociedade científica Optical Society. Um verbete dedicado à sua biografia entrou no ar pouco depois do anúncio do Nobel.

A ausência de um registro das realizações de Strickland na Wikipédia não era uma casualidade. Em outubro de 2018, apenas 17% das biografias em inglês na enciclopédia livre eram de mulheres. Com relação às mulheres cientistas, a proporção é ainda menor.

“Hoje é o primeiro dia da minha vida em que há uma laureada viva do Prêmio Nobel de física”, escreveu a astrônoma e pesquisadora da Universidade de Washington Jamie Lomax no Twitter.

“Ainda assim, a universidade não a promoveu a professora catedrática e ela não tinha uma página na Wikipédia até duas horas atrás”.

A física é uma das disciplinas das áreas de ciência, tecnologia, engenharia, matemática e medicina que apresenta maior disparidade de gênero.

De acordo com um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Melbourne, na Austrália, publicado em abril de 2018, apenas 13% dos autores de artigos acadêmicos na física são mulheres, porcentagem que aumentou apenas 0,1% ao ano nas últimas duas décadas.

Mantendo essa taxa, serão necessários mais de 250 anos para que haja o mesmo número de homens e mulheres na posição de pesquisador sênior na física. O estudo analisou mais de 36 milhões de autores de artigos acadêmicos nos últimos 20 anos.

Na segunda-feira (1), a Organização Europeia de Pesquisa Nuclear suspendeu sua colaboração com um cientista que afirmou que a física era um "assunto de homens" e acusou as mulheres de obterem cada vez mais postos graças ao debate da igualdade de gênero.

Em uma oficina sobre "Teoria de altas energias e gênero" organizada pela entidade europeia e realizada em Genebra, na Suíça, o italiano Alessandro Strumia declarou que “a física foi inventada e construída pelos homens, não entramos por convite” e disse, ainda, não haver sexismo com relação às mulheres na física.

A trajetória da cientista

Nascida em 1959 em Guelph, cidade da província de Ontário, no Canadá, Strickland estudou engenharia física na década de 1970 na Universidade McMaster, uma instituição pública canadense. Tornou-se bacharel em 1981 e, em 1989, doutora em física ótica pela Universidade de Rochester, nos EUA.

Sua tese, “Development of an ultra-bright Laser and an application to Multi-Photon-Ionization” (Desenvolvimento de um laser ultra-brilhante e aplicação para ionização multi-photon, em tradução livre) foi orientada por Gérard Morou.

Trabalho pioneiro da dupla, o estudo “Compression of amplified chirped optical pulses” foi publicado em 1985, quando Strickland ainda era orientanda de Morou. 

É professora assistente da Universidade de Waterloo desde 1997.

Perguntada pelo repórter Adam Smith, em entrevista ao site do Prêmio Nobel, sobre de onde vinha seu “dom natural para fazer experimentos”, Strickland disse ser algo de que gostava e a que, em consequência, passou a dedicar muitas horas. “Foi uma época [quando pesquisava laser de pulso curto] em que trabalhei muito duro”, disse.

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