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Por que o mercado reage bem ao avanço de Bolsonaro

Pesquisas que mostram crescimento do candidato do PSL são acompanhadas de alta de ações e queda do dólar. Ao ‘Nexo’, economistas explicam o raciocínio dos investidores

     

    A pesquisa Ibope divulgada na segunda-feira (1) apresentou um quadro diferente da disputa presidencial. Depois de algumas semanas com Jair Bolsonaro (PSL) estagnado e Fernando Haddad (PT) crescendo, houve uma mudança de tendência.

     

    Antes estacionado, Bolsonaro avançou quatro pontos na intenção de voto no primeiro turno, aumentando a vantagem em relação a Haddad de seis para dez pontos. No segundo turno mais provável, entre Bolsonaro e Haddad, o candidato do PSL também se tornou mais competitivo, tirando uma desvantagem que era de quatro pontos e empatando a disputa.

     

    A reação do mercado na terça-feira (2) foi positiva. O Índice Bovespa, que mede a variação dos preços das principais ações do mercado brasileiro, avançou 3,78%. O preço do dólar em reais caiu 2,51%.

     

    Na noite de terça, após o fechamento das negociações, nova pesquisa, dessa vez do Datafolha, reforçou o quadro. Na quarta-feira (3), a reação se repetiu: mais 2,04% para o Ibovespa e menos 1,16% para o dólar. Assim, a bolsa atingiu seu maior patamar desde maio e a moeda americana o menor desde agosto.

    A reação do mercado

     

    Por que o mercado reage

    Os analistas e investidores não se pautam só pela política, mas ela é um elemento importante na tomada de decisão. Em tempos de eleição, o resultado sobre quem será o próximo presidente e qual será sua política econômica é uma variável importante em qualquer projeção. Em especial as expectativas sobre a estabilidade, a disciplina fiscal e a retomada do crescimento no futuro.

     

    Se os analistas e investidores projetam que a economia ou determinado segmento dela vai melhorar em relação ao que projetavam antes e percebem menos risco de o país não conseguir controlar sua dívida e cumprir com suas obrigações, procuram comprar o que aumenta os preços e faz a bolsa subir. Se a previsão é de que a situação vai piorar, a tendência é vender e o preço cair.

     

    O mercado financeiro não representa toda a economia. Ele é composto de diversos agentes que reagem e apostam de acordo com suas expectativas de lucro futuro. Neste momento, pelos movimentos dos preços, fica claro que os analistas e investidores acreditam que uma vitória de Bolsonaro será melhor para a economia e para o valor dos ativos.

     

    A avaliação sobre Bolsonaro está diretamente ligada à avaliação que se faz do seu adversário mais provável, Fernando Haddad. Ou seja, há na maioria dos investidores a ideia de que Haddad, seu programa econômico apresentado à Justiça Eleitoral e seu governo são um mal maior que as fragilidades da candidatura de Bolsonaro.

    As incertezas sobre Bolsonaro

    O candidato do PSL, ao longo de sua extensa carreira, não foi um político pró-mercado. Mas ele se converteu recentemente ao liberalismo econômico e promete fazer reformas que diminuam o deficit fiscal. A ligação entre Bolsonaro e o mercado financeiro é Paulo Guedes, economista formado na Universidade de Chicago, um dos principais polos do liberalismo econômico no mundo.

     

    A confiança no plano de Guedes minimiza as preocupações com pontos que são nebulosos no programa econômico de Bolsonaro. A relação entre o presidente e seu assessor econômico, já nomeado ministro da Fazenda em um eventual governo do PSL, é uma delas. Não se sabe que autonomia terá Paulo Guedes no principal posto da economia.

     

    Recentemente, Paulo Guedes propôs a criação de um tributo sobre movimentação financeira, nos moldes da CPMF que existiu no Brasil entre 1997 e 2007. Isso afetaria diretamente o mercado financeiro, mas Bolsonaro negou a intenção de criar impostos e parece ter conseguido amenizar a repercussão negativa entre os investidores.

     

    Na segunda-feira (1), a agência de classificação de risco Standard & Poor’s indicou que Bolsonaro representa um risco maior que Haddad para a economia. A avaliação é que, como um outsider, Bolsonaro “aumenta o risco de incoerência ou de atrasos em ter as coisas feitas depois das eleições”, nas palavras de Joydeep Mukherji, analista da agência para a América Latina. "As coisas" são as medidas de ajuste fiscal.

    Para entender por que o mercado reage positivamente a Bolsonaro e por que as incertezas sobre seu plano econômico são relativizadas, o Nexo conversou com dois economistas.

    • Alessandra Ribeiro, diretora da área de macroeconomia e política da Tendências Consultoria
    • André Perfeito, economista-chefe da Spinelli Corretora

    Como o mercado reage às mudanças no quadro eleitoral?

    Alessandra Ribeiro O mercado tenta antecipar, nos preços, a percepção de como aquele novo governo vai lidar com as questões econômicas. O mercado está sempre preocupado com o risco de um determinado país, ele tem investimentos, ele financia o país.

    Por isso há uma preocupação grande com o problema nas contas públicas, que é grave. Os deficits são importantes, a dívida pública segue aumentando. Se eles olham a trajetória da dívida e veem no candidato que está despontando o risco de ele não lidar com o problema nas finanças públicas, esse investidor vai identificar risco. Vai ter medo de o país ficar insolvente e ele perder dinheiro. O mercado antecipa esse tipo de risco no preço hoje, de acordo com o candidato que está na frente nas pesquisas.

    Em um cenário como o atual, o problema nas contas públicas é complicado para toda a economia. Impacta o PIB, a rentabilidade das empresas, assim a bolsa sofre. Há toda uma ligação.

    André Perfeito É um conjunto de coisas. O ajuste fiscal que o Bolsonaro propõe, baseado em venda de estatais, soa como música para o mercado. Surgem várias frentes de negócios a serem desenvolvidas. Isso sem falar que melhoraria a questão fiscal, o que baixa a taxa de juros e gera uma apreciação dos ativos. A solução proposta casa com o que encanta o mercado.

    A dúvida que fica, na minha opinião, é a capacidade de ele viabilizar o que ele propõe. Mas isso é mais uma dúvida minha do que uma dúvida do mercado. Tanto a S&P quanto a The Economist [revista britânica] atentam para isso. É muito vago.

    Por que o mercado reage bem ao avanço do Bolsonaro?

    Alessandra Ribeiro Ao colocar o Paulo Guedes, que é um liberal e tem uma preocupação grande com o fiscal, há uma ênfase no controle de gastos. Ele defende a manutenção do teto de gastos, uma reforma da Previdência. A reforma é em um modelo que a gente não acha que vai sair do papel, a gente não acha que ele vai conseguir fazer um décimo do programa de privatização. Mas só de ele ter essa preocupação com as contas públicas, com os pilares da política econômica, já é uma vantagem para o mercado.

    O PT já flerta com mudanças no câmbio flutuante, há dúvidas sobre um banco central independente e sobre a questão fiscal. O Haddad até fala da necessidade da reforma da Previdência, mas não se sabe que reforma seria essa. Há a ideia de flexibilizar o teto de gastos e isso deixa os agentes do mercado desconfiados.

    Isso não quer dizer que há otimismo com o Bolsonaro, há várias dúvidas sobre a relação com o Paulo Guedes, se ele vai conseguir governabilidade na Presidência. Sem dúvida, o risco é grande, mas pelo menos esses pilares estão mais claros.

    André Perfeito Primeiro porque boa parte dos participantes do mercado financeiro, e é o que as pesquisas têm mostrado, é um eleitorado cativo de Bolsonaro. Acho que há torcida aí no meio, isso faz com que o otimismo seja amplificado para além do que os dados mostram. Há uma sobreposição dessas questões, pessoas que acham que ele pode ser bom para além da questão econômica. Isso é uma parte.

    A outra é que eu acho que o mercado está reagindo não ao Bolsonaro, mas à possibilidade de o PT não vir. O que faz sentido do ponto de vista do mercado. Por quê? Vamos pegar a Petrobras, o PT tem se posicionado contra a política de preços. Assim, se o PT não ganhar não deve ter alteração na política, logo isso é bom para a empresa. Outro ponto, o PT quer taxar o spread bancário. Se não entrar o PT, é bom pra banco.

    O Bolsonaro, até agora, fora uma fala ou outra que é desmentida por ele mesmo, não é claro. Como o Bolsonaro não se posicionou claramente, a única coisa que eu posso imaginar que esteja sendo precificado é: algumas coisas não vão ser feitas se o PT não ganhar.

    Em algum momento, o mercado vai ter que precificar o Bolsonaro e isso não necessariamente vai ser entusiasmante. Quando tiver que olhar para o Bolsonaro, aí vai haver uma outra discussão no mercado.

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