Por que Bolsonaro cresceu entre o eleitorado feminino

Apoiadores de Bolsonaro se mobilizaram para criticar movimento #EleNão. E candidato do PSL teve alta de seis pontos entre as mulheres

     

    Jair Bolsonaro registrou alta de intenção de voto entre o eleitorado feminino na semana final da campanha presidencial. Segundo o instituto Datafolha, o apoio ao candidato do PSL entre as mulheres passou de 21%, em pesquisa divulgada na sexta-feira (28), para 27%, em pesquisa divulgada na terça-feira (2), um crescimento de seis pontos percentuais, acima da margem de erro, que é de dois pontos para mais ou para menos.

    Esse aumento ocorreu tanto entre o eleitorado feminino de classes mais altas (dez pontos, conforme a pesquisa Datafolha) quanto entre o de classes mais baixas (cinco pontos, segundo o mesmo instituto). Mesmo assim, Bolsonaro continua sendo rejeitado por metade das mulheres.

    Nesse levantamento, o candidato do PSL aparece com 32% das intenções de votos gerais. É líder da disputa presidencial de 2018, seguido de Fernando Haddad, com 21%, segundo o Datafolha.

    A movimentação do eleitorado feminino se deu num momento de campanha contra o capitão da reserva. No sábado (29), milhares de pessoas foram às ruas em várias cidades do país, sem apoiar necessariamente um candidato, mas com um alvo claro: repúdio ao discurso do capitão da reserva. Comandado por mulheres, os atos tinham como slogan #EleNão.

    Os apoiadores do candidato do PSL também se mobilizaram para tentar desqualificar as mulheres que participaram dos protestos. A reação foi intensa: nas ruas, com atos realizados no sábado (29) e no domingo (30), e também pela internet. Uma onda de informações, algumas delas falsas, começou a circular em grupos de WhatsApp e no Facebook com o objetivo de hostilizar as mulheres que aderiram ao #EleNão.

    O Nexo conversou com pessoas que participam de grupos de WhatsApp de apoio a Bolsonaro. Nas mensagens, havia ataques às manifestantes, quase sempre de cunho moral. Havia ainda imagens usadas fora de contexto, como se as cenas tivessem ocorrido no sábado (29): uma delas era um ato realizado em 2013, durante a visita do Papa ao Brasil, em que manifestantes nuas destruíam imagens sacras.

    Uma reportagem do El Pais em 28 de setembro mostrou a atuação de eleitores de Bolsonaro em três grupos de WhatsApp. Em dois deles, o comportamento predominante era o de usuários compartilhando notícias falsas. Em todos eles, havia pedidos para que apoiadores combatessem “a grande imprensa tendenciosa”.

    Duas análise sobre movimento eleitoral

    Diante da rejeição de Bolsonaro, dos protestos contra ele, da reação de seus apoiadores e do crescimento do capitão da reserva entre o eleitorado feminino, o Nexo entrevistou duas especialistas. São elas:

    • Rosana Pinheiro Machado, cientista social e antropóloga, professora do departamento de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Oxford
    • Rita Lages Rodrigues,  historiadora e professora da UFMG

    O Datafolha registrou alta de seis pontos para Bolsonaro entre as eleitoras, em pesquisas divulgadas num espaço de quatro dias. O que explica o aumento do apoio entre as mulheres?

    Rosana Pinheiro Machado Muitos fatores explicam esse aumento. Há uma tendência dizer que a marcha das mulheres do #EleNão ajudou. É um argumento injusto e sem evidência empírica. O #EleNão pode ter forçado uma tomada de decisão do lado oposto, numa contrarreação ao movimento, mas acho que isso é algo pequeno.

    Um fator importante para o qual pouco tem se atentado é que, nos últimos 30 dias, a campanha de Bolsonaro passou a investir no público feminino. Fazendo um levantamento do conteúdo online no período, a questão das mulheres começou a ser um tema predominante na campanha dele. Houve um direcionamento para tornar Bolsonaro um candidato que pensa nas mulheres, que pensa na questão do estupro [o candidato propõe, por exemplo, a castração química de estupradores]. Antes a gente não ouvia isso sobre as mulheres. Começaram a falar que Bolsonaro é o único que cuida da mulher. Ele próprio usou a rejeição das mulheres para tentar abocanhar uma parte do eleitorado feminino.

    Outro fator fundamental que as pessoas estão ignorando é o antipetismo, que é o voto útil, no qual a direita tem se concentrado. E por fim é o afunilamento normal da última semana, quando as mulheres indecisas agora estão tomando partido. Nesse momento, pode ser que muitas das mulheres indecisas se decidam por Bolsonaro, principalmente das camadas médias e altas. Esse maior aumento foi entre mulheres escolarizadas do Sudeste. Muitas mulheres ainda seguem votos dos maridos, dos pais. É uma característica que se mantém forte no Brasil, apesar de a grande novidade na área eleitoral serem as mulheres que estão, na verdade, discordando dos maridos.

    Rita Lages Rodrigues É muito difícil responder de forma absoluta à questão sobre a alta de seis pontos entre o público feminino, pois temos diferenças regionais em relação à participação feminina. No Sul e no Sudeste houve um maior aumento do número de eleitoras de Bolsonaro do que no Nordeste, ponto a ser considerado. Não podemos esquecer que o machismo foi estrutural em nossa sociedade por muito tempo, faz parte de um fenômeno de longa duração cultural, e que toma corpo tanto em homens como em mulheres. A estrutura machista em nossa sociedade está se rompendo.

    O Brasil viveu um momento histórico de mobilização de mulheres no dia 29 de setembro, com manifestações em todo o país. Como esses atos impactaram as eleitoras no geral?

    Rosana Pinheiro Machado Qualitativamente a gente pode dizer que tem havido um processo inédito de mobilização das mulheres. De mulheres que antes não eram politizadas, de entrada de mulheres na esfera pública. Aqui no interior do Rio Grande do Sul, senhoras que sempre seguiram os maridos, ou pastores de igreja, agora estão ouvindo suas netas.

    A gente ainda não sabe em que isso vai impactar em termos de votos, mas o processo de politização de mulheres que estão ouvindo outras mulheres e que sempre ouviram homens, ou o pastor, ou o marido, ou o filho, isso é muito impressionante. Isso é fenomenal. Há mulheres brigando com seus maridos, mulheres decidindo por conta própria. Não existia antes. É a politização de mulheres através de outras mulheres.

    Como isso impacta a eleição é difícil de prever. Porque, ao mesmo tempo que muitas mulheres têm convencido o voto de outras, o contra-ataque também é grande.

    Rita Lages Rodrigues A grande manifestação nas ruas no dia 29 de setembro fez com que as mulheres demonstrassem seu potencial de organização para ocupação das ruas e do espaço público e dessem o recado de que não irão aceitar retrocessos em suas conquistas.

    No entanto, como uma reação a este movimento das mulheres contra o candidato, cujo ápice foi a manifestação no dia 29, mas que já havia tomado conta das redes, a campanha de Bolsonaro, já há algumas semanas, aumentou o número de perfis femininos no Facebook, por exemplo, para tentar reverter o seu impacto negativo nesse público.

    E essa luta é feminista. As manifestações mostraram às mulheres que elas têm uma rede de solidariedade que ultrapassa a individualidade e toma corpo na tessitura social.

    É esta a grande potência deste movimento: a união das mulheres em torno da defesa de suas liberdades, de suas escolhas e sua capacidade de participação política.

    Apoiadores de Bolsonaro divulgaram uma série de posts, alguns deles com informações distorcidas, para desqualificar as manifestações das mulheres de 29 de setembro. Essas mensagens têm efeito a favor do candidato do PSL?

    Rosana Pinheiro Machado As fake news têm muita reação no campo bolsonarista, sempre tentando ridicularizar, sempre focando uma mulher dentro de um padrão específico que cause horror, nojo, ódio e repulsa das mulheres feministas. Por outro lado, as próprias mulheres, as milhões de mulheres do grupo “Mulheres unidas contra Bolsonaro” que estiveram nas ruas estão mostrando suas fotos e mostrando a verdade.

    Há uma verdadeira guerra cultural de disputa de narrativa. No campo bolsonarista, essas imagens falsas, violentas e agressivas têm um impacto muito grande para legitimar o que já se pensa. O campo bolsonarista está indo mais na questão antipetista nesse momento, e a questão da mulher é muito mais uma desculpa para justificar o antipetismo do que qualquer outra coisa.

    Rita Lages Rodrigues O retrocesso que o candidato Bolsonaro representa e o eco que encontra em parte do eleitorado é uma reação às conquistas das mulheres nas últimas décadas.

    No WhatsApp, discursos contra o feminismo têm tido grande força nos seus grupos de apoiadores. Além disso, posts e fake news sobre as manifestações infestaram os grupos e atingiram uma parcela considerável da população.

    Se, por um lado, Pierre Bourdieu, em seu livro “A Dominação Masculina”, afirma que a dominação é introjetada nos dominantes, e o machismo só tem o efeito que tem em função de ser aceito por parte das mulheres, por outro, a luta política cotidiana é realizada para romper com estas estruturas.

     

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