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PT e PSDB em Minas: dos acordos tácitos à polarização

Mesmo com crises recentes, os dois partidos que dominaram a política nacional nas últimas décadas seguem com força em Minas

     

    A disputa pelo governo de Minas Gerais deve ser decidida, mais uma vez, entre PT e PSDB. O ex-governador Antônio Anastasia e o atual, Fernando Pimentel, são, respectivamente, primeiro e segundo colocados nas principais pesquisas de intenção de voto divulgadas uma semana antes do primeiro turno.

    Caso o resultado da pesquisa se confirme, será a quarta vez nas últimas cinco eleições que PSDB e PT serão primeiro e segundo colocados na disputa pelo governo de Minas. A única exceção aconteceu em 2010, quando, como parte de um acordo nacional, o PT abriu mão de ter o candidato a governador e indicou o vice na chapa do PMDB.

    Esses mais de 15 anos de domínio dos dois partidos podem ser divididos em dois períodos e protagonismo de tucanos e petistas: um período em que vigorou um acordo tácito entre os adversários, entre 2002 e 2010, e um período de polarização aberta, a partir de 2014.

    O acordo tácito de tucanos e petistas

    Desde que as eleições para os governos estaduais voltaram a ser diretas, em 1982, quatro partidos governaram Minas Gerais: PSDB, PMDB, PT e PRS (Partido das Reformas Sociais, criado em 1991 e extinto em 1992). Foram três vitórias do PMDB, a mais recente delas no fim dos anos 1990, com Itamar Franco.

    Depois disso, sobressaiu a disputa entre o PSDB e PT. No governo estadual, a vantagem dos tucanos é clara: são quatro mandatos contra apenas um dos petistas, do atual governador Fernando Pimentel. Mas os dois principais partidos do estado demonstram sua força não somente na eleição para governador.

    Em 2008, eles chegaram a se unir na eleição para prefeito de Belo Horizonte. Amparados na alta popularidade do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do então governador Aécio Neves, PT e PSDB elegeram em primeiro turno o novato Marcio Lacerda (PSB). O acordo durou pouco e logo o PT rompeu com Lacerda e o PSDB.

    Mesmo em eleições em que não foram oficialmente aliados, os dois partidos não se atrapalharam. Entre 2002 e 2010, um resultado se repetiu nas eleições para o Executivo no estado: o PSDB vencia com facilidade o governo e o PT era o mais votado para a Presidência. 

    A situação era favorável tanto para o PSDB local quanto para o PT nacional, o que por vezes gerava reclamações de aliados. O PSDB mineiro era cobrado para que ajudasse os candidatos tucanos à Presidência e o PT nacional era alvo de críticas dos petistas no estado.

    Em 2010, a campanha de José Serra (PSDB) reclamou de uma suposta falta de empenho de Aécio na eleição nacional. O candidato apoiado pelo PT em Minas, Hélio Costa (PMDB), fez queixa pública depois de Dilma Rousseff ter feito elogios ao tucano.

    O voto misto do eleitor mineiro chegou a ganhar apelidos: Lulécio, para quem votou em Luiz Inácio Lula da Silva e em Aécio Neves em 2002 e 2006, e Dilmasia para a dupla Dilma Rousseff e Antonio Anastasia.

     

    A polarização aberta entre petistas e tucanos

     

    A situação mudou em 2014. Aécio, principal liderança da história do PSDB em Minas Gerais, conseguiu a indicação para disputar a Presidência da República por seu partido. O novo quadro obrigava o enfrentamento direto, sem acordos tácitos. A polarização do país se repetiu em Minas e os elogios e concessões das campanhas anteriores deixaram de existir.

    O resultado desse embate foi apertado e terminou com vantagem para o PT, que teve 52,4% dos votos no segundo turno da votação nacional. Os petistas também conseguiram conquistar pela primeira vez na história o governo de Minas, com Fernando Pimentel recebendo 53% dos votos válidos e sendo eleito ainda no primeiro turno.

     

    A disputa de dois nomes conhecidos

    A pesquisa Datafolha mais recente, realizada entre os dias 26 e 28 de setembro, mostra que o atual governador e seu antecessor são os favoritos na votação do primeiro turno, marcada para o dia 7 de outubro.

    O senador Antônio Anastasia (PSDB), que governou o estado entre 2010 e 2014, tem 33% das intenções de voto. O segundo lugar, desde o início da disputa, é do atual governador Fernando Pimentel (PT), com 24%. Os dois líderes são acompanhados a distância pelo empresário Romeu Zema (Novo) e pelo presidente da Assembleia Legislativa de Minas, Adalclever Lopes (MDB).

    PSDB x PT

     

    O atual governador, Fernando Pimentel, é o candidato mais rejeitado, com 41% dos entrevistados afirmando que não votariam no petista. Pimentel, que governa o estado desde 2015, enfrenta uma grave crise fiscal que leva o governo a parcelar o pagamento dos servidores. Os petistas culpam as gestões anteriores, de Aécio e do próprio Anastasia, pelos problemas nas contas públicas.

    Além da questão fiscal, que atinge também outros estados, Pimentel teve de enfrentar durante seus quatro anos de gestão as investigações da Operação Acrônimo. Nela, o governador é réu por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

    O candidato do PSDB é o segundo mais rejeitado, com 28%. O senador culpa Pimentel pelo descontrole das contas do estado. Por outro lado, o tucano tem tentado se desvincular de seu maior padrinho político, Aécio, que perdeu boa parte de seu capital político depois de ter sido gravado pelo empresário Joesley Batista pedindo R$ 2 milhões e denunciado por corrupção e tentativa de obstrução de justiça.

    Anastasia chegou a entrar na Justiça Eleitoral pedindo para não ser vinculado a Aécio na propaganda eleitoral. Também pediu ao Tribunal Regional Eleitoral que proibisse o PT de veicular uma propaganda associando sua imagem à dele.

    Foi o ex-governador, que hoje disputa vaga na Câmara dos Deputados, quem colocou o senador como vice em 2006 e foi o principal responsável por sua entrada na política eleitoral. Hoje, Aécio está afastado da campanha do aliado.

    Enquanto isso, Dilma, depois de sofrer um impeachment em 2016, tenta voltar a Brasília disputando uma vaga ao Senado. A ex-presidente faz campanha junto com Pimentel.

    Os dois mineiros de Belo Horizonte que foram os maiores protagonistas da política nacional em 2014, portanto, estão na disputa em Minas.

    A dificuldade da terceira via e as decisões em primeiro turno

    Mesmo com Anastasia com pouco mais de um terço dos votos totais, segundo o Datafolha, a eleição em Minas pode acabar no primeiro turno. A falta de uma terceira via forte e o grande número de brancos e nulos (17%) podem fazer com que o líder consiga a maioria dos votos válidos já em 7 de outubro.

    Para garantir a vitória em primeiro turno, Anastasia precisa ter mais votos que a soma de todos os seus concorrentes: atualmente ele tem 33%, enquanto todos os outros somam 40%. A margem de erro da pesquisa é de 3 pontos percentuais para mais ou menos.

    A decisão em primeiro turno é frequente em Minas: aconteceu em todas as eleições desde 2002. Parte da explicação para esse fenômeno está na falta de uma terceira via na disputa local.

    Na eleição de 2002, o terceiro colocado, Newton Cardoso (PMDB), teve 6,7% dos votos válidos. Foi o melhor desempenho de uma terceira força desde então. Nas eleições seguintes, nunca mais um terceiro lugar conseguiu superar os 4%.

    O quadro mais claro aconteceu em 2006, quando Aécio, do PSDB, e Nilmário Miranda, do PT, receberam, juntos, mais de 99% dos votos válidos. Os outros quatro candidatos somaram 0,94%.

    Para entender em que estágio está a disputa entre PT e PSDB no estado, o Nexo conversou com dois cientistas políticos:

    • Carlos Ranulfo, pós-doutor pela Universidade de Salamanca e professor da UFMG
    • Fábio Wanderley Reis, doutor pela Universidade de Harvard e professor emérito da UFMG

    Por que é tão difícil ser terceira via em Minas?

    Carlos Ranulfo A polarização se manteve graças a uma política de alianças entre PT e PMDB, desde 2006. Os outros partidos menores sempre gravitaram em torno do PSDB, nunca tiveram liderança e protagonismo. Então, com esses dois campos fortes, não havia espaço para uma terceira força.

    Agora, em 2018, haveria esse espaço com o Marcio Lacerda (PSB), mas houve a interferência da direção nacional do PSB na campanha mineira, que barrou a candidatura. Havia espaço porque tanto PSDB quanto PT têm certo desgaste, e o MDB, por ter se descolado, levaria o tempo de TV para o Lacerda, que já tinha uma arrancada inicial razoável. Então, pela primeira vez em muito tempo, havia condições. No lugar, o MDB lançou o Adalclever Lopes [presidente da Assembleia Legislativa], que não tem nenhuma projeção.

    O próprio Lacerda, é bom lembrar, foi cria de um casamento inusitado entre PT e PSDB. Isso mostra o quanto é difícil se colocar uma alternativa. Ele rompe com o PSDB, o MDB rompe com o PT e daí sairia a terceira força.

    Fábio Wanderley Reis A polarização está em todo o país, é só ver a eleição nacional. Isso não quer dizer que os candidatos a governador sejam necessariamente bolsonaristas ou petistas. A disputa entre PT e PSDB continuaria no cenário nacional, mas o Bolsonaro ocupou esse espaço.  Ainda há sobreviventes no PSDB, apesar da crise que o partido enfrenta e que chega a colocar em risco a continuidade. O Anastasia é um deles.

    [Historicamente] A falta da terceira via em Minas aconteceu muito também por causa do Aécio, era um dos focos desse vigor da polarização. Agora ele está liquidado como força política real. O fenômeno a ser explicado é porque o Anastasia resiste. Isso provavelmente tem a ver com o bom governo recente, uma imagem favorável, não tem a ver com o PSDB.

    Qual o estágio da disputa entre PT e PSDB em Minas?

    Carlos Ranulfo É o único estado do Brasil com o último suspiro dessa polarização de 20 anos. É o único lugar onde os dois partidos conseguiram bloquear uma terceira via. A campanha está sectária e radical, PT e PSDB estão se enfrentando desde o primeiro dia. Mas acho que nada disso repercute nacionalmente.

    Para o PSDB, o fato de estar praticamente fora do segundo turno nacionalmente não pode ser compensado de forma alguma por uma vitória em Minas. Até porque o Anastasia não é uma liderança política de projeção nacional. Como ele mesmo gosta de dizer, ele é um gestor, é do perfil dele. Então não acho que ele tenha sequer pretensão de se tornar uma referência política do PSDB.

    Se olhar Dilma e Aécio, são campanhas diferentes. A Dilma faz uma campanha para os petistas, vai se eleger com o voto petista, falando 'contra o golpe'. A campanha é para uma senadora nacional, acho que vai estar muito pouco vinculada a Minas Gerais. O Aécio não está tendo grande influência na campanha, nem positiva nem negativa. Existe especulação de que ele será bem votado, mas ele não aparece.

    Fábio Wanderley Reis É difícil ser categórico, afirmativo com relação ao fim ou não dessa polarização. Por um lado, de uma perspectiva mais ampla, é possível ver que o PSDB está em uma crise séria. É difícil imaginar de onde podem surgir lideranças relevantes para manter o partido como uma referência.

    O Aécio, eu não vejo perspectiva de ele ressurgir como liderança relevante, o desgaste é muito forte, foi desmoralizante. Quanto ao Anastasia, também não vejo alcance maior para essa sobrevivência que ele conseguiu em Minas. Então o quadro é negativo para o PSDB e de incerteza para o PT.

    Por outro lado está muito pouco claro, apesar dessa revivescência que o PT teve nesse processo de enfrentamento, o que vai resultar daí. Então é um quadro preocupante para o partido também. Dilma deve ser eleita e se sair bem, mas Pimentel não deve vencer. Então a perspectiva para o partido em Minas é medíocre.

     

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