Ir direto ao conteúdo

A relação de Bolsonaro com a extrema direita internacional

Crescimento do capitão da reserva acompanha onda conservadora mundial, mas obedece a dinâmicas locais, dizem estudiosos

     

    A liderança do candidato Jair Bolsonaro (PSL) nas pesquisas de intenção de voto para presidente em 2018 virou objeto de interesse de alguns dos principais pesquisadores dedicados a entender a ascensão da “extrema direita populista” no mundo.

    A questão, para eles, é saber se Bolsonaro é um fenômeno completamente autóctone ou se ele é a expressão mais recente de uma corrente bem articulada internacionalmente.

    O Nexo conversou com cinco cientistas políticos de cinco países — alguns deles autores de livros influentes sobre o assunto — para saber como esses estudiosos veem Bolsonaro e as conexões entre o candidato brasileiro e o movimento de extrema direita populista na Europa e nos EUA.

    Qual a tentativa de conexão

    A própria campanha de Bolsonaro buscou ativamente essa conexão internacional. O movimento mais assertivo nessa direção foi protagonizado em agosto por um dos filhos de Bolsonaro, Eduardo.

    Ele viajou aos EUA para discutir a campanha presidencial do pai com Steve Bannon, chefe da campanha de Donald Trump para presidente dos EUA em 2016 e um dos ideólogos do movimento conservador americano.

     

    Depois de ajudar a eleger Trump e a montar a equipe de governo do presidente americano, Bannon se afastou da Casa Branca e partiu para um desafio ainda mais ambicioso: espalhar a onda conservadora pela Europa.

    O jornal espanhol El País diz que Bannon comprou um antigo mosteiro do ano 1204, a sudeste de Roma, para instalar “uma espécie de universidade do populismo”, e vem se encontrando com líderes da extrema direita de países como Itália, França, Polônia, Alemanha e Suécia.

    Bannon se colocou à disposição para ajudar”, disse Eduardo Bolsonaro, em agosto. “Isso, obviamente, não inclui nada de financeiro. A gente deixou isso bem claro, tanto eu quanto ele. O suporte é dica de internet, de repente uma análise, interpretar dados, essas coisas.”

    “Não há surpresa alguma no contato de Bolsonaro com Bannon”, disse ao Nexo, por telefone, Lawrence Rosenthal, coordenador do Centro Berkeley de Estudos sobre a Direita, da Universidade da Califórnia. “Estamos vendo a ascensão de um empreendimento populista internacional de caráter autoritário.”

    “Tudo o que Bannon quer é impulsionar o crescimento de um movimento populista no mundo agora”, afirmou Rosenthal.

    “Ainda que Bolsonaro seja um fenômeno tipicamente brasileiro, sua ascensão se dá em um contexto global de outros fenômenos similares que, acredito, podem ser caracterizados como populismo de direita”, disse ao Nexo o pesquisador brasileiro Carlos Gustavo Poggio, que é professor de relações internacionais na PUC de São Paulo e autor de “O Pensamento Neoconservador em Política Externa dos EUA”.

    Poggio é mais reticente que Rosenthal na hora de definir o nível de articulação internacional de Bolsonaro. “Não vejo nada muito sistemático, eles podem se inspirar em um ou outro ponto, conversar com esse ou aquele ator, mas pelo menos por enquanto não tenho dados muito claros sobre isso, o que não significa que não possa mudar mais para frente.”

     

    Outra especialista no assunto, a italiana Nadia Urbinati, da Universidade de Columbia, em Nova York, disse ao Nexo, por e-mail, que já não é novidade que a extrema direita populista tem um projeto coordenado internacional.

    “Eu não sei sobre o empreendimento de Bannon no Brasil e na América Latina, mas essa associação mundial existe e não é segredo. Ao contrário, é uma associação que tem um nome e um objetivo: o populismo internacional”, afirmou a pesquisadora, que é especialista em política contemporânea e tradições não democráticas.

    Urbinati considera também que essa aliança é “um projeto da direita”. “Ela não inclui partidos populistas de esquerda, como por exemplo o Podemos, da Espanha. Seu objetivo primordial é conquistar a Europa e transformar a União Europeia num projeto nacionalista neoliberal”, disse.

    A ideia de que a onda populista de extrema direita é articulada internacionalmente foi reforçada em junho pelo anúncio de que o embaixador americano em Berlim, Richard Grenell, indicado para o cargo por Trump, trabalha pelo crescimento dos partidos conservadores na Europa.

    “Muitos conservadores ao longo de toda a Europa têm me procurado para dizer que eles sentem que há um ressurgimento conservador em curso”, disse Grenell, acrescentando que há “muito trabalho a fazer” a esse respeito, o que o deixa “muito excitado”.

    “Eu absolutamente quero empoderar outros conservadores ao longo da Europa, outros líderes. Eu penso que há uma onda de políticas conservadoras que está crescendo por causa das políticas falidas da esquerda”

    Richard Grenell

    embaixador dos EUA em Berlim, em entrevista ao site conservador Breitbart, no dia 3 de junho de 2018

    O sucesso dessa articulação ainda é incerto. Se Rosenthal diz ao Nexo que Bolsonaro faz parte da articulação internacional orquestrada por Bannon, outro pesquisador influente, o chileno Cristóbal Rovira Kaltwasser, da Universidade Diego Portales, discorda.

    “Os jornalistas normalmente têm um insight sobre esse tema e começam a superdimensionar o que está acontecendo”, disse ele por telefone de Santiago do Chile. “Bannon desempenhou um papel importante num dado momento nos EUA, mas depois não mais. Ele não é responsável por tudo o que está acontecendo.”

    Kaltwasser, que é coautor, junto com o holandês Cas Mudde, do livro Populismo: Uma Muito Breve Introdução, reconhece que “Bannon está montando um movimento internacional, mas ele não é tão relevante assim”.

    “O presidenciável não tem pautas nacionalistas concretas e não defende nem a indústria, nem os empregos, nem a cultura brasileira, em oposição a uma ameaça estrangeira”

    Uma das dificuldades para essa articulação internacional, diz Kaltwasser, é justamente uma das características mais marcantes da extrema direita populista: o nacionalismo exacerbado.

    “Os distintos partidos populistas europeus mantêm relação difícil entre si no Parlamento Europeu por causa das doses de nacionalismo e da relação em níveis diferentes com o fascismo”, afirmou o pesquisador chileno. Portanto, disse ele, “há uma onda global desses movimentos, mas não vejo um ator maquiavélico por trás”.

    No caso de Bolsonaro, o nacionalismo se expressa sobretudo no discurso sobre a pátria e as Forças Armadas, no uso da bandeira nacional e de slogans como “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”.

    Mas “não é o que parece”, disse o analista político Pablo Ortellado, em sua coluna semanal na Folha de S.Paulo, em 25 de setembro. “O presidenciável não tem pautas nacionalistas concretas e não defende nem a indústria, nem os empregos, nem a cultura brasileira, em oposição a uma ameaça estrangeira”, disse Ortellado.

    “O uso que faz da simbologia nacional parece mais representar uma espécie de civismo, de defesa do interesse público, tal como adotada no movimento anticorrupção, do que um nacionalismo propriamente dito”, afirmou o autor do artigo.

    Em outubro de 2017, Bolsonaro prestou continência (gesto de saudação militar) para uma enorme bandeira dos EUA projetada no telão de um restaurante brasileiro em Deerfield Beach, no estado americano da Flórida.

    “A minha continência à bandeira americana”, disse Bolsonaro, virando-se na direção da bandeira dos EUA, antes de puxar o coro de seus seguidores, com o punho cerrado e erguido no ar: “USA! USA!”

     

    “Há essas aparentes contradições até de forma recorrente entre os populistas de extrema direita”, disse Rosenthal. Ele cita como exemplo o fato de Trump ser contra os imigrantes, “mesmo sendo, ele mesmo, neto de imigrantes e marido de uma imigrante”.

    “Há muito de conteúdo irracional nessas campanhas. Pessoas racionais ficam perplexas e têm dificuldade de entender. Mas nem tudo é racional nesse processo”, disse Rosenthal.

    Olhares internacionais para Bolsonaro

    Bolsonaro atingiu na terça-feira (2), faltando quatro dias para o primeiro turno, 32% das intenções de voto, segundo o Datafolha — exatamente dez pontos percentuais à frente do segundo colocado, Fernando Haddad (PT).

    Os ataques que Bolsonaro e seus apoiadores fazem à democracia e aos direitos humanos converteram esta eleição numa disputa sem precedentes. Até aqui, o Brasil tinha disputas entre candidaturas antagônicas, mas nenhuma delas questionava os pilares do sistema democrático e do Estado de direito, como faz o capitão reformado e seu vice, o general da reserva Antonio Hamilton Mourão.

    A ascensão de Bolsonaro chamou a atenção do holandês Cas Mudde, professor de relações internacionais na Universidade da Georgia, nos EUA, e professor do Centro de Pesquisas sobre o Extremismo na Universidade de Oslo, na Noruega, além de colunista do jornal britânico The Guardian.

    Mudde se converteu recentemente numa referência para a imprensa europeia na hora de interpretar os partidos e os políticos xenófobos e ultranacionalistas que vêm crescendo no continente.

    Em 26 de setembro, ele publicou uma mensagem em sua conta no Twitter, dizendo: “Jair Bolsonaro é verdadeiramente similar a [Donald] Trump [presidente dos EUA], apesar de os contextos histórico e político serem diferentes”.

    Em seguida, o pesquisador publicou uma lista com seis frases de Bolsonaro — pregando o fechamento do Congresso (1999) e homenageando torturadores (2016), por exemplo —, com as respectivas reações da sociedade brasileira, seja dos órgãos judiciais ou políticos.

     

    Os ecos na imprensa estrangeira

    A proximidade do primeiro turno, em 7 de outubro, faz crescer o interesse de pesquisadores e da imprensa estrangeira pelos candidatos brasileiros. Isso acontece em todas as eleições presidenciais, a cada quatro anos. A diferença, desta vez, é o interesse pelo perfil de Bolsonaro especificamente, e as tentativas de entender o que ele representa para a democracia numa eleição tão atípica.

    No dia 20 de setembro, a revista The Economist — uma das mais influentes do mundo na área econômica, de perfil liberal — apresentou na capa um perfil de Bolsonaro. O candidato foi classificado como “a mais recente ameaça da América Latina”. Para a Economist, ele “seria um presidente desastroso”.

     

    A publicação considera que o capitão da reserva “seria um acréscimo particularmente desagradável” ao “desfile de populistas” formado por Donald Trump (EUA), Rodrigo Duterte (Filipinas), Matteo Salvini (Itália) e López Obrador (México). Para a Economist, esses quatro são populistas, mas apenas um, Obrador, é de esquerda.

    O site da emissora de TV americana Fox News, abertamente conservadora e alinhada editorialmente ao governo do presidente Trump, apresentou Bolsonaro, no dia 5 de agosto, como um “candidato de extrema direita”.

    A publicação americana, que se fez conhecida pelo apoio incondicional mesmo às políticas mais truculentas de Trump, chamou a atenção para o fato de Bolsonaro ter escolhido como vice um general da reserva que “fez comentários percebidos como um apoio a uma intervenção militar em tempos de corrupção disseminada” no Brasil.

    A Fox News também explica a seus espectadores e leitores que Bolsonaro “tornou-se alvo de intensas críticas por seus inúmeros comentários racistas, sexistas e homofóbicos ao longo dos anos”.

    As definições de ‘populismo de extrema direita’

     

    De acordo com todos os pesquisadores da área ouvidos pelo Nexo, o populismo é um fenômeno que se manifesta tanto à esquerda quanto à direita.

    “Ao contrário da América Latina, onde o populismo é normalmente associado à esquerda, na Europa é mais comum o populismo de direita”, disse o brasileiro Poggio.

    Ele destaca quatro causas para a manifestação desse fenômeno: a crise de representatividade, a emergência na sociedade de temas “pós-materialistas, como o casamento gay, o direito ao aborto e as questões raciais” e o poder das redes sociais, que permitem o contato entre indivíduos isolados que pensam da mesma forma e estabelecem uma comunicação direta com esses eleitores, sem filtros críticos de terceiros, como a imprensa.

    Para Poggio, a questão da imigração, presente no debate europeu e americano, é substituído no Brasil “pela exploração política do tema da segurança”, o que, para ele, aproxima Bolsonaro muito mais de um líder como Rodrigo Duterte, nas Filipinas, do que de um Matteo Salvini, na Itália, ou um Donald Trump, nos EUA.

    “Um dia, Bolsonaro foi de direita. Hoje é de extrema direita. Somos fundamentalistas. Se ser extrema direita e fundamentalista é não roubar dinheiro público, é elogio”

    Magno Malta

    senador pelo PR, em evento de filiação de Bolsonaro ao PSL em 7 de março de 2018

    Kaltwasser afirmou que “populistas de extrema direita comungam de três elementos ideológicos comuns: nativismo, autoritarismo e populismo”.

    O nativismo é “a ideia de que no Estado só podem viver os nativos da nação, é o nacionalismo xenófobo”. O autoritarismo é “a defesa de ideias autoritárias no interior da sociedade, como mão dura contra a delinquência e o respeito às Forças Armadas”. E o populismo é o que “divide a sociedade entre uma elite corrupta e um povo soberano, e vende a ideia simplista de que o sistema tem que respeitar a soberania popular, representada por essa figura populista”.

    A forma como cada político populista de extrema direita combina esses três elementos varia de um país para outro, disse Kaltwasser. Assim, o tema do “nativismo” ou da imigração podem ter menor importância relativa no discurso de Bolsonaro, mas o autoritarismo e o populismo, não.

    “O populista seria então aquele que estaria disposto a falar verdades que políticos tradicionais não diriam. Muito do apoio a Trump e também a Bolsonaro não tem a ver com políticas específicas, mas com o fato de que eles ‘falam as coisas como são’”

    A essas características, Rosenthal acrescenta “o descontentamento, o ressentimento e a contraposição ao que é chamado de politicamente correto, ao feminismo, ao multiculturalismo e à homossexualidade, como fatores que agridem o que seriam os valores tradicionais”.

    Para ele, Bolsonaro “captura esse descontentamento e usa em seu favor”. É semelhante, diz Rosenthal, ao que faz o presidente Vladimir Putin, na Rússia — o que demonstra como essa pauta pode ser usada tanto por um líder da extrema direita brasileira quanto por um ex-membro do serviço de inteligência do governo comunista da hoje extinta URSS.

    “Há ainda um aspecto ‘sociocultural’ do populismo de esquerda e de direita que tem a ver com o uso de uma linguagem considerada pouco polida, muitas vezes grosseira”, afirmou Poggio.

    “No populismo de direita, essa linguagem é usada em oposição ao politicamente correto. O populista seria então aquele que estaria disposto a falar 'verdades' que políticos tradicionais não diriam. Veja que muito do apoio a Trump e também a Bolsonaro não tem a ver com políticas específicas, mas com o fato de que 'eles falam as coisas como são’”, explicou.

    Se eleito, como seriam as conexões futuras de Bolsonaro

    O Nexo perguntou também a Rosenthal como ele vê a chance de cooperação internacional entre um presidente Bolsonaro e outros líderes da extrema direita populista, em termos práticos, ao redor do mundo.

    “Alguém como Bannon sempre usará a eleição de Bolsonaro como exemplo de triunfo do movimento de extrema direita que captou o espírito desta era. Ele será abraçado como mais um exemplo”, disse o pesquisador, ressalvando que “se isso vai levar a relações econômicas mais prósperas é toda uma outra história, pois as corporações não seguem ideologias”.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: