Ir direto ao conteúdo

Por que Julian Assange não é mais o chefe do WikiLeaks

Fundador da instituição voltada ao vazamento de dados sigilosos não deixa a embaixada do Equador em Londres desde 2012

 

No dia 26 de setembro de 2018, o site WikiLeaks, dedicado ao vazamento de dados sigilosos, anunciou que passará a ter um novo editor executivo. O posto deixa de ser ocupado pelo seu fundador, o australiano Julian Assange, que está desde 2012 isolado na embaixada do Equador em Londres, e passará a ser ocupado pelo jornalista islandês Kristinn Hrafnsson.

O motivo é o crescente isolamento de Assange, que teve acesso à internet cortado pelo governo equatoriano em março de 2018, após questionar publicamente acusações do governo britânico de que a Rússia teria envenenado um militar russo que trabalhara como agente infiltrado.

Assange se isolou naquele ano na embaixada do Equador em Londres para evitar uma extradição para a Suécia, onde deporia sobre uma acusação de estupro que pesava então sobre ele.

Ele alega temer que, caso fosse preso, poderia ser eventualmente extraditado para os Estados Unidos, onde responderia pela publicação de documentos secretos de agências de inteligência e poderia ser condenado à pena de morte.

O que é o WikiLeaks

Fundado em 2006, o WikiLeaks ganhou notoriedade internacional a partir de 2010, quando, em parceria com jornais, passou a publicar arquivos secretos do Exército americano sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão.

Ele também publicou naquele ano documentos do corpo diplomático e de agências de inteligência dos EUA, que revelavam a estrutura de espionagem a outros países e chefes de Estado e governo.

Acusação de estupro

Assange foi acusado por uma mulher de estuprá-la na Suécia em 2010. Ela afirma que o ativista a penetrou enquanto ambos dormiam próximos um do outro.

Apesar de ela ter reiteradamente recusado a proposta de fazer sexo sem camisinha, Assange teria penetrado-a sem o preservativo -algo que, pela lei sueca constitui violação de seu consentimento e estupro.

A Suprema Corte do país emitiu um mandado de prisão em 2012, e determinou que ele fosse extraditado para depor.

O ativista sempre negou as acusações, afirmando que na verdade ocorrera sexo consensual. Em 2017 a Promotoria sueca revogou o mandado de prisão afirmando que fora impossível notificá-lo oficialmente. A Promotoria disse, no entanto, que poderia retomar a investigação, caso o ativista “ficasse disponível”.

A polícia britânica afirma que Assange continua, no entanto, a responder pelo crime de não se entregar a uma Corte. Ele poderia ser, portanto, preso, caso deixasse a embaixada. O governo britânico não deixa claro se há ou não um pedido de extradição para os Estados Unidos, que poderia fazer com que essa prisão por um crime menor se transformasse em um caso de vulto.

Por que Assange não pode ser preso

A proteção na embaixada tem base na Convenção de Viena de 1961, que determina que “os locais da missão [diplomática] são invioláveis. Os agentes do Estado acreditado não poderão neles penetrar sem o consentimento do chefe da missão”.

O inciso seguinte também diz que “os meios de transporte da missão não poderão ser objeto de busca, requisição, embargo ou medida de execução”. É possível interpretar, portanto, que Assange poderia deixar o local dentro de um veículo da Embaixada.

Em fevereiro de 2016, o Grupo de Trabalho Sobre Detenções Arbitrárias das Nações Unidas usou esse ponto da Convenção de Viena como um dos argumentos para afirmar que considerava que o ativista vinha sendo mantido, na prática, em uma situação ilegal de detenção.

O grupo pediu aos governos do Reino Unido e da Suécia que libertassem imediatamente Assange, garantindo sua integridade física e liberdade de movimentos e que oferecessem compensações pelo tempo em que ficou ilegalmente detido. Ele não foi, no entanto, atendido.

Em comunicado, a Justiça britânica afirmou: “É claro para nós que Assange nunca foi ilegalmente detido. Na verdade, ele evita voluntariamente a prisão escolhendo permanecer na Embaixada do Equador. Uma acusação de estupro ainda pesa contra ele, assim como uma ordem de prisão

O primeiro corte de internet

Em meio à campanha presidencial americana, o WikiLeaks publicou, em outubro de 2016, cerca de 20 mil e-mails vazados de John Podesta, chefe de campanha da candidata democrata Hillary Clinton. Eles traziam informações constrangedoras, como comentários que fizera com executivos do mercado financeiro, e foram usados pela oposição a Clinton.

Em seguida, o governo do Equador restringiu a internet de uma parte do sistema de comunicações de sua embaixada no Reino Unido, cortando as comunicações de Assange.

Em um comunicado, o Ministério de Relações Exteriores equatoriano deu a entender que a medida fora uma resposta à publicação de informações sobre a candidata democrata. A internet foi, no entanto, restabelecida naquele ano

Novo corte de internet

A relação de Assange com o governo equatoriano voltou a se tensionar durante a campanha presidencial equatoriana de 2017.

O então candidato governista e atual presidente, Lenín Moreno, afirmava que, caso eleito, Assange poderia permanecer na embaixada, mas não sob os mesmos termos. Em mais de uma ocasião, disse que pediria discrição nas declarações de Assange, principalmente com países com os quais o Equador tivesse “boas relações”.

Em março de 2018, Assange tuitou questionamentos à acusação feita pelo governo britânico de que o governo russo teria envenenado um agente infiltrado e sua filha naquele mesmo mês.

Em seguida o governo equatoriano voltou a cortar a internet do ativista, afirmando que seu comportamento arriscava “as boas relações [que o Equador] mantém com o Reino Unido, com outros estados da União Europeia e com outras nações”.

O governo também afirmou que ele havia violado um compromisso escrito assinado em 2017, segundo o qual não interferiria com outros Estados.

Em julho de 2018, Moreno declarou que não apoiava os vazamentos capitaneados por Assange, mas que desejava garantir que sua vida não estivesse em perigo.

Moreno ressaltou que o governo anterior avaliara que Assange poderia enfrentar pena de morte, caso fosse extraditado para os Estados Unidos.

No tuíte em que anuncia a troca de comando, o site WikiLeaks credita a medida às restrições de comunicação, “com exceção das visitas de seus advogados”. O novo chefe do WikiLeaks, Kristinn Hrafnsson, afirmou: “Eu condeno o tratamento de Julian Assange que me leva a meu novo papel, mas eu agradeço a responsabilidade de garantir a continuação do importante trabalho, com base nos ideais do WikiLeaks.”

 

Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa Equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project. Saiba mais.

Mais recentes

Você ainda tem 2 conteúdos grátis neste mês.

Informação com clareza, equilíbrio e qualidade.
Apoie o jornalismo independente. Junte-se ao Nexo!