Como o voto ‘Bolsodoria’ atinge Alckmin em São Paulo

Pesquisas de intenção de voto identificaram fenômeno no qual eleitores manifestam voto no tucano na disputa estadual e no candidato do PSL à Presidência

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O candidato do PSDB à Presidência da República Geraldo Alckmin está estagnado nas pesquisas de intenção de voto. Em São Paulo, estado que governou por mais de dez anos e o PSDB, por mais de duas décadas, ele também vem enfrentando entraves.

Ao mesmo tempo, seu afilhado político João Doria, também tucano, disputa a liderança das pesquisas para o governo paulista, em empate técnico com Paulo Skaf (MDB).

O que o PSDB descobriu nessa reta final de campanha é que nem todos os eleitores de Doria pretendem votar em Alckmin à Presidência, mas sim em Jair Bolsonaro, candidato presidencial do PSL. Esse fenômeno ganhou entre os tucanos o nome de voto “Bolsodoria”.

Publicamente, o candidato tucano ao governo paulista já disse que não aceitaria um eventual apoio de Bolsonaro. Afirmou o seguinte em julho de 2018:

“Não [aceitaria apoio de Bolsonaro). Agradeço, mas declino. Não acredito em extremismos, mas em projeto central, liberal”

João Doria

candidato do PSDB ao governo de São Paulo

Um palanque dividido

Alckmin é o candidato com o maior tempo de exposição no rádio e na TV na disputa presidencial. Isso se deu por conta do amplo arco de alianças que o tucano construiu ao longo da pré-campanha.

Essas alianças proporcionam também uma maior possibilidade de palanques ao candidato, aumentando sua capilaridade pelo país. Em São Paulo, Alckmin tem dois palanques para subir: o de Doria e o do candidato do PSB ao governo, Márcio França, vice que assumiu o estado depois que Alckmin renunciou para disputar o Planalto.

O PSB não faz parte dos aliados que Alckmin conseguiu na campanha presidencial de 2018. Mas França, seu vice-governador, é um aliado tucano de longa data.

Os dois palanques não trouxeram benefícios eleitorais a Alckmin até o momento. No horário eleitoral, por exemplo, Doria e França evitam pedir votos para o presidenciável do PSDB.

Duas análises sobre esse fenômeno

Diante do cenário político em São Paulo, o Nexo entrevistou dois cientistas políticos para entender os motivos que provocaram o surgimento do voto “Bolsodoria”. São eles:

  • Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor de ciência política da FGV-SP
  • Paulo Baia, professor de ciência política da UFRJ

Em São Paulo existe o voto Bolsodoria? Por que isso acontece?

Marco Antonio Carvalho Teixeira Sim. O que une os dois [Bolsonaro e Doria] é um discurso vorazmente antipetista. Doria, inclusive, mantém desde quando tomou posse da prefeitura de São Paulo [em 2017]. Basta lembrar os vídeos contra o ex-presidente Lula que Doria gravava e divulgava nas redes sociais.

Isso guarda uma similaridade grande com o estilo que os bolsonoristas sempre desenvolveram ao fazer seus ataques contra o PT. Trata-se do principal ponto de aproximação entre os dois. Além, é claro, da visão um tanto quanto conservadora que ambos têm sobre a sociedade, do ponto de vista da ordem e da retórica.

Esses fatores acabam aproximando Doria muito mais de Bolsonaro do que da própria história do PSDB. Doria só recorre ao nome de Alckmin quando precisa desqualificar um adversário. Em um dos debates, Doria tentou colar a figura do presidente Michel Temer à de Paulo Skaf [candidato do MDB ao governo paulista].

Fora isso, não há ânimo na campanha de Doria para pedir votos e promover Alckmin. O comportamento é produto das feridas que ficaram abertas depois que Doria começou a ambicionar a vaga de candidato à Presidência [movimento ocorrido no início de 2018]. Isso estremeceu a relação entre os dois, como também a de Doria com o próprio PSDB.

Hoje, Doria apenas está como candidato a governador. Mas todos sabem que o que ele queria mesmo era ser candidato à Presidência, no lugar de Alckmin.

Paulo Baia Existe, sim [o voto “Bolsodoria”]. O que se percebe é que o sentimento anti-PT, em São Paulo, encontrou seu representante: Bolsonaro.

O movimento de Doria de se aproximar mais a Bolsonaro é em função de suas dificuldades na campanha estadual. Para o tucano crescer, e alcançar a liderança, ele acabou indo na direção do vento. Nesse sentido, não é Doria quem dá votos a Bolsonaro, mas é Bolsonaro quem dá votos a Doria.

Essa perspectiva do eleitorado paulista de eleger Bolsonaro como o representante do antipetismo esvaziou a campanha de Alckmin. Doria mostra não ter compromissos com Alckmin, mas só com ele próprio, mesmo tendo entrado na política pelas mãos do ex-governador. Nesse ponto, França tem sido muito mais fiel ao tucano.

O voto “Bolsodoria” acaba, portanto, beneficiando muito mais o candidato do PSDB ao governo de São Paulo. Doria se aproveita dessa onda antipetista para se manter em primeiro lugar em uma disputa que não tem sido tão fácil quanto ele imaginava.

Existem outros exemplos parecidos com esse na política brasileira? O que motiva esse tipo de comportamento?

Marco Antonio Carvalho Teixeira Há exemplos bastante recentes. Nas eleições de 2006, havia o fenômeno do voto “Lulécio”, em Minas Gerais [quando Lula era candidato à Presidência e Aécio Neves, do PSDB, ao governo mineiro]. 

Também em Minas Gerais houve o fenômeno do voto “Dilmasia” em 2010 [naquele ano, Dilma Rousseff era a candidata do PT à Presidência, e Antonio Anastasia, o candidato do PSDB ao governo mineiro].

São casamentos feitos por pura conveniência, em busca apenas de dividendos eleitorais. É um cálculo eleitoral. Até porque Doria conta com um problema grave: as pesquisas mostram que quase 50% dos eleitores paulistas o rejeitam. Ao mesmo tempo, Alckmin deixou o governo de São Paulo com um alto índice de reprovação.

Resta a Doria contornar essa situação de outras maneiras. Essa maneira foi pegar carona em outra candidatura presidencial [a de Bolsonaro].

Com isso, Doria se descola de Alckmin e transita em um campo mais independente. No caso, da candidatura de alguém que lidera as pesquisas [a nível nacional e estadual]. É um caminho bem pragmático, de alguém que mostra uma vocação não partidária.

Paulo Baia As eleições brasileiras sempre têm essas surpresas. Nas de 2018 mesmo, temos vários exemplos. No Piauí, por exemplo, tem o Ciro Nogueira (PP) apoiando a candidatura de Fernando Haddad à Presidência. Mas o PP faz parte da coligação de Alckmin.

O MDB tem candidatura própria à Presidência da República, com Henrique Meirelles. Mas em Alagoas, o filho de Renan Calheiros, que é candidato, está apoiando a candidatura de Haddad. Não a de Meirelles.

Tudo isso para dizer que eles só oferecem esse tipo de apoio porque facilita as eleições regionais nos estados. Não é Ciro Nogueira quem dará votos para Haddad, mas o contrário. O mesmo em Alagoas, com o filho de Renan [Calheiros]. É um cálculo de racionalidade político-eleitoral. Eles visam suas próprias eleições.

Para falar de eleições anteriores, vou citar a de 2002. Naquele ano, houve uma grande migração de apoio de vários candidatos a governador para Lula [que disputava a Presidência naquele ano]. Mesmo daqueles cujos partidos não faziam parte da coligação do PT.

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