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A voz e o legado de Angela Maria, diva da música brasileira

Cantora de origem pobre foi lançada pelos programas de calouros no rádio da década de 1950 e se tornou estrela

Temas
 

Angela Maria, uma das rainhas do rádio brasileiro na década de 1950, morreu no dia 29 de setembro de 2018, em São Paulo.

A artista, que estava internada há 34 dias no Hospital Sancta Maggiore, não resistiu a uma infecção generalizada e a uma parada cardíaca. Havia completado 89 anos em 13 de maio de 2018.

Continuava em atividade, gravando discos e fazendo shows. Seus últimos trabalhos gravados foram “Angela Maria e as canções de Roberto & Erasmo” (2017) e “Angela à vontade em voz e violão” (2015).

A extensão de sua voz era mais comum no canto lírico que na música popular, disse o jornalista Luiz Fernando Vianna em um episódio dedicado a Angela Maria do programa “Música é História”, da Rádio Batuta, de junho de 2018.  

Intérprete de sambas-canção, boleros, toadas e sambas – gêneros musicais populares da época –, foi não apenas uma das grandes divas da era do rádio como alcançou um público maior do que o círculo restrito das boates de Copacabana, onde o samba-canção imperava na década de 1950.

Esteve presente também desde os primórdios da televisão brasileira, com programas seus, e, no cinema, atuou em mais de uma dezena de filmes.

“Angela Maria foi uma cantora do povo. Cantava suas tristezas, abusava de um repertório com letras sobre amores mal resolvidos, chorava cantando e cantava chorando. Mas o que se sobrepunha a tudo isso era uma voz impecável. (...) Foi isso que a fez sobreviver a modismos, movimentos e estilos de ocasião. Ela não foi só uma cantora de seu tempo. Foi uma cantora de todos os tempos”

Artur Xexéo

Em análise publicada pelo jornal ‘O Globo’

Linha do tempo

O Nexo faz abaixo um resumo da trajetória da artista, em uma linha do tempo com momentos marcantes e sucessos de sua carreira. A síntese é acompanhada de uma playlist que apresenta 16 faixas interpretadas pela cantora.

 

1929 Nasceu no dia 13 de maio, com o nome de Abelim Maria da Cunha, em um distrito de Macaé, município no norte do estado do Rio de Janeiro. De família musical e religiosa, cantou no coro da igreja batista na qual seu pai era pastor. Não tinha autorização para tornar sua voz pública para além desse espaço. 

1947 Trabalhou como operária tecelã e inspetora de lâmpadas em uma fábrica da General Electric, mas, apesar da oposição da família, queria ser cantora de rádio. Por volta de 1947, aos 18 anos, começou a frequentar programas de calouros, onde jovens talentosos e desconhecidos tinham a oportunidade de se destacar. Foi nessa época que criou o nome artístico Angela Maria, tentativa de evitar ser descoberta pelos parentes. Apresentou-se no famoso programa de calouros de Ary Barroso, na Rádio Tupi e no “Trem da Alegria”, programa dirigido por Lamartine Babo, Iara Sales e Héber de Bôscoli, na Rádio Nacional, entre outros.

1948 Começou a cantar na casa de shows Dancing Avenida, onde foi “descoberta” pelos compositores Erasmo Silva e Jaime Moreira Filho. Foi apresentada ao então diretor da Rádio Mayrink Veiga, Gilberto Martins. Após um teste, iniciou carreira na emissora.

Fez tanto sucesso que obteve um acordo inédito: em uma época em que contratos de exclusividade prendiam cantores às emissoras de rádio, Angela Maria se tornaria “exclusiva” da Mayrink Veiga e da Rádio Nacional ao mesmo tempo, com programas semanais em ambas.

1951 Gravou pela RCA Victor os sambas “Sou feliz” e “Quando alguém vai embora”, sua estreia em disco. No ano seguinte, sua gravação do samba “Não tenho você” bateu recordes de venda, marcando o primeiro grande sucesso de sua carreira.

1953 Gravou “Nem eu”, de Dorival Caymmi, cujo sucesso abafou em um mês a versão do próprio autor, segundo conta Zuza Homem de Mello no livro “Copacabana - A trajetória do samba-canção (1929-1958)”. No final do mesmo ano, gravou “Vida de Bailarina”, um dos seus maiores êxitos.

1954 Foi eleita rainha do rádio, título importante em uma época em que o rádio era ainda o principal veículo de comunicação de massa. Foi também nesse ano que estourou com a canção “Recusa” bolero de Herivelto Martins.

1957 Depois de atuar em doze filmes, Angela Maria teve uma participação em “Rio, Zona Norte”, de Nelson Pereira dos

Santos, em 1957. Em entrevista a Zuza Homem de Mello para o livro “Copacabana”, o historiador e professor Marcos Napolitano afirma que ela “representava, para os realizadores do filme, o elo de uma cultura popular e nacional com o universo do bolero porque ela era, naquele momento, a mais popular de todas, inclusive por causa de sua origem operária. No filme, apesar de ser estrela do rádio, ela aparece sob uma chave positiva: é ela quem vai entender o protagonista favelado e, sem estrelismo, vai trazer a música dele para o rádio sem intermediários gananciosos. Um pouco disso aparece naquela cena, sobretudo no momento em que ela entra cantando com aquele vozeirão, enquanto a câmera permanece no rosto do compositor do samba, maravilhado”.

 

Anos 1960, 70 e 80  Assim como outros grandes artistas do rádio, Angela Maria enfrentou dificuldades a partir da década de 1960 com a emergência de novos movimentos e estéticas, como a Bossa Nova, a Jovem Guarda e o Tropicalismo. Diferente de alguns de seus contemporâneos, porém, sempre procurou se renovar gravando novos compositores. “Gente Humilde”, com melodia do violonista Garoto e letra de Vinícius de Moraes e Chico Buarque, é uma interpretação marcante dessa época – foi lançada no LP “Angela de Todos os Temas”, de 1970.

Crítica e influência

Em seu artigo para o jornal O Globo, o jornalista Artur Xexéo afirma que, apesar (ou por causa) de seu imenso sucesso junto ao público, Angela Maria foi menosprezada pela crítica de sua época. Mas, na década de 1970, seria “redescoberta”. 

“Para a crítica, ela sempre seria a intérprete de uma safra de compositores do ‘segundo time’”, escreveu Xexéo.

“Nos anos 70, assim como aconteceu com outro ídolo do rádio, Cauby Peixoto, Angela meio que foi redescoberta pela elite da MPB. Foi quando gravou ‘Gente humilde’ e participou da gravação que João Bosco fez de ‘Miss Suéter’, de Bosco e Aldir Blanc. A primeira entrou para a trilha sonora da novela ‘Véu de noiva’, de Janete Clair, e virou sucesso em todo o país. Na segunda, um público supostamente mais sofisticado foi apresentado aos trinados, agudos e ao estilo choroso, quase soluçante, que levava o auditório da Rádio Nacional à loucura. Com este aval, Angela estava liberada para gravar de Gonzaguinha a Luiz Melodia. E ela o fez. Sem abandonar suas raízes”.

De Gonzaguinha, gravou “Começaria Tudo Outra Vez” ao lado de Cauby Peixoto em 1982, definida por Luiz Fernando Vianna no programa da Rádio Batuta como uma síntese dos recomeços da artista em diferentes épocas.

Hoje mais conhecida do que a própria mestre, Elis Regina foi uma aprendiz e admiradora confessa de Angela Maria, cujo vibrato característico imitava no início da carreira. Elis regravou “Vida de Bailarina” em seu álbum “Elis”, de 1972.

Elis e Angela cantaram juntas na TV Globo também em 1972. Na ocasião, Elis Regina declarou ter começado “a se ligar em música através de rádio e de alguns poucos discos” que passavam por sua casa. Foi quando descobriu Angela Maria: para ela, a maior voz do Brasil.

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