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Este projeto digitaliza cartas apreendidas pela Marinha britânica

São cerca de 160 mil correspondências com relatos cotidianos e presentes que foram apreendidos durante três séculos

    Entre os séculos 17 e 19, enquanto países europeus iam em direção ao Novo Mundo formando colônias, fazendo guerras e estabelecendo trocas comerciais, milhares de correspondências se perderam junto com as embarcações que eram capturadas, sem nunca chegarem ao destino final. Um montante de 160 mil cartas de cerca de 35 mil navios de diferentes lugares do mundo foram arquivadas “sem querer” por mais de três séculos e agora vão ser digitalizadas.

    O projeto até agora custou € 9,3 milhões e foi financiado por uma parceria entre o Sindicato das Academias Alemãs de Ciências e Humanidades, o German Historical Institute, em Londres, e o Arquivo Nacional em Kew, distrito britânico onde se encontra o Jardim Botânico Real.

    Muitas das correspondências não haviam sequer sido abertas. A coleção já pesquisada conta com relatos pessoais, cartas de amor, diários, partituras, desenhos, poemas e um pacote de sementes de 200 anos da África do Sul.

    Quando alguma embarcação era capturada, os tripulantes iam até a Prize Court, na capital inglesa, um tribunal que lidava com a legalidade das capturas de mercadorias e embarcações no mar, e apresentavam a correspondência do navio conquistado para provar que se tratava de um navio “inimigo”.  De lá, as cartas, ainda nas caixas e bolsas do correio, eram transportadas para Torre de Londres, onde ficaram até 1850, sendo depois transferida para o Public Record Office na cidade de Londres, o local que guardava os arquivos nacionais do Reino Unido de 1838 até 2003. Lá permaneceram por vinte anos, armazenadas em cerca de 4.000 caixas.

    Foram registrados 19 idiomas diferentes, com relatos da população comum, de comerciantes e marinheiros, durante várias guerras - incluindo as revoluções americana e francesa, e dos conflitos napoleônicos.

    O que continham as caixas

    • Um padre de Lima, a capital do Peru, enviou para sua mãe na Inglaterra uma fita de renda usada em sua cerimônia de ordenação
    • Entre os itens do navio francês La Robushe está o registro de 504 homens, mulheres e crianças vendidos como escravos em Saint-Domingue, onde hoje é o Haiti, em 1756. Cada comprador é listado, juntamente com o número de escravos comprados e o valor
    • Elizabeth Sprigs, uma aprendiz britânica, escreve de Maryland (EUA) a seu pai na Inglaterra em 1756, queixando-se de suas condições de trabalho e pedindo-lhe que envie roupas

    O que dizem os especialistas

    Em entrevista ao jornal The Guardian, Randolph Cock, especialista do National Archives em Kew, um dos maiores desafios é o fato de muitas delas estarem misturadas - anos e navio diferentes.  Cock é responsável pelo trabalho minucioso de classificar as cartas antes da digitalização do material. 

    “Em algum momento talvez as prateleiras em que elas estavam guardadas devem ter caído. Foi tudo colocado em um grande saco e levado à Torre de Londres. De lá, foram colocadas em caixas e aí levadas para o Public Record Office. Meu trabalho é colocar de volta em ordem e encontrar qual carta veio de qual navio”, afirmou. Ele estima que serão necessários pelo menos mais 11 anos para conseguir finalizar a tarefa.

    Dagmar Freist, da Universidade de Oldenburg, é a diretora do projeto de digitalização e conta ao jornal britânico que conseguiu financiamento da Academia de Ciências e Humanidades de Göttingen, na Alemanha, para digitalizar a coleção para acesso online gratuito. Ela descreveu o conjunto como um “arquivo desarquivado”, porque nada foi de fato arquivado de forma correta, e nada foi descartado. “Este arquivo é completamente fruto do acaso, então temos documentos que não teriam sobrevivido, e isso nos permite ter uma nova perspectiva sobre as relações globais quando os países europeus estavam começando a construir colônias”, conta.

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