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A aliança entre Bolsonaro e Paulo Guedes. E seus ruídos

Candidato à Presidência prometeu autonomia total a seu ‘Posto Ipiranga’. Mas declarações do economista garantidor do viés liberal do capitão da reserva já causam desencontros

     

    Na mesma semana em que atingiu 28% nas pesquisas presidenciais, Jair Bolsonaro teve de desmentir rumores de desentendimentos com seu principal assessor econômico, Paulo Guedes.

    Internado no Hospital Albert Einstein, onde se recupera da facada que levou durante um ato de campanha no dia 6 de setembro, o candidato à Presidência da República pelo PSL reiterou ao jornal Folha de S.Paulo na sexta-feira (21): “Paulo segue firme”.

    Os ruídos entre candidato e assessor econômico começaram depois que Guedes anunciou, em palestra fechada a investidores realizada na terça-feira (18) em São Paulo, alguns planos de mudança no sistema tributário brasileiro caso o capitão da reserva seja eleito.

    Segundo relato à Folha a partir de conversas com participantes da palestra, Guedes sugeriu criar um imposto nos moldes da CPMF — contribuição que incidia sobre movimentações financeiras que vigorou no Brasil entre 1997 e 2007 — e unificar as alíquotas do Imposto de Renda, entre outras medidas.

    Diante da repercussão negativa das propostas, a campanha de Bolsonaro entrou em cena para negar que haja qualquer intenção de criar novos tributos no Brasil. Bolsonaro também minimizou o incidente e disse que faltou experiência política ao assessor que, em “uma palestra de uma hora, fala uma coisa por segundos e a imprensa cai de porrada”. A partir dali o economista saiu de cena e passou a cancelar participações em eventos públicos.

    A relação entre Bolsonaro e Paulo Guedes tem peculiaridades. O candidato já disse publicamente, em mais de uma oportunidade, que não entende de economia. E que seu desconhecimento não é um problema desde que ele esteja cercado de pessoas capacitadas. No caso da economia, as decisões seriam tomadas em conjunto com Guedes.

    O candidato do PSL até incorporou o apelido dado ao economista: “Posto Ipiranga”, uma referência ao comercial da empresa de combustíveis em que um ator diz que tudo pode ser resolvido ali. Bolsonaro avisou que, antes de tomar qualquer decisão que cabe a um presidente, consultará seu “Posto Ipiranga”.

    Um economista da escola de Chicago

    Paulo Guedes é doutor em economia pela Universidade de Chicago, um dos mais importantes centros do pensamento liberal econômico do mundo, e trabalha no mercado financeiro.

    Apesar de nunca ter ocupado cargos de destaque no setor público, Guedes é a aposta de Bolsonaro para conseguir apoio, ou evitar repúdio, de investidores e empresários.

    Classificado por adversários como “ultraliberal”, Guedes é o responsável por tentar convencer investidores que, se eleito, o candidato do PSL não os desagradará. Foi ele o principal responsável pelo programa de governo do capitão da reserva apresentado ao Tribunal Superior Eleitoral.

    O texto prevê a privatização de empresas públicas e diminuição da participação do Estado na economia. Bolsonaro e Guedes querem vender estatais que, segundo os cálculos da candidatura, poderiam reduzir a dívida pública em até 20%. A dívida líquida do governo, atualmente, é de R$ 3,5 trilhões.

    Uma proposta que agradou ao mercado foi a de tentar zerar o deficit primário do governo em apenas um ano e obter superavit em 2020. O resultado primário é a diferença entre o que o país arrecada e o que gasta, sem levar em conta o pagamento dos juros da dívida.

    O economista e o candidato também propõem a criação de uma segunda carteira de trabalho. Com a carteira “verde e amarela”, o trabalhador, voluntariamente, abre mão de direitos da CLT (Consolidação da Lei Trabalhista) para conseguir um emprego. A diminuição de regras é bem vista por empregadores, mas criticada por organizações de trabalhadores.

    Um candidato recém convertido

    Paulo Guedes é um economista que defende ideias liberais —  ninguém no mercado duvida disso. Os questionamentos que surgem se referem à autonomia prometida por Bolsonaro. E também se o candidato do PSL está de fato comprometido com as reformas prometidas na campanha.

    Como deputado federal, Bolsonaro votou contra as principais tentativas de reforma da Previdência e já defendeu que os militares fiquem de fora na hora de mudar as regras das aposentadorias.

    Ele também votou contra o fim da desoneração da folha de pagamento das empresas, medida do ajuste fiscal do governo Dilma Rousseff que tentava corrigir um incentivo que ela mesma tinha criado.

    Na campanha de 2018, Bolsonaro se apresenta como um candidato liberal na economia. Afirma querer tirar o peso do estado das costas do cidadão. Disse, em mais de uma ocasião, que o trabalhador precisaria escolher entre ter menos direitos e ter emprego ou ter todos direitos e não ter emprego.

    Os efeitos dos ruídos em duas análises políticas

    Guedes tem propostas que agradam ao mercado, mas é Bolsonaro o candidato a presidente. E é por isso que o desmentido à proposta de um novo imposto gerou apreensão.

    Um ministro da Fazenda, por mais poderoso que seja, depende do presidente da República, que é eleito, tem mandato garantido pela Constituição e prerrogativa de nomear e demitir, a qualquer momento, seu primeiro escalão.

    Diante dos ruídos na relação entre Bolsonaro e Guedes, o Nexo conversou com dois cientistas políticos a fim de mensurar quais os efeitos que eles podem ter no desempenho da candidatura, assim como num eventual governo. São eles:

    • Marco Antônio Carvalho Teixeira, professor do departamento de gestão pública da FGV-SP
    • Rafael Cortez, professor universitário e analista político na Tendências Consultoria

    Qual o papel do Paulo Guedes na campanha do Bolsonaro?

    Marco Antônio Carvalho Teixeira Paulo Guedes foi a escolha que o Bolsonaro teve. Ele não encontrou ninguém com formação econômica e alguma interlocução social que topasse trabalhar com ele. Aí começou a história de que qualquer coisa é com o Paulo Guedes, virou o “Posto Ipiranga”. A importância dele foi conectar o Bolsonaro com o debate econômico e depois com o mercado.

    Por outro lado, um economista, se for falar do quadro econômico do país, vai fazer o candidato perder voto. O que o Paulo Guedes falou [sobre os impostos] agrada ao mercado. É uma tentativa de reduzir rapidamente o deficit fiscal. Mas falar isso também tem um impacto eleitoral que assustou o Bolsonaro. Paulo Guedes cometeu um sincericídio.

    Rafael Cortez Paulo Guedes serve para conferir capital reputacional a Bolsonaro, que nunca teve um histórico associado ao debate econômico. A candidatura também não dá papel central ao discurso econômico para mobilizar o eleitorado. Serve para minimizar a percepção de risco dos agentes econômicos.

    Por outro lado, a candidatura também representa para Paulo Guedes uma tentativa de emergência, de ter um papel de maior protagonismo no debate público. O economista não tem um histórico de participação em grandes momentos do debate econômico nacional. Então a candidatura Bolsonaro é uma oportunidade para nomes com algum lastro [como Guedes], mas que não faziam parte da elite [intelectual da economia], que não tiveram papel importante nos últimos 30 anos.

    Quão viável é essa aliança em que os lados têm poderes desiguais?

    Marco Antônio Carvalho Teixeira Essa promessa de autonomia total é jogar para a plateia, porque o Bolsonaro é uma incógnita muito grande. Incógnita tanto para a democracia, com a retórica, quanto para o mercado, que não sabe qual é a dele. Então quando ele sinaliza que vai dar autonomia para alguém que foi aprovado pelo mercado, ele acalma o mercado. Mas, ao mesmo tempo, não é o mercado que ganha eleição.

    Essa possibilidade de autonomia total não existe, a questão econômica não é só técnica, é também política. Chega um determinado momento em que se tem que fazer escolhas, e elas cabem ao presidente. E isso vale para qualquer presidente. A sociedade é formada por um conjunto de forças que se movem, e o presidente tem que se equilibrar nessas forças.

    Rafael Cortez A celeuma sobre a potencial CPMF já mostrou que a responsabilidade, ao fim e ao cabo, é do presidente. A ideia de que pode haver a implementação de políticas com as quais o presidente não concorda é ilusória. Conflitos são naturais entre a Presidência e os diversos ministros, não é esse o problema. Mas essa delegação que o próprio Bolsonaro utiliza, inclusive para minimizar as suas fraquezas como candidato, é meramente discursiva.

    Isso vai na direção contrária a esse voluntarismo presente nas análises do mercado, que em geral não enxergam um risco tão significativo dessa relação entre Bolsonaro e Paulo Guedes. Em um cenário de existência de conflitos constantes, as chances de uma ruptura são grandes, quase sempre a partir da escolha do presidente. É pouco provável que alguma agenda se sobreponha a isso.

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