Por que Marina caiu tanto em relação a outras eleições

Terceira colocada nas disputas de 2010 e 2014, candidata pela Rede à Presidência registra gradativa perda de apoio em 2018

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Marina Silva está em sua terceira eleição presidencial. Depois de disputar um lugar no segundo turno nas campanhas de 2010 e 2014, sendo que na última campanha quase chegou lá, a ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente registra hoje apenas 5% de intenção de voto, segundo pesquisa Ibope divulgada na segunda-feira (24).

A trajetória de Marina é de queda. A líder da Rede chegou a figurar em segundo lugar em agosto, nos cenários sem Luiz Inácio Lula da Silva, atrás apenas de Jair Bolsonaro, candidato do PSL. A intenção de voto do ex-presidente, de quem Marina foi ministra, mas depois se afastou, migrava na época em parte para ela.

Depois que Lula foi barrado pela Lei da Ficha Limpa e o PT oficializou o nome de Fernando Haddad como candidato, a intenção de voto em Marina só recuou. Foi ultrapassada não só por Haddad, mas também por Ciro Gomes (PDT) e por Geraldo Alckmin (PSDB).

Numericamente, a candidata da Rede está mais próxima atualmente de João Amoêdo, candidato do Novo que vem logo atrás, do que de Alckmin, segundo os dados do Ibope.

A trajetória de Marina

 

Da surpresa de 2010 à nova polarização

Marina está na vida pública desde a década de 1980. Filiada desde então ao PT, ela foi deputada estadual, senadora e ministra do Meio Ambiente por seis anos no governo Lula (2003-2010).

As divergências com o governo e com o partido a fizeram sair do PT em 2009. Começam aí as tentativas da ex-senadora, ex-ministra e ativista ambiental de chegar ao Palácio do Planalto.

Marina e as eleições

Em 2010

Filiada ao PV, Marina se apresentou como uma “terceira via”, tentando romper a polarização entre PT e PSDB. A campanha não saiu vitoriosa, mas rendeu a ela um inesperado terceiro lugar, considerando o pouco dinheiro e o pouco tempo de TV que tinha à época. A então candidata recebeu 19,6 milhões de votos (19,3% dos votos válidos). No segundo turno, Marina ficou neutra, sem declarar apoio aos adversários José Serra (PSDB) ou Dilma Rousseff (PT), que foi eleita.

Em 2014

Filiada ao PSB, Marina assumiu a chapa após a morte do ex-governador pernambucano Eduardo Campos. Na eleição mais acirrada da história recente, a ex-ministra ficou novamente em terceiro lugar, com 22,1 milhões de votos (21%). Dessa vez, ficou por muito tempo em segundo lugar, sendo ultrapassada no final por Aécio Neves (PSDB), a quem apoiou no segundo turno contra Dilma. A petista foi reeleita.

Em 2018

Marina concorre filiada ao partido que criou, a Rede Sustentabilidade. A candidata enfrenta problemas como a falta de estrutura partidária e o pouco tempo de rádio e TV. Na cena partidária, a polarização, até então entre PT e PSDB, agora é protagonizada por Haddad e Bolsonaro.

O posicionamento em fatos centrais

Da eleição em que Marina quase foi ao segundo turno, em 2014, até esta, em que está muito atrás nas pesquisas, o Brasil passou por uma forte crise política e econômica.

Dilma sofreu impeachment em 2016, acusada de manobras fiscais. Marina apoiou a saída da petista. Lula foi preso pela Operação Lava Jato. Sobre o ex-presidente, a ex-senadora sempre declarou que ninguém está acima da lei.

Escândalos atingiram o governo do vice que ascendeu ao poder, Michel Temer, assim como seu principal fiador político, Aécio, a quem Marina tinha apoiado em 2014. Ela nunca deu aval ao governo. E foi crítica ao tucano desde que ele foi denunciado no caso JBS.

Duas análises sobre o desempenho de Marina

Ao Nexo, dois cientistas políticos avaliam a trajetória da candidata da Rede de 2010 para cá e seu desempenho na campanha eleitoral de 2019. São eles:

  • Alcindo Gonçalves, professor da Unisantos (Universidade Católica de Santos)
  • Marcia Ribeiro Dias, professora da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro)

O que explica a queda verificada pelos institutos de pesquisa?

Alcindo Gonçalves Se a gente analisa o histórico, o desempenho de Marina em 2010 a credenciou como uma líder política importante no cenário brasileiro. Mas algumas questões a atrapalharam desde então.

Primeiro, ela é muito ausente na política nacional, aparecendo mais somente na proximidade da eleição. Alguém com cabedal de votos tão alto tinha que estar mais presente no debate e nas grandes questões. Ao meu ver ela se omitiu muito. E isso tem consequências.

Mesmo após a criação da Rede [em 2015], ela não se fortaleceu e seu partido não cresceu muito. A posição política dela é ambígua. Ela tem uma história ligada ao PT, mas seu discurso e suas propostas na área econômica são centristas, para não dizer liberais.

Então Marina passou a disputar uma área bastante congestionada, esse dito “centro”. Ela deixou a esquerda livre para o Haddad, óbvio, e para o Ciro. E optou por um caminho no qual ela concorre com vários outros, como Alckmin, João Amoêdo e Henrique Meirelles [candidato do MDB].

Marcia Ribeiro Dias Marina não fez absolutamente nada que explicasse essa queda, não há fatos que a fizessem perder votos. O fenômeno Marina se explica pela conjuntura.

Em 2010 ela se apresentou como uma terceira via, numa tentativa de quebrar a polarização entre PT e PSDB. Ela foi relativamente bem-sucedida nessa tarefa. Acho até que ela tem uma função histórica por, de certa maneira, lançar um questionamento à validade dessa polarização.

Em 2014 ela se apresentou como uma possibilidade concreta. Mas aí apareceu uma contradição nesse processo porque ela era uma candidata, aparentemente, de trajetória de esquerda, a quem se pode atribuir um perfil de centro-esquerda. Quando ela começou a confrontar as políticas do PT e o próprio PT, Marina se afastou dessa esquerda e se colocou ideologicamente num “centro” — para alguns até centro-direita. O apoio a Aécio Neves no segundo turno [de 2014] foi crucial para o abandono de parte do eleitorado dela, muito dele de pessoas desiludidas com o PT.

Em 2018 ela tentou se aproximar mais do centro novamente. O centro, que é de difícil classificação, é “coisa nenhuma”, algo sem vocação majoritária. Esse é o ponto. Marina se tornou um “não ser” e isso não se firma numa campanha tão polarizada. Essa é uma campanha do “ser”, uma campanha de marcar posição.

Isso deu a ela uma personalidade política muito indefinida e isso não gerou confiabilidade. Marina tem um eleitorado muito indefinido e uma campanha com questões ideológicas muito candentes. Esta não é uma campanha para Marina.

Num cenário de crise política, Bolsonaro cresceu e Marina, que se coloca como terceira via, não. Por quê?

Alcindo Gonçalves Bolsonaro, sem fazer qualquer juízo de valor sobre ele, é o produto certo para o atual momento. Momento de desencanto, indignação, de protesto. Ele encarna tudo isso. A conjuntura o favorece.

Poucos anos atrás, se alguém dissesse que o Bolsonaro seria candidato e lideraria a disputa, seria considerado maluco. A figura da Marina não é a imagem para esse momento atual. Marina é mais suave. Não é um defeito, mas é uma característica que esbarra no atual cenário, de muita polarização.

Na política existe aquela figura do “loser”, aquele que na política americana é definido como alguém que perde sistematicamente. Claro que não se pode afirmar, já agora, que será esse o destino de Marina. Mas ao meu ver ela perdeu oportunidades preciosas nas eleições, principalmente em 2014.

Como ela vai se reconstruir sem um partido forte, sem presença efetiva, sem apresentar caminhos? Nem mesmo na questão ambiental, tema tão valioso, ela tem conseguido capitalizar.

Marcia Ribeiro Dias O eleitorado conquistado por Bolsonaro se deve ao desgaste da política e dos políticos. Algo que é fruto de um processo de desqualificação da política que vem sendo feito nos últimos anos.

Ficou uma imagem de que a política só é feita por corruptos e, de repente, vem uma proposta de “limpar essa sujeira”. A proposta de Bolsonaro é autoritária, de quem acredita que a democracia não deu certo. Ele não fala isso diretamente, mas seus eleitores o percebem como alguém de mão firme para “botar ordem na casa”.

A questão da Marina é que ela não fez absolutamente nada. Ela não se recuperou do desgaste de 2014. Parte do eleitorado começou a achar que ela tinha de fato fragilidades e que não tinha perfil para ser presidente. E o cenário de 2018 é muito diferente. Marina ainda fica muito em cima do muro em uma situação em que o muro não cabe. Talvez numa outra eleição, passado esse cenário todo de crise, as pessoas queiram mais moderação.

Marina não é vítima da maldade dos adversários. Não existe isso na política. Eleitor não é bobo. Ninguém tem sido mais atacado do que o PT e o partido consegue ainda ser majoritário. Marina não conseguiu construir um discurso nem fidelizar um eleitorado. Fazer isso é mérito do candidato e do partido. Não dá para dizer que a culpa é do outro.

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