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A crescente mobilização civil contra Bolsonaro

Ações vindas de setores diversos da sociedade civil pregam o não voto ao candidato do PSL em razão de manifestações consideradas antidemocráticas e preconceituosas. Seus eleitores reagem

     

    Jair Bolsonaro disputa pela primeira vez a Presidência da República. Para sua campanha de estreia ao Palácio do Planalto, o candidato do PSL apresenta ao eleitor a imagem construída ao longo dos 27 anos em que atuou como deputado federal.

    Capitão da reserva, Bolsonaro elogia a ditadura militar e torturadores do período. Fala em adotar o estilo disciplinar do Exército num eventual governo, incluindo o modelo de educação. Faz apologia ao uso de armas e promete aumentar o uso da força policial para combater a violência.

    No campo dos costumes, é conservador. Não raro, ao falar sobre a participação das mulheres no mercado de trabalho, sobre homossexualidade e sobre outras minorias (como indígenas e quilombolas), é apontado como machista, racista e homofóbico. No campo econômico, adotou um discurso liberalizante.

    A ascensão diante da crise política

    Bolsonaro está atualmente isolado na liderança das pesquisas de intenção de voto. O desempenho é explicado por cientistas políticos como resultado do agravamento da crise política do país.

    As sucessivas investigações de corrupção atingiram lideranças dos partidos mais tradicionais, entre eles PT, PSDB e MDB. Os escândalos fizeram crescer em parte do eleitorado um sentimento de rejeição à política.

    O PT, partido que desde 2015 é alvo de protestos de rua e que no ano seguinte foi tirado do Palácio do Planalto num processo de impeachment após 13 anos de governo, foi o primeiro a ser atingido. Depois, os escândalos tragaram MDB e PSDB.

    Bolsonaro, por sua vez, beneficiou-se de dois sentimentos: um contrário à política tradicional; outro contrário especificamente ao PT, que, apesar de todo desgaste, manteve o apoio popular a partir da figura de Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo preso pela Operação Lava Jato desde abril, o ex-presidente liderava todas as pesquisas.

    Bolsonaro vinha atrás. E passava à frente quando Lula era excluído dos cenários pesquisados. Em razão de sua condição penal, era iminente sua saída da disputa em razão da Lei da Ficha Limpa.

    O atentado a faca. E a troca da candidatura do PT

     

    Bolsonaro cresceu nas pesquisas, passando de uma média de 20% das intenções de voto nos cenários sem Lula, em agosto, para 28%, segundo o Ibope divulgado em 24 de setembro.

    Nesse período aconteceram dois fatos relevantes. Em 1º de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral negou registro da candidatura de Lula em razão da Lei da Ficha Limpa. Dez dias depois, ele foi substituído por Fernando Haddad, que cresceu e agora está na segunda colocação.

    Em 6 de setembro, Bolsonaro sofreu um atentado a faca em Juiz de Fora, interior de Minas. Desde então, ele está hospitalizado. A partir daí, o candidato do PSL aumentou seu índice de intenção de voto, seu índice de conhecimento entre o eleitorado e também seu índice de rejeição.

    As declarações públicas de sua campanha também voltaram a chamar atenção. Seu vice, general da reserva Hamilton Mourão, falou da possibilidade de um “autogolpe” caso a chapa seja eleita e haja um cenário de “anarquia”. Também propôs mudar a Constituição apenas com “notáveis”, sem a participação de representantes eleitos.

    Bolsonaro, por sua vez, gravou um vídeo no qual colocou em xeque todo o processo de votação do Brasil, dizendo que as urnas eletrônicas poderão ser fraudadas em outubro a fim de evitar sua vitória.

    Os ataques no horário eleitoral

    Na medida em que se consolidou na liderança, Bolsonaro atraiu mais ataques de adversários. As críticas partem mais diretamente de Geraldo Alckmin (PSDB), que procura explorar as declarações de Bolsonaro e a viabilidade de suas propostas na tentativa de recuperar o apoio perdido. O candidato tucano está estagnado nas pesquisas e viu boa parte do tradicional eleitor tucano migrar para Bolsonaro nestas eleições.

    Nas peças publicitárias e em declarações, Alckmin associa Bolsonaro a uma figura despreparada e extremista que, a exemplo do PT, aprofundará os problemas do país se for eleito.

    Em 20 de setembro, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) divulgou carta com um apelo por uma união dos partidos de centro contra Bolsonaro e Haddad, apostando numa tese de dois extremos. Essa tese é incorporada por parte dos analistas políticos e rechaçada por outra parte, que não vê uma equivalência entre o capitão da reserva e a candidatura do PT.

    A mobilização civil contra Bolsonaro

    Em paralelo à reação partidária, vêm se somando às manifestações contrárias ao candidato do PSL ações organizadas por representantes da sociedade civil. As iniciativas não expõem preferência por outros candidatos nem incluem Haddad como outro extremo a ser combatido.

    No começo de setembro, surgiu nas redes sociais o grupo “Mulheres contra o Bolsonaro”. Com o mote “ele não”, a campanha reuniu em pouco tempo quase 3 milhões de adesões no Facebook e vem conquistando apoio entre artistas internacionais.

    Nos dias 19 e 20 de setembro, foi a vez de torcidas organizadas do Corinthians e do Santos divulgarem notas críticas às propostas de Bolsonaro e a seu discurso de apoio à ditadura. No sábado (22), centrais sindicais também manifestaram repúdio.

    No domingo (23), foi tornado público manifesto assinado por 373 pessoas cujos autores classificam o capitão da reserva como uma ameaça ao “patrimônio civilizatório”.

    Intitulado “Pela Democracia, pelo Brasil”, o manifesto é apoiado por cientistas políticos, advogados, historiadores, escritores, atletas, empresários, como Guilherme Leal, da Natura, ativistas, como Celso Athayde, e artistas, como Mano Brown, do Racionais MC’s, os cantores Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil e as atrizes Fernanda Torres e Leandra Leal.

    O texto se contrapõe, principalmente, às manifestações de Bolsonaro, que, segundo o grupo, vão em sentido contrário a valores democráticos.

    “É preciso dizer, mais que uma escolha política, a candidatura de Jair Bolsonaro representa uma ameaça franca ao nosso patrimônio civilizatório primordial. É preciso recusar sua normalização, e somar forças na defesa da liberdade, da tolerância e do destino coletivo entre nós”

    Democracia Sim

    em manifesto publicado no domingo (23)

    O manifesto menciona ideias do candidato que “flertam” com um “passado autoritário”.

    “Conhecemos amplamente os resultados de processos históricos assim. Tivemos em Jânio [Quadros] e [Fernando] Collor outros pretensos heróis da pátria, aventureiros eleitos como supostos redentores da ética e da limpeza política, para nos levar ao desastre”

    Democracia Sim

    em manifesto publicado no domingo (23)

    Na noite de segunda-feira (24), o número de signatários do documento — que está aberto a receber novas adesões — passava de 180 mil, segundo os organizadores do manifesto.

    As respostas do candidato e seus aliados

    Apoiadores do candidato reagiram à repercussão do manifesto, sugerindo que os artistas que assinam o texto temem perder apoio federal, como a Lei Rouanet.

    Com uma militância bastante fiel a Bolsonaro nas redes sociais, em pouco tempo a hashtag “RouanetNão” tornou-se um dos assuntos mais comentados na segunda-feira.

    A assessoria do candidato não se pronunciou a respeito. Em outras ocasiões, a campanha de Bolsonaro e o próprio candidato refutaram as críticas e destacaram, em fotos e vídeos, o apoio recebido de artistas, atletas e empresários. Um de seus filhos, o candidato ao Senado pelo Rio, Flávio Bolsonaro (PSL), atribui à imprensa as reações negativas dirigidas ao pai.

    “Quero fazer uma crítica à grande mídia: parem de insistir nesses rótulos contra ele. Fica insistindo que ele é homofóbico, racista, que não gosta de mulher. Toma vergonha na cara. Ele não é nada disso”

    Flavio Bolsonaro

    candidato ao Senado pelo PSL e filho de Jair Bolsonaro, em mensagem publicada no Twitter em 7 de setembro

    A partir de terça-feira (25), depois de discussões internas na campanha sobre lançar ou não um manifesto com compromissos com a democracia, Bolsonaro começou a divulgar, por meio de “pílulas” nas redes sociais, declarações em que rebate críticas e busca amenizar a imagem de extremista. Nas primeiras mensagens, o candidato criticou a “divisão da sociedade”.

    Na comparação entre a pesquisa Ibope divulgada em 18 de setembro e a pesquisa do mesmo instituto divulgada nesta segunda-feira (24), o candidato do PSL parou de crescer. Nas projeções de segundo turno, agora perde para quase todos os adversários, inclusive para Haddad.

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