Qual a situação da diabetes no Brasil. E o custo da insulina

Gastos com o tratamento da doença que atinge 8,9% da população mundial podem chegar a R$ 422 bilhões em 20 anos

A Organização Mundial da Saúde (OMS) acredita que 1 em cada 11 pessoas no mundo tem diabetes. Esse número só cresce. Em 2014, a estatística apontava para 422 milhões de diabéticos, um salto em relação aos 108 milhões de 1980. Só no Brasil, entre 2006 e 2016, segundo o Ministério da Saúde, houve um aumento de 60% no diagnóstico da doença.

Segundo estudo divulgado em março de 2018 pela universidade britânica King’s College, em parceria com a Universidade de Gottingen, da Alemanha, os custos da diabetes no Brasil vão dobrar até 2030, chegando a US$ 97 bilhões, em estimativas mais conservadoras, ou até US$ 123 bilhões (R$ 406 bilhões), em um pior cenário.

“O cenário da diabetes no Brasil hoje é desafiador. O diagnóstico passou de 5,5% da população, em 2006, para 8,9% em 2016”, explica  Karla Melo, diretora da Sociedade Brasileira de Diabetes ouvida pelo Nexo. “O desafio não é só pelo número grande de pessoas com esse diagnóstico, mas também pela falta de controle glicêmico dos pacientes”, disse. A endocrinologista do hospital Sírio Libanês de São Paulo, Denise Iezzi, também entrevistada pelo Nexo, afirmou: “50% dos diabéticos no Brasil desconhecem o diagnóstico. Nós temos um número muito alto de subdiagnóstico e com isso não se tem uma estatística correta de quantos são os diabéticos no país”.

Tipos de diabetes

A diabetes é uma doença metabólica. O portador dela não consegue degradar moléculas de glicose corretamente ou em velocidade suficiente. A glicose é um tipo de açúcar básico que ingerimos na alimentação, e é essencial para a vida.

A alta taxa de glicose circulante no sangue, entretanto, pode provocar danos em órgãos como os rins, além de poder levar à amputação de membros inferiores e causar cegueira. Pacientes com hiperglicemia são mais suscetíveis a ataques cardíacos ou derrames.

A diabetes se divide em duas categorias, os tipos 1 e 2. A primeira é uma forma de diabetes relacionada ao sistema autoimune, em geral identificada na infância ou adolescência. As células responsáveis pela defesa do organismo acabam atacando outras, capazes de sintetizar insulina, por causa de um defeito no sistema imunológico. Os pacientes diagnosticados com essa variação são chamados de insulino-dependentes, pois precisam fazer uma reposição da insulina, além de se tratarem com outros medicamentos, adotarem alimentação balanceada e realizarem atividade física.

Na diabetes do tipo 2, a administração de insulina é necessária apenas em alguns casos. A maior incidência de diabetes se concentra nesse grupo, que é quando o organismo não produz insulina suficiente para controlar a taxa de açúcar no sangue, ou não é capaz de usar adequadamente a que produz. “Um índice de 80-90% dos pacientes obesos são diabéticos tipo 2. Essa categoria representa 90% dos diagnósticos de diabetes no país, contra 10% do tipo 1”, diz a endocrinologista Denise Iezzi.

Para ela, o aumento do número de diabéticos no mundo apontado pelo King’s College está estritamente ligado a um outro crescimento, o da obesidade. “Em 2025, o Brasil vai ser o quarto país em obesidade do mundo, encostado nos EUA, com 33 milhões de obesos.”

Quanto custa ser diabético

O gasto com a doença chega próximo aos R$ 100 bilhões por ano: além do grande número de diagnosticados, o preço da insulina e dos medicamentos para o tratamento são muito elevados.

A diretora da Sociedade Brasileira de Diabetes, Karla Melo, explica que para uma pessoa que se trata exclusivamente com insulina, “o custo [da doença] hoje fica entre R$ 500 a R$ 800 por mês, dependendo do tipo de medicamento utilizado, se ela adquirir em farmácias comerciais”.

O programa Farmácia Popular disponibiliza algumas opções de tratamento, com medicamentos genéricos orais usados por pessoas com diabetes tipo 2, mas Iezzi pondera que falta muito investimento em saúde.

“O Ministério [da Saúde] libera a compra de novos e melhores medicamentos, mas não tem dinheiro para comprar. Não adianta você fazer a receita e o paciente ir ao SUS e não conseguir pegar, ele vai até o posto e não tem.”

Além do próprio medicamento, outro alto custo se deve à necessidade da automonitorização glicêmica, que é o exame feito em domicílio pelo próprio paciente para controle da taxa de glicemia no sangue. “Outro fator que aumenta expressivamente o custo, principalmente pensando em saúde pública, é a presença de complicações do diabetes, que podem ser consequência de um mau controle da doença por um período prolongado”, explica Melo.

As complicações advindas do mau controle do diabetes podem ser microvasculares, com destaque para a nefropatia diabética, que pode levar à insuficiência renal e necessidade de diálise e transplante de rins, ou à retinopatia diabética, que pode levar a um comprometimento da visão e cegueira. Além delas, há o risco de neuropatia periférica, que é uma complicação associada a dores e dormência em membros inferiores.

Melo comenta que essas complicações podem também ser macrovasculares, ou seja, “aquelas que acontecem por obstruções de grandes vasos, como acidente vascular cerebral, conhecido como trombose, e a necessidade de amputação de membros inferiores e o infarto agudo do miocárdio”. 

Como melhorar esse cenário

Para desenvolver um medicamento, o custo com testes e pesquisas de novas drogas é bastante alto. Depois de expirada a patente, que no caso do Brasil se dá em no máximo 20 anos, outras empresas podem passar a vender o remédio em versão genérica — com mais opções no mercado, a competitividade aumenta e o preço cai.

No caso da insulina, descoberta como tratamento para diabetes em 1921, o preço ainda é alto porque a tecnologia do processo de fabricação envolve a manipulação de organismos vivos. O método é muito difícil de se copiar, mesmo sem haver patente. A nova expectativa é a chegada de uma nova droga no mercado, um biossimilar desenvolvido recentemente e aprovado pela Anvisa no fim de 2017, que pode reduzir o preço do tratamento em 70%.

Para além do custo do medicamento, outras opções podem diminuir o valor do gasto do país com a doença, sendo o principal deles diminuir o número de diabéticos. Para Iezzi, a chave é a educação voltada para reduzir a diabetes de tipo 2. “Ela é prevenível, com dieta e educação alimentar, atividade física, perda de peso. A diabetes tipo 1 não tem jeito, mas a 2 é possível prevenir.”

Melo reforça ainda outros dois pontos: a capacitação de profissionais de saúde pública, com uma maior padronização de tratamento para o controle da diabetes do tipo 1 e do tipo 2, e a utilização da tecnologia digital para estabelecer e manter a efetividade do gerenciamento do tratamento pelo próprio paciente. “Com melhoria nas padronizações de tratamento, nós teremos pacientes com uma maior adesão ao seu tratamento, que hoje também é outro ponto crítico. Além disso, com a utilização de tecnologias, nós podemos obter dados da saúde pública e privada para nortear melhor as ações necessárias para melhoria desse cenário em nosso país.”

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