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Qual é o papel de uma bienal de arte hoje, segundo estes 2 curadores

Bienal de São Paulo foi organizada por várias mãos e sem um tema aglutinador. Ao ‘Nexo’, Lisette Lagnado e Moacir Anjos refletem sobre a razão de mostras como a paulista

    Temas

    A cada dois anos, a capital paulista recebe um dos eventos internacionais de arte mais importantes do país. Seguindo a tradição iniciada em 1895 com a bienal de arte de Veneza, na Itália – e importada ao Brasil em 1951 –, artistas contemporâneos são escolhidos a dedo por seus organizadores para exporem seus trabalhos ao público.

    Em 2018, na sua 33ª edição, a Bienal Internacional de São Paulo abriu as portas no início de setembro de 2018  e segue aberta até o dia 9 de dezembro no Parque do Ibirapuera – sob o título “Afinidades afetivas”, capitaneada pelo curador-geral Gabriel Pérez-Barreiro. Além dele, outros sete “artistas-curadores” idealizaram suas próprias mostras, trazendo trabalhos e artistas da sua escolha para compor o conjunto de obras expostas.

    Segundo Pérez-Barreiro, sua intenção foi promover uma outra forma de pensar a organização da bienal paulista.

    “Nos últimos 20 anos houve uma fossilização no mundo da arte em geral (...) Todos os eventos tinham que ter um tema e os conteúdos tinham de ilustrá-lo. A abordagem era mais importante que as obras. Me parece uma experiência exaustiva, vendo o mesmo, escutando o mesmo. Eu queria me perguntar se não haveria outra forma de organizar isso.”

    Gabriel Pérez-Barreiro

    Curador-geral da 33ª Bienal de São Paulo, em entrevista ao El País

    A proposta foi recebida de modos diversos.

    No jornal O Globo, a crítica de arte Daniela Name disse que a Bienal desse ano parece “uma mostra que permanece congelada na beleza e no silêncio das formas”, ou ainda “uma bela adormecida que não desperta para o debate e o conflito”, formada por “uma sucessão de artistas e obras que parecem ser planetas muito distantes um do outro”.

    Na Folha de S.Paulo, Ivo Mesquita, curador da polêmica edição de 2008, conhecida como “Bienal do vazio”, lembrou que, há uma década, a mostra fazia uma crítica também ao esgotamento do modelo importado de Veneza. Ele lembrou que as bienais criadas a partir da italiana se tornaram “a principal plataforma para a produção, a distribuição e a valorização das práticas artísticas correntes”. “Neste sentido, é muito gratificante ver abrir a 33ª Bienal de São Paulo dez anos depois. Mostra que ela está viva e presente”, disse.

    No jornal O Estado de S. Paulo, o jornalista Antonio Gonçalves Filho se referiu à presente Bienal paulista, “não temática e plural”, como uma mostra atraente em razão de parte dos trabalhos escolhidos, não sem ponderar se tratar de uma edição que “não grita, mas suspira”.

    O papel da bienal

    Tendo em vista o evento paulista, o Nexo conversou com dois especialistas no assunto, ambos curadores de edições passadas da Bienal Internacional de São Paulo para tratar do papel de uma bienal de arte nos tempos atuais. São eles:

    • Moacir Anjos: pesquisador e curador de arte contemporânea da Fundação Joaquim Nabuco. Já foi diretor do Mamam (Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães), do Recife, e fez a curadoria de dezenas de exposições pelo Brasil, além de ter sido curador-geral da 29ª Bienal de São Paulo, em 2010.
    • Lisette Lagnado: crítica de arte, pesquisadora e curadora. Já foi diretora da Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro, e coordenou a pós-graduação em práticas curatoriais e gestão cultural na Faculdade Santa Marcelina. Em 2006, foi curadora-geral da 27ª Bienal de São Paulo.

    Qual papel uma bienal de arte atualmente deve buscar cumprir? O que há de diferente, nesse sentido, com as primeiras bienais, como a de Veneza nos seus primórdios? A internet exerce alguma influência nisso?

    Moacir Anjos Acho que uma bienal de arte hoje deve se esquivar de dois modelos dominantes na apresentação da arte contemporânea. Em primeiro lugar, do modelo vinculado somente às demandas apressadas do mercado e do espetáculo, marcado pela ansiedade da busca do que é supostamente inédito. Em segundo lugar, do modelo museológico estrito, que inscreve a produção artística em uma narrativa histórica legitimada e sem fissuras. Em lugar de privilegiar somente o que é recente ou, alternativamente, apenas o que é estabelecido, uma bienal deveria afirmar, por meio da articulação de trabalhos feitos em diferentes momentos, vínculos temporais que evidenciem, desde a plataforma conceitual que for definida, tanto continuidades quanto rupturas na produção artística. O fundamental é que, sejam inéditas ou antigas, as obras reunidas e expostas tenham potência simbólica para abrir frestas nos consensos em que se funda o entendimento das ideias e das coisas que organizam o mundo. Nesse sentido amplo, acho que uma bienal de arte contemporânea tem sempre um papel político a desempenhar.

    A diferença desse modelo para as primeiras bienais, como a de Veneza, é que nelas ainda persistem as representações nacionais, que diminuem um pouco o espaço para esse discurso mais articulado (e tensionado) entre as obras expostas (embora não o impeça de emergir no conjunto da mostra). As bienais deveriam, a meu ver, refletir mais e mais o mundo atual, em suas articulações geopolíticas ruidosas e conflituosas, e menos um mundo que não mais existe, onde hierarquias estão bem definidas.

    Em relação à influência da internet, não creio que seja tão crucial assim, nem em termos de produção, nem em termos do formato que uma bienal deve existir. Acho que, embora seja de fundamental importância para entendermos o mundo onde vivemos – inclusive sendo elemento constituinte desse mundo globalizado e partido ao qual me refiro acima –, é mais um dado a ser considerado do que elemento estruturante das exposições.

    Lisette Lagnado Não há um papel único que possa sintetizar as expectativas em torno de uma bienal de arte contemporânea. Historicamente, as bienais de São Paulo funcionaram como plataforma pedagógica para conectar artistas de países variados, formar um gosto “moderno” e internacionalizar a produção brasileira. De certo modo, essas três etapas podem ser consideradas cumpridas. Hoje sua batalha mais difícil consiste em marcar uma posição independente do mercado que se fortaleceu com a globalização, na virada dos anos 2000. Ou seja: evitar os big names [grandes nomes] do mainstream e apostar na experimentação de linguagens. As bienais devem responder às cidades em que estão hospedadas em regime de cooperação. A diferença entre as bienais corresponde à diferença entre as cidades.

    O que distingue São Paulo de Veneza ou Sydney de Berlim é uma combinação entre um circuito cultural e eventuais carências que se queiram suprir. É isso que torna a Bienal um fórum capaz de mobilizar a população local – a priori, os principais interessados. Para mim, uma bienal é mais que uma exposição (isso os museus já fazem): ela deve ser capaz de levantar questões, estimular debates públicos e criar relações sustentáveis com as instituições artísticas já existentes. As bienais entraram na lógica do turismo e recebem um fluxo maior de público, exigindo também um trabalho mais sofisticado de comunicação (publicações, encontros, mediação com educadores) para atender uma diversidade de interesses. O desafio aumentou com o ingresso gratuito em São Paulo, uma conquista na democratização do acesso à arte. A era digital transformou de tal maneira nossa capacidade de atenção (hoje crianças de dois anos já estão com tablet nas mãos) que a recepção e fruição da arte merecem programas específicos diante do risco de esvaziamento à medida que os indivíduos se fecham dentro de sua bolha.

    Sobre as edições das bienais no Brasil são recorrentes análises sobre seu caráter político ou despolitizado; sobre a existência de diálogo ou desconexão entre as obras. Bienais têm de necessariamente ser políticas ou formadas por obras que essencialmente atendam uma mesma proposta curatorial?

    Moacir Anjos As bienais não têm que obrigatoriamente serem políticas no sentido de se posicionarem sobre o que ocorre no momento em que são realizadas ou no lugar onde são realizadas. Pelo menos do mesmo modo que qualquer instituição ou pessoa também não tem que, obrigatoriamente, se posicionar dessa maneira. Isso dito, acho no mínimo estranho que, em situações de conflito ou de disputa acirrada no âmbito público, qualquer instituição (incluindo bienais) ou pessoas não assumam sua responsabilidade de participarem ativamente deste embate. Não assumir um protagonismo em tais situações significa, involuntariamente, tomar a posição daquele que tem mais poder e força, daquele que quer manter as coisas inalteradas. A arte e as exposições não existem além e fora do ruído do mundo “lá de fora”. São criações de mulheres e homens que respondem, cada qual a seu modo, aos modos como a realidade os afeta.

    Lisette Lagnado Toda bienal é política. Quando assume não desenvolver esse caráter, ela está tomando partido. O pensamento e a prática da curadoria (incluindo ou não o formato bienal) é uma proposição discursiva sobre a arte. Não se reduz a uma lista de artistas e obras no espaço. A curadoria (seja ela assinada por um crítico, um artista, um pensador, não importa sua formação) significa assumir o compromisso de evidenciar algo que não está circunscrito exclusivamente no trabalho exposto, ou seja: proporcionar agenciamentos coletivos, porque nenhum artista existe sozinho. Há de se levar em consideração a autonomia intelectual quando uma bienal recebe financiamento de departamentos de cultura governamental (Havana, em Cuba, e Xarja, nos Emirados Árabes Unidos) e quando conta com iniciativa privada. Não consigo imaginar bienais de arte contemporânea sem curadoria. Quando o curador, que para mim é um sujeito pensante, for dispensado, a responsabilidade da organização de exposições ficará então entregue a burocratas, gerentes de conteúdo...

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