Por que Bolsonaro cresce mesmo sem palanque e tempo de TV

Candidato do PSL se consolidou na liderança das pesquisas de intenção de voto. Ele está internado desde que sofreu um atentado a faca em Minas

     

    Jair Bolsonaro vive o auge de seu favoritismo. O candidato do PSL ao Palácio do Planalto vem registrando crescimento nas pesquisas de intenção de voto para a eleição de 7 de outubro, das quais é líder isolado. O desempenho do político já se destacava desde os primeiros levantamentos sobre a corrida presidencial. Mas ganhou novo impulso após dois fatos relevantes envolvendo a campanha eleitoral de 2018.

    Sequência

    Lula barrado

    Em 1º de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral rejeitou o registro da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva e impediu que o então líder das pesquisas disputasse as eleições com base na Lei da Ficha Limpa. O tribunal determinou que o PT trocasse de candidato até o dia 11 de setembro. Nessa data limite, o partido anunciou a candidatura de Fernando Haddad, então vice na chapa.

    Atentado em Minas

    No dia 6 de setembro, Bolsonaro foi vítima de um atentado a faca durante uma agenda de campanha em Juiz de Fora, Minas Gerais. Internado até agora por causa do ataque, Bolsonaro está impossibilitado de participar de seus compromissos como candidato. Mesmo assim, o presidenciável tem gravado vídeos do hospital para marcar posição na reta final da campanha.

    A ausência de estrutura tradicional

    O candidato do PSL é de um partido pequeno e fechou apenas uma aliança — com o também pequeno PRTB — para a disputa presidencial. Dessa forma, conta com um tempo muito curto nas propagandas de rádio e TV, assim como não tem, também, estruturas partidárias espalhadas pelo Brasil.

    Sua campanha se concentra nas redes. Ele é um dos políticos mais influentes na internet. Essa influência tem ajudado seus apoiadores a organizar atos pelo interior do Brasil.

    Na segunda-feira (17), seguidores do candidato do PSL fizeram buzinaços, panelaços e soltaram rojões em diversas cidades brasileiras para manifestar apoio ao capitão da reserva. Os protestos foram marcados para as 17h, em alusão ao número do candidato na urna eletrônica.

    No sábado (15) e no domingo (16), apoiadores organizaram carreatas em alguns estados. Houve manifestações em Alagoas, Pernambuco e Paraíba

    As críticas e ataques políticos recebidos pelos adversários, em especial do tucano Geraldo Alckmin, que disputa com ele o voto antipetista e dispõe de um amplo tempo de propaganda de rádio e TV, têm surtido pouco efeito até aqui.

    Para entender o momento de Bolsonaro e sua ascensão nas mais recentes pesquisas, o Nexo entrevistou dois cientistas políticos. São eles:

    • Deisy Cioccari, doutora em ciência política pela PUC-SP
    • Paulo Peres, professor de ciência política da UFRGS

    Por que Bolsonaro cresce nas pesquisas mais recentes sem estrutura nos estados e sem tempo de TV?

    Deisy Cioccari Bolsonaro já era um nome conhecido antes da campanha eleitoral começar. Para o bem ou para o mal, as polêmicas com as quais se envolveu [casos em que foi acusado de misoginia, racismo e apologia às armas] o tornaram amplamente conhecido para um setor conservador que não tinha representatividade. Aqui não tem como não citar o teórico Guy Dabord, que diz que “o que aparece é bom; o que é bom aparece”.

    Bolsonaro projetou seu nome nacionalmente e viu que havia um nicho a ser explorado. Na verdade, o crescimento dele foi pouco, e ocorreu depois do atentado a faca. Até então, as pesquisas indicavam um crescimento dentro da margem de erro, o que pode significar que o eleitorado dele era fixo e permanecia o mesmo.

    O tempo de TV que lhe falta é uma prova disso. Não consegue crescer no Nordeste, mas permanece com os mesmos índices no Sudeste e Sul, onde o conservadorismo é maior.

    O eleitorado de Bolsonaro não havia oscilado até o dia 6 de setembro [dia do atentado]. Outro ponto: até mesmo o discurso de ódio em Bolsonaro é repercutido intensamente pela mídia. Até mesmo o silêncio de Bolsonaro virou notícia.

    Virou espetáculo, repercutiu em toda a imprensa nacional, porque o espetáculo é a forma de ser visto na sociedade contemporânea. Bolsonaro não é uma voz única. É representante de um discurso muito bem articulado.

    Paulo Peres Apesar de não ter estrutura de campanha nos estados e ter pouco tempo de TV no horário eleitoral, Bolsonaro está o tempo todo na mídia. Ele consegue ser um candidato polêmico, e aí o tempo todo ele é mencionado. Por isso tem uma exposição muito grande. Depois do atentado que ele sofreu, essa exposição ficou ainda maior.

    Aparentemente, por um lado, a autoexposição que ele tem e o atentado que sofreu ajudaram Bolsonaro a consolidar um voto que ele já tinha e até a ganhar alguns outros votos antipetistas.

    Por outro lado, acho que Bolsonaro vem crescendo também porque, a cada vez que fica mais claro que Fernando Haddad [candidato do PT] pode ir para o segundo turno, provavelmente alguns votos que iriam para [Geraldo] Alckmin [candidato do PSDB] e outros candidatos, e que são votos antipetistas, tendem a migrar para Bolsonaro. Então a polarização começa a se acentuar agora.

    Qual o papel dos meios que ele usa: WhatsApp e outras redes sociais?

    Deisy Cioccari Essas mídias são eficientes para manter o nome dele em destaque no eleitorado mais jovem, de classe mais alta, o que as pesquisas já demonstraram ser o eleitor dele. Mas não podemos esquecer que o Brasil não se limita somente às grandes capitais ou cidades com amplo acesso à internet. Existe um vasto interior do país em que as redes não penetram, assim como Bolsonaro. O que, repito, já ficou comprovado com seu eleitorado fixo.

    Paulo Peres A utilização que Bolsonaro faz das redes sociais tem sido bastante intensa. Ele tem usado muitos robôs inclusive. Mas, na verdade, as redes vêm sendo usadas para consolidar uma posição que ele já tinha dentro de uma certa bolha eleitoral que já era favorável a Bolsonaro. Obviamente tem ajudado também a disseminar um pouco a sua posição para grupos que são antipetistas. Quanto mais esses grupos forem expostos às mensagens do candidato, provavelmente ele vai conseguir consolidar mais a sua votação. As redes sociais têm ajudado a consolidar e ampliar um pouco essa bolha do antipetismo que o Bolsonaro agora representa.

    O quadro põe em xeque o jeito tradicional de fazer política ou é um cenário que ainda pode mudar até a eleição?

    Deisy Cioccari Não acredito que haja um questionamento no jeito de se fazer política. Há um novo olhar. A própria restrição de tempo de TV e orçamento limitado obrigaram os candidatos a atingirem os eleitores de outra forma. Penso que há uma mudança no processo eleitoral como um todo, e não somente em função das redes sociais.

    Não podemos esquecer que esta campanha é diferente. As esquerdas não se uniram, o PT demorou para definir seu candidato e o que se viu foi a “crônica de uma morte anunciada”. Os votos ainda estão extremamente divididos entre aqueles que não souberam se posicionar desde o início do pleito eleitoral. As esquerdas se atrapalharam nessa campanha.

    Não acredito que o cenário mude muito. Bolsonaro se consolidou porque vem há tempos trabalhando sua imagem. As esquerdas não fizeram isso e o resultado é um cenário nebuloso para o seu lado.

    Paulo Peres No que se refere ao uso massivo das redes sociais, essa dinâmica de que Bolsonaro tem se aproveitado, inclusive com o pouco tempo de TV na propaganda eleitoral, é uma tendência que vem se formando nos últimos anos nas campanhas brasileiras.

    O modo de fazer política está passando por um processo de transformação importante. As redes sociais ocupam espaço nessa transformação. Esse modo de fazer política tem a ver com o discurso mais radical, de polarização. Tem a ver com o momento pelo que passa o país. E se a gente for olhar para o mundo inteiro, hoje, há uma ascensão de discursos não só de direita, mas de uma direita mais radical. E em vários lugares do mundo.

    No Brasil isso também vem acontecendo, no caso com a candidatura de Bolsonaro. Mas acredito que é algo conjuntural. Provavelmente, nas próximas eleições, podemos ter outros padrões. Penso que, nesta campanha especificamente, não vamos ter muita alteração. Na verdade, acredito que vá ocorrer um processo de maior polarização, talvez até uma polarização radical, porque tudo indica que o segundo turno será entre Bolsonaro e o candidato do PT, Fernando Haddad.

    A disputa vai ser uma disputa bastante intensa, opondo o petismo de um lado e o antipetismo de outro lado. Esse antipetismo já foi representado pelo PSDB, embora de maneira mais moderada do que o antipetismo agora representado por Bolsonaro. E o PSDB perdeu esse espaço. Alckmin, nas últimas pesquisas, vem caindo nas intenções de voto, mostrando que essa posição na polarização petismo versus antipetismo na política brasileira, pelo menos nesta eleição de agora, tem um novo personagem, que é Bolsonaro, que ocupou esse espaço.

    O perfil do eleitor brasileiro ajuda a explicar essa ascensão? Por quê?

    Deisy Cioccari O que ocorreu no Brasil foi um processo extremamente compreensível de desencanto com uma esquerda que foi atingida em cheio pela Lava Jato. O eleitor se cansou do “tudo o que está aí” e viu em representantes da direita uma chance de mudança. Vamos lembrar que este momento conservador é tendência no mundo inteiro.

    O eleitor brasileiro teve um motivo a mais. A ascensão da direita e de representantes como Bolsonaro é perfeitamente explicável em meio a uma operação que atingiu o centro do poder quando esse poder estava nas mãos da esquerda.

    Paulo Peres O perfil do eleitorado brasileiro explica, em parte, essa ascensão de Bolsonaro. Porque o perfil do eleitorado mostra, já há algum tempo, que a maioria dos brasileiros é de centro-direita. Mas há um grande eleitorado de centro que, embora em algumas eleições pendesse para a direita, em outras eleições pendia para a esquerda. Isso aconteceu nas eleições de Lula [em 2002 e 2006] e também da própria Dilma Rousseff [em 2010 e 2014].

    Só que esse eleitorado de centro vem, nos últimos anos, voltando para a direita. Foi por causa disso que a eleição de Dilma [em 2014], para o segundo mandato, foi bastante apertada. Há, digamos, um mercado eleitoral de centro-direita que pode ser, em parte, um fator que explica a ascensão de Bolsonaro.

    Paralelamente a isso, há um movimento de aumento do antipetismo, tanto do eleitorado de direita quanto no eleitorado de centro-direita, que foi acentuado nos últimos anos, principalmente em decorrência de determinadas políticas que o PT adotou e que vêm despertando a reação da direita mais conservadora.

    Há também uma reação do centro conservador, especialmente em questões de ordem moral. Houve políticas do PT consideradas políticas identitárias, por exemplo, e outras políticas sociais que muito provavelmente colaboraram para que um eleitor de centro se aproximasse mais desse discurso radical da direita.

    Há fatores estruturais, o fato de o eleitorado ser mais de centro-direita, mas há fatores conjunturais, que nos últimos anos se somaram para explicar a ascensão de Bolsonaro nesta eleição.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: