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O que ‘Camocim’ revela sobre política e dinâmica eleitoral no Brasil

Primeiro documentário de Quentin Delaroche, filme tem enredo centrado na disputa por uma vaga na câmara dos vereadores de uma cidade no interior de Pernambuco

     

    “Camocim” transcorre no município de Camocim de São Félix, no interior de Pernambuco, em época de eleições municipais, quando a população da pequena cidade se divide entre dois partidos.

    O documentário é o lançamento de setembro de 2018 da Sessão Vitrine Petrobras, projeto que exibe, com preço de ingresso até R$ 12, filmes brasileiros independentes em mais de 20 cidades do país.

    O primeiro longa dirigido por Quentin Delaroche, francês radicado em Recife, tem seu enredo centrado na disputa por uma vaga na Câmara dos Vereadores entre dois políticos locais, enquanto seus cabos eleitorais organizam a campanha na cidade.

    Entre eles está a protagonista Mayara Gomes, cabo eleitoral e amiga do candidato César Lucena. Jovem idealista de 23 anos, negra, lésbica e de classe baixa, Mayara acredita na perspectiva de um futuro melhor para a cidade e seus moradores.

     

    “O interesse deste documentário está menos nas pautas do candidato [Lucena], sobre as quais ouvimos muito pouco, e muito mais nos afetos que se dão nos espaços privados e públicos do fazer político, a partir de uma protagonista que catalisa uma série de ambiguidades sobre as crenças e descrenças da juventude na política”, disse ao Nexo Carol Almeida, jornalista e doutoranda da Universidade Federal de Pernambuco com pesquisa sobre cinema contemporâneo brasileiro.

    “Eu tinha um desejo de representar as relações de poder e a herança do coronelismo no interior de Pernambuco”, disse o diretor do filme, Quentin Delaroche, ao Nexo.

    Com várias ideias de filme na cabeça, o cineasta iniciou uma pesquisa, ainda vaga, em uma cidade do norte do estado. “Me dei conta de que todas as pessoas com que eu conversava falavam de política em algum momento. Mas tinham relação de ‘o que o gestor fez pra mim, ou deixou de fazer’, um pouco paternalista e de dependência política”, disse Delaroche.

    Decidido a retratar o período de campanha pré-eleições municipais, ampliou sua pesquisa para várias cidades do interior de Pernambuco, e chegou a Camocim de São Félix.

    “Camocim tem um histórico político violento, digno de histórias de faroeste”, conta o diretor. “Prefeito assassinado no meio da rua, umas histórias bem sinistras. Uma família que dominou a cidade por décadas e que, supostamente, matava os oponentes políticos. [O lugar] estava cheio de histórias do passado do coronelismo. Não funciona mais assim hoje, mas essa violência ainda existe. Foi assim que eu decidi filmar em Camocim.”

    Originalmente, o filme seria um retrato um pouco mais amplo da cidade. Com várias personagens, entre eleitores e cabos. “Só que, um mês antes do começo da campanha, por acaso, encontrei a Mayara numa praça, conversando de política com amigos. Fiquei super encantado com o idealismo, com a iniciativa e o carisma dela. E o filme passou a ir mais atrás da Mayara”, disse Delaroche.

     

    Segundo o cineasta, seu objetivo nunca foi o de explicar o que é uma campanha eleitoral nem quais exatamente eram os ideais dos personagens. “Era tentar representar, na tela e no som, uma experiência sensorial que eu vivi, ao morar aqueles dois meses em Camocim.”

    “O que há de particular sobre a realidade local nesse filme é o desenho de som que ele traz. Existe um ruído muito próprio em algumas cidades do Nordeste que vai além até de períodos eleitorais”, disse Carol Almeida ao Nexo.

    “Por exemplo, o barulho de carros de som que percorrem as ruas das cidades, vendendo produtos e, neste caso, vendendo políticos, é um traço muito particular desse espaço geográfico. Para além disso, o filme traz sons muito próprios de festividades carnavalescas, que aqui são transferidas para o período eleitoral. A dinâmica de puxadores de trios-elétricos é parte indissociável dessa propaganda política”, disse a pesquisadora.

    Camocim e o Brasil

    Para Carol Almeida, o filme consegue articular bem as experiências eleitorais de qualquer cidade brasileira.

     

    “Ele faz um movimento panorâmico sobre questões essenciais para o debate político do Brasil como um todo: o fato de que a política no país sempre foi atravessada pela religião, de que o coronelismo é uma prática que permanece eleição após eleição, da continuidade de políticos que herdam lugares de poder de seus pais, da filiação aos partidos e aos candidatos por apadrinhamentos (novamente a figura do político como essa instituição patriarcal que ‘apadrinha’), que servem individualmente às pessoas e, por fim, mas não menos importante, a essa entidade de eleitores-torcedores”, diz Almeida.

    Ainda segundo a pesquisadora, um dos maiores méritos de “Camocim” “está justamente em acharmos que ele fala do cenário contemporâneo quando tudo que ele faz é mostrar modos do fazer político que são, na verdade, bastante antigos”.

    Otimismo e negação da política

    O diretor de “Camocim” exibiu, no dia 18 de setembro, no Festival de Brasília, seu segundo documentário, dirigido em parceria com Victória Álvares: “Bloqueio” trata da greve nacional dos caminhoneiros ocorrida em maio de 2018.

    “‘Bloqueio’, pra gente, é um filme sobre a falta de diálogo. E o discurso e a posição de Mayara em ‘Camocim’ é justamente aberta ao diálogo, ainda tem fé na política. Ela tenta nos fazer acreditar que ainda há esperança na política, que ela é uma via possível para resolver os problemas da sociedade”, disse Delaroche.

    Nas filmagens de “Bloqueio”, na greve dos caminhoneiros, os diretores viram algo diferente: “uma descrença total na democracia, nas instituições por parte dos trabalhadores, que vão pedir intervenção militar porque, pra eles, essa democracia não existe”, disse.

     

    Segundo Delaroche, os dois filmes dialogam ao expor a importância da política na sociedade e também sua negação. “Em ‘Camocim’, também há um esvaziamento ideológico por parte dos candidatos – é azul e vermelho, não tem proposta, não tem partido, não tem visões diferentes da cidade. Acho que a gente vive em um momento em que essa negação da política é muito forte. E quem se aproveita disso é a extrema-direita, com um discurso supostamente antissistema”.

    “Não se pode perder de vista dois elementos fundamentais que o filme traz: o primeiro é que figuras como Mayara sempre existiram”, diz Carol Almeida, “pessoas que, ainda que imersas nesse ambiente catártico de torcida, estão ali porque acreditam que podem alterar algo, ainda que mínimo, no processo”.

    “O segundo é entender que o projeto de apolitização do cidadão brasileiro é um problema que nos atravessa desde sempre e que, no mundo contemporâneo, se agrava em função da consolidação de imaginários de que ‘política não presta’ e que a solução para o país são as pessoas não-políticas (como se isso existisse)”, disse a pesquisadora.

    Mayara

    Por situar o panorama sobre a campanha eleitoral em uma cidade do interior de Pernambuco, o filme corre o risco de “planificar alguns sensos comuns sobre o tal eleitor nordestino”, na visão de Carol Almeida.

    Mas, para ela, esse risco se desconstrói na medida em que a protagonista, Mayara Gomes, joga para os espectadores conflitos do debate político que vão além dessas perpetuações.

    “Digo que ela joga para os espectadores porque, quase sempre, esses conflitos são mais de quem assiste ao filme do que dela”, diz Almeida.

    Ao acompanhar uma personagem que é uma mulher negra e lésbica, segundo a pesquisadora, e que vive “em completa harmonia com o contexto de uma família bastante religiosa, ‘Camocim’ também brinca com uma certa expectativa do que um grupo de espectadores de classe média católica e branca poderia pressupor sobre os laços afetivos em uma família evangélica em qualquer lugar do país”.

    “Acho que o gesto final do filme, quando Mayara e um desses seus amigos que não acreditam na política são congelados com braços para cima, tentando fotografar algo que não se vê, é justamente que há um extracampo para um outro tipo de pensar político”, reflete Almeida.

    “Um pensar que, justamente por cristalizar em seu desfecho uma imagem melancólica – não à toa, acontece logo depois de escutarmos ‘Tempo perdido’, do Legião Urbana – nos jogue para pensar o que podemos fazer quando sentimentos como melancolia, a sensação de eterno retorno (Renato Russo ainda?) e vontade de mudança dividem um mesmo corpo que, neste caso, não é apenas o corpo de Mayara e de seu amigo, é o corpo coletivo do país.”

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