Como está o Brasil no cenário de crise em países emergentes

Argentina e Turquia sofrem com a alta do dólar, que atinge também África do Sul, México e Rússia. Economistas falam ao ‘Nexo��� sobre risco de contágio ao Brasil

 

Parte do mundo está em crise. Nos últimos meses, países emergentes têm enfrentado dificuldades tentando evitar a desvalorização de suas moedas.

Na Turquia, a lira perdeu valor rapidamente em julho. Na Argentina, o presidente Maurício Macri teve que recorrer ao FMI (Fundo Monetário Internacional ) para conseguir dólares. Como contrapartida, acertou com o fundo um pacote de austeridade que envolve corte de gastos e aumento de impostos.

A crise, que atingiu mais fortemente esses dois países, tem reflexos e causa temores em outros emergentes, como África do Sul, Índia, México e Rússia. No Brasil, os efeitos externos se confundem com a instabilidade do cenário doméstico.

A cotação do dólar em reais, até o dia 19 de setembro, tinha aumentado 26% no ano. O valor nominal (sem considerar a inflação) de R$ 4,19, atingido em 13 de setembro, é o mais alto da história. Em ano eleitoral, é difícil separar as causas e precisar o quanto a economia do país sofre com a crise internacional dos emergentes.

3 problemas para os emergentes

Menos dinheiro no mundo

Os Estados Unidos vêm, sistematicamente, diminuindo os incentivos implantados para recuperar a economia após a crise de 2008. Isso inclui o fim da política de quantitative easing, que previa o aumento da quantidade de dólares em circulação para incentivar a economia nos anos seguintes à falência do Lehman Brothers. A política monetária americana inclui também o aumento da taxa de juros, o que faz com que investir na economia dos Estados Unidos se torne mais atrativo. A combinação desses fatores significa menos dólares disponíveis para investimentos em países emergentes.

Barreiras comerciais

As medidas protecionistas adotadas pelo governo de Donald Trump devem afetar o comércio e desacelerar a economia mundial em um primeiro momento. O crescimento da China, que trava a principal disputa com os Estados Unidos, é fundamental para as exportações de vários países emergentes, como Brasil e África do Sul.

O grau de endividamento

Há um temor com as dívidas de governos e empresas em países emergentes, em especial as denominadas em moeda americana. Os primeiros a sofrer, Turquia e Argentina, têm maior necessidade de atrair dólares para financiar o endividamento. Mas mesmo quem tem dívida em moeda local, como o Brasil, pode ter problemas.

As reações comuns dos emergentes

No mundo, aumentou a aversão ao risco — até porque está mais rentável investir nos Estados Unidos, o mercado mais seguro do mundo. E investir em países emergentes é mais arriscado. Isso significa que investidores vão querer mais retorno para colocarem seu dinheiro nessas economias.

Para garantir a entrada de dólares, ou para evitar que eles saiam em massa rumo aos Estados Unidos e seus juros crescentes, os governos têm agido. Uma medida comum é aumento de juros, que faz crescer o retorno para o investidor estrangeiro e pode garantir a entrada de dólares. O efeito colateral nesse caso é um freio na atividade econômica, já que juros altos inibem o consumo.

No caso da Argentina, essa receita não foi suficiente. O governo aumentou os juros seguidas vezes, até chegar em 60% ao ano, mas o país teve também que recorrer a um empréstimo de R$ 50 bilhões do FMI.

A situação do Brasil

O Brasil, diferentemente da Argentina, não sofre com falta de dólares. O chamado resultado em conta corrente, diferença entre o que entra e o que sai do país, apresenta no momento um deficit pequeno. E o país conta com grandes reservas internacionais, de US$ 380 bilhões (quase oito vezes o volume que o FMI vai emprestar para a Argentina). Mesmo com a crise em outros emergentes, o Banco Central manteve na quarta-feira (19) a taxa básica de juros em 6,5% ao ano, a mais baixa da história.

Por outro lado, o dólar tem se valorizado durante os últimos meses. Com o país no meio de uma campanha eleitoral cujo resultado é imprevisível, a incerteza sobre o futuro da economia tem afetado a cotação da moeda americana.

O risco de se investir no Brasil aumentou desde janeiro. O EMBI+ Br, índice do banco americano JP Morgan que mede a diferença entre os juros pagos pelos títulos brasileiros e americanos, subiu cerca de 100 pontos base em 2018 (o equivalente a 1 ponto percentual). Mesmo assim ele segue abaixo de onde estava em períodos recentes de turbulência.

Elevação moderada

 

O índice funciona como uma medida de risco no Brasil porque, quanto mais alto o prêmio pedido para investir no país, mais risco o investidor vê no negócio.

A crise deixa os brasileiros preocupados, porque problemas semelhantes já afetaram o país no passado. No final da década de 1990, as crises da Ásia e da Rússia causaram fuga de recursos dos países emergentes e obrigaram o Brasil a mudar a política de controle do câmbio, que era uma das bases do Plano Real até então.

Sobre a crise que afeta os emergentes e o possível contágio para a economia brasileira, o Nexo conversou com dois economistas:

  • Lívio Ribeiro, pesquisador do Ibre/FGV
  • Silvio Campos Neto, economista da Tendências Consultoria

O que está acontecendo com o mundo e qual a posição do Brasil?

Lívio Ribeiro O que está acontecendo, especialmente na Argentina e na Turquia, é que elas têm descasamento de moeda em seu balanço. Argentina tem 70% da dívida pública em dólar ou indexada a dólar. Na Turquia, é a dívida corporativa que é relevante e indexada a dólar. Ambas têm necessidade de obter dólar, ambas são deficitárias em conta corrente. Não fecha a conta.

O que aconteceu é que esses países sofrem os primeiros efeitos da reversão do cenário global associada à diminuição de liquidez e aumento de juros nos Estados Unidos. Esses países acabam ficando em bolsões com carência de moeda forte. Não dá para dissociar o que aconteceu na Argentina e na Turquia disso. Mas esses fatores de risco não se aplicam ao Brasil.

Silvio Campos Neto Quando o cenário global é otimista, os investidores não são muito seletivos sobre onde aportar recursos. Quando o panorama começa a mudar, o mundo se torna mais desafiador para os emergentes e os investidores começam a separar o joio do trigo. É o que tem acontecido nos últimos meses, com preocupações sobre o comércio global, a China e as commodities, o processo de aumento de juros nos Estados Unidos.

Nesse processo, há os que sofrem mais e os que sofrem menos, depende dos fundamentos da economia de cada um. Turquia e Argentina têm perdido mais porque têm vulnerabilidades, o Brasil vem em um grupo abaixo. Temos grandes problemas fiscais e um risco político grande.

Qual o risco de o Brasil ser contagiado? Quais suas defesas e fraquezas?

Lívio Ribeiro O Brasil é um mercado grande, então é um bom mercado para que os investidores apostem contra a classe dos países emergentes, contra a América Latina. Quando se quer apostar que as moedas da América Latina vão depreciar, alguns mercados são pequenos para grandes volumes, então eles vêm para o real como um instrumento. Isso explica um pedaço dessa reação exagerada. Mas colocar o Brasil na mesma cesta dos outros não faz sentido.

A possibilidade de contágio tem de ser separada em três níveis. Um é esse contágio financeiro. Um segundo é o canal comercial, que é pequeno porque as trocas externas representam uma parcela pequena do PIB. O terceiro é o impacto da economia argentina na brasileira.

A grande fraqueza do Brasil é a dívida bruta aberrante como proporção do PIB, bem mais alta que a dos outros emergentes. A dívida cria temores, que podem ser infundados, de que seja necessário um outro equilíbrio da economia para que ela seja paga, afetando a inflação e o real.

Silvio Campos Neto A crise pode chegar de duas formas. De maneira mais direta, chega via comércio, com o receio de desaceleração da economia global, principalmente da China. Mas exportação não é algo crucial, o país ainda tem um grau de abertura pequeno. É importante, claro, mas não crucial.

O impacto mais forte é via mercado, mudança de precificação de ativos. As pressões estão na taxa de câmbio, na taxa de juros futura, na diminuição da entrada de capitais. O real está entre as moedas mais depreciadas, logo depois da lira turca e do peso argentino.

A crise se compara, de alguma maneira, às do fim da década de 1990?

Lívio Ribeiro   Não se compara porque a economia tinha câmbio fixo e reservas baixas, era devedora em dólar e tinha pouca capacidade de conseguir dólares com exportações. Hoje é tudo o contrário.

Um canal de transmissão indireta existe com a Argentina, como foi em 2002. A economia brasileira é pouco aberta, mas há uma interligação com a argentina. Existe uma sobrerrepresentação da demanda da Argentina na cadeia da indústria, e não é só no setor automotivo. Então essas interligações do setor real dos dois países são importantes e podem cobrar um preço no crescimento da economia, afetando a indústria de transformação.

Silvio Campos Neto A diferença crucial está na nossa situação de contas externas, que hoje é totalmente sólida. O Brasil não sofre nenhum tipo de questionamento em termos de dependência externa. O investidor, quando coloca dólares aqui, não teme não conseguir retirar esses recursos por falta de moeda forte. O deficit em conta corrente é muito pequeno e o que o país recebe de investimento é mais que suficiente para suprir, as reservas são bastante volumosas.

É diferente também de 2002, quando o risco no Brasil bateu, no auge das tensões eleitorais, 2500 pontos. Hoje ele roda na faixa de 300 pontos. Chegou a mais no fim do governo Dilma, mas muito abaixo.

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