Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Heitor dos Prazeres em seu ateliê
Heitor dos Prazeres em seu ateliê, no centro do Rio de Janeiro

Autor de sambas que marcaram a história do gênero no Brasil, Heitor dos Prazeres (1898-1966) é também conhecido por expressar por meio da pintura o Rio de Janeiro do seu tempo por uma perspectiva valiosa. Neste domingo (23), o compositor e pintor é lembrado pelos 120 anos do seu nascimento.

Negro e de família pobre, o sambista veio ao mundo apenas uma década depois de decretado o fim da escravidão no país. Sem educação formal, aprendeu marcenaria e clarinete com o pai, formou-se nos terreiros, nas ruas do centro velho da cidade e circulando pelos redutos mais importantes do samba carioca, ainda quando o gênero tomava forma.

Em vida, como lembrou Paulinho da Viola, Heitor conviveu “com praticamente todos os expressivos nomes do samba”, como Sinhô, Donga, João da Baiana, Pixinguinha e Paulo da Portela.

Na lista ainda caberiam outros bambas de vulto como Noel Rosa, Cartola e toda a turma do Estácio de Ismael Silva, Bide e Marçal.

Por meio do pincel ou da música, com seu ponto de vista único, Heitor dos Prazeres foi um “personagem fundamental da nossa história” e deve ser lembrado como “um grande cronista da cidade do Rio de Janeiro”, disse ao Nexo o historiador, escritor e pesquisador de samba Luiz Antonio Simas.

“O Heitor é uma figura que circulou pela cidade num momento em que o Rio de Janeiro estava codificando o gênero musical urbano que acabou caracterizando a cidade de uma maneira mais profunda que é o samba urbano carioca”, afirmou Simas. “Ele usou o samba e pintura para fazer crônicas da cidade, o que, para mim, coloca ele no patamar de Marques Rebelo, Lima Barreto, Nelson Rodrigues e Cecília Meirelles.”

“Eu sou Heitor dos Prazeres. Heitor dos Prazeres é o meu nome. Este prazer que eu tenho no nome é o prazer que eu divido com o povo. (...) Este povo que sofre, este povo que trabalha, este povo alegre que eu compartilho a alegria desse povo. A alegria deste povo, o sofrimento deste povo é o que me obriga a trabalhar.”

Heitor dos Prazeres

Em “Heitor dos Prazeres” (1965), curta-documentário dirigido por Antônio Carlos da Fontoura

Mano Heitor e briga autoral

Heitor nasceu em 23 de setembro de 1898. Sua mãe era costureira; seu pai, clarinetista da banda da Guarda Nacional e mestre no ofício da marcenaria. Com o tio Hilário Jovino Ferreira, figura conhecida por seu papel pioneiro na formação dos blocos carnavalescos, passou a frequentar os terreiros de tias baianas – na região chamada por Heitor como Pequena África ou “África em miniatura”, entre o centro e a margem portuária do Rio. A mais conhecida delas era a Tia Ciata, em cuja casa tomou contato com João da Baiana, Pixinguinha, Donga, figuras chamadas posteriormente de a “santíssima trindade do samba”.

Embora tivesse pequenos trabalhos, como jornaleiro e engraxate, chegou a passar algumas semanas preso, quando tinha ainda 13 anos, por vadiagem. Livre, foi apresentado a um grupo de batuqueiros do bairro do Estácio, como Ismael Silva, Alcebíades Barcelos (Bide), Armando Marçal, Nilton Bastos e Sílvio Fernandes (Brancura).

Torna-se “Mano” Heitor do Estácio, como costumavam se chamar uns aos outros por ali. Com o pessoal do Estácio, participa da formação do Deixa Falar, uma das primeiras agremiações carnavalescas e tida como a primeira escola de samba, tal qual conhecemos hoje.

Foto: Reprodução/Acervo Marçal

Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal
Os ‘manos’ Paulo da Portela, Heitor dos Prazeres, Gilberto Alves, Bide e Marçal

Além do Estácio, frequentava a Praça Onze, o bairro de Oswaldo Cruz e o morro de Mangueira. Assim, aproximou-se de Noel Rosa, Cartola e Paulo da Portela (fundador da escola de samba de Oswaldo Cruz), com os quais compôs sambas como “Pierrot Apaixonado” – marcha carnavalesca de enorme sucesso –, “Consideração” e “Vou te abandonar”.

No fim da década de 1920, ganha com “Tristeza” ou “A tristeza me persegue”, samba feito em parceria com João da Gente, o concurso de composições organizado por Zé Espinguela. Sobre ele, o jornalista, escritor e biógrafo Lira Neto, autor da série de livros “Uma história do samba”, disse ao Nexo em 2017:

“Infelizmente, todos os meus esforços de reconstituir a vida desse sujeito esbarram na ausência quase absoluta de informações. (...) Nessa pesquisa, me deparei com a informação que contraria toda a bibliografia existente que diz que o primeiro concurso que ele fez foi em 1929, juntando ali o pessoal da Portela, da Mangueira, do Estácio. Eu descobri pelos jornais que ele já fazia isso pelo menos desde 1928. Isso não muda a história, mas é interessante ver que não era a primeira iniciativa, era algo que ele estava habituado a fazer, coisa que antecedeu os desfiles de escola de samba. Zé Espinguela foi pioneiro.”

Lira Neto

Biógrafo e autor de “Uma história do samba”

Heitor, que tinha fama de briguento, envolve-se em uma com Sinhô (ou José Barbosa da Silva), compositor que se consagrou com o título – dado por ele mesmo – de “rei do samba”. A razão da desavença foram os sambas “Gosto que me enrosco” (gravado por Mário Reis, em 1928) e “Ora, Vejam Só” (gravado por Francisco Alves, em 1927), ambos registrados por Sinhô.

Segundo Heitor, o colega havia se apropriado de trechos de sambas seus para a produção das canções. Em resposta, Sinhô teria dito a famosa frase: “Samba é como passarinho, é de quem pegar”.

Depois das acusações, Heitor chegou a ser indenizado e compôs ainda duas músicas com o intuito de arranhar o reinado de Sinhô: “Olha ele, cuidado” (“Olha ele, cuidado / Ele com aquela conversa é danado / Olha ele, cuidado / Que aquele homem é danado”) e “Rei dos meus sambas” (“Eu lhe direi com franqueza / Tu demonstras fraqueza / Tenho razão em viver descontente / És conhecido por bamba / Sendo o rei dos meus sambas / Que malandro inteligente”).

Polêmicas à parte, até o fim da sua vida, Heitor foi responsável pela criação de mais de 300 sambas e músicas de terreiro.

“Ele tem coisas como ‘Cantar para não chorar’, feita com o Paulo da Portela, que é importantíssima; “Alegria do nosso Brasil”, que é um hino de carnaval. Mas ele também foi um grande cantor e registrou muita música de terreiro. Ele tem gravações maravilhosas de ponto de Cosme e Damião, Iemanjá, Ogum, coisas que até hoje são cantadas por aí.” 

Luiz Antonio Simas

Historiador, escritor e pesquisador

Pintor das coisas que existem

Por volta de 1937, além do samba, passa a pintar quadros retratando cenários da cidade do Rio de Janeiro, do seu presente, mas também do passado guardado em forma de memória. “A minha pintura para mim é importante. É uma fuga das minhas dores, das minhas mágoas, do meu sofrimento, das minhas paixões. Eu me sinto num outro mundo, um mundo sofredor, um mundo gozador, um mundo de felicidade”, narrou o próprio Heitor no curta-documentário que leva seu nome, de 1965.

Suas pinceladas formavam cenas de rodas de sambas, bailes, “macumbas” e “coisas que existem”, segundo suas palavras. Sobre imagens do passado, ele dizia pintá-las sem precisar de modelo, estava tudo “dentro da minha memória”.

Foto: Reprodução

‘Morro da Mangueira’ (1965), de Heitor dos Prazeres
‘Morro da Mangueira’ (1965), de Heitor dos Prazeres

Por seu traço formado longe das escolas de belas-artes, sua arte acabou sendo arranjada sob títulos como “popular”, “primitiva”, “rudimentar”, ou mesmo “ingênua”. Apesar dos adjetivos, seu quadro “Moenda” acabou em terceiro lugar entre os artistas nacionais no concurso da 1ª Bienal Internacional de São Paulo, realizada em 1951. Na edição seguinte, foi convidado a expor seu trabalho em uma sala dedicada a ele. 

“Não tenho inveja de qualquer ateliê em Copacabana, na Tijuca, Ilha do Governador ou outro lugar qualquer grã-fino. A Praça Onze [é] que é o meu negócio. No meu ateliê na Praça Onze eu me sinto tão feliz. Me traz recordação da minha infância (...) A minha pintura são coisas que passaram por mim e eu passei por elas, na minha infância, na minha juventude, no arrabalde, aí nesse mundo infinito.”

Heitor dos Prazeres

Em “Heitor dos Prazeres” (1965), curta-documentário dirigido por Antônio Carlos da Fontoura

Foto: Reprodução

‘Moenda’ (1951), de Heitor dos Prazeres
‘Moenda’ (1951), de Heitor dos Prazeres

Em 1999, o artista teve sua obra exposta no MNBA (Museu Nacional de Belas Artes) no Rio em comemoração ao centenário do seu nascimento. Em 2013, Heitor fez parte da coleção “Grandes pintores brasileiros”, do jornal Folha de S.Paulo; e, em maio de 2018, seus trabalhos formaram parte da exposição “O Rio do Samba - Resistência e Reinvenção”, no Museu de Arte do Rio.

Heitor dos Prazeres morreu em 4 de outubro de 1966, aos 68 anos, vítima de câncer no pâncreas. Conforme relato do jornal carioca Correio da Manhã na época, ao seu enterro compareceram “amigos e admiradores, em número superior a 200” que entoaram em coro a marchinha “Pierrot apaixonado”.

Para conhecer

Para uma introdução à obra musical de Heitor dos Prazeres, o Nexo preparou uma playlist com algumas das suas principais composições.

Ouça:

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