O futebol na eleição: Bolsonaro, jogadores e torcida

Felipe Melo dedicou gol a candidato em entrevista ao vivo. Outros atletas elogiaram o presidenciável. Organizadas começam a se manifestar

    No dia 16 de setembro, o volante Felipe Melo marcou um gol no jogo em que seu time, o Palmeiras, empatou em 1 a 1 com o Bahia, em Salvador. Ao final da partida, em entrevista à TV Globo, deu a seguinte declaração ao vivo:

    “Queria agradecer a Deus pelo gol, à família. Esse gol vai para o nosso futuro presidente, o Bolsonaro”

    Felipe Melo

    em entrevista após o jogo contra o Bahia, no domingo (16)

    A manifestação preocupou a Justiça Desportiva. Apesar de a legislação não prever sanções a quem faça o que Melo fez, viu-se ali uma possível abertura de precedentes para que esse tipo de atitude se espalhe.

    Mas as manifestações de jogadores a favor do capitão da reserva não eram algo novo. O meio campo Jadson, do Corinthians, por exemplo, disse em maio de 2017 numa entrevista que votaria nele se saísse candidato.

    Também do Corinthians, o atacante Roger publicou uma foto de Bolsonaro nas redes sociais em outubro de 2017 em que chamava o político de “meu futuro presidente”. Depois, apagou.

    Em fevereiro de 2018, Rossi, atacante do Internacional de Porto Alegre, chamou o agora candidato de “mito” e defendeu as Forças Armadas, assim como faz Bolsonaro.

    Houve homenagens até por jogadores que atuam no exterior, inclusive já no período eleitoral. Lucas, armador do Tottenham, da Inglaterra, usou as redes sociais para declarar voto a Bolsonaro em 10 de setembro.

    Em nota divulgada na segunda-feira (17), em razão da declaração de voto de Felipe Melo, o Palmeiras disse que todos os seus atletas têm direito a suas convicções políticas e religiosas e podem “se manifestar do jeito que quiserem”. Os outros clubes não se manifestaram publicamente sobre o tema.

    Na arquibancada, o nome de Bolsonaro surgiu em gritos homofóbicos em Minas. Num jogo contra o rival Cruzeiro, em 16 de setembro, a torcida do Atlético Mineiro gritou: “Ô, cruzeirense, toma cuidado, o Bolsonaro vai matar veado”. A direção atleticana repudiou, depois, a atitude dos apoiadores do time.

    Maior torcida organizada do Corinthians, a Gaviões da Fiel divulgou uma nota na quarta-feira (19) criticando quem apoia Bolsonaro. O presidente do grupo escreveu que a torcida organizada não pode apoiar quem defende regimes repressores.

    “Vocês, que apoiam um cara que vai contra todas as nossas ideias e joga no lixo o nosso passado de muitas lutas, por favor, repensem sobre sua caminhada dentro da torcida”

    Rodrigo Gonzalez Tapia

    presidente da Gaviões da Fiel, em um trecho da nota de repúdio a Bolsonaro

    Nesta quinta-feira (20), a Torcida Jovem, do time do Santos, também soltou uma nota na qual se engaja em uma campanha contra a candidatura de Bolsonaro. No texto, os dirigentes da agremiação escreveram: “As pautas apresentadas por Bolsonaro — de demais candidatos com o mesmo alinhamento ideológico — são incompatíveis com as raízes da Torcida Jovem e não representam os interesses coletivos que sempre buscamos”.

    Candidato do PSL, Jair Bolsonaro é líder nas pesquisas e vem aumentando seu apoio. O capitão da reserva se notabilizou pela apologia às armas de fogo, pelo ataque a minorias e pela defesa da ditadura militar que comandou o Brasil de 1964 a 1985. Nestas eleições de 2018, encarna um sentimento antipetista de parte da população.

    A duas semanas da votação de 7 de outubro, as reações contrárias ao candidato também crescem. Mulheres organizam protestos contra ele. E agora as torcidas organizadas também aderem à movimentação, num clima de acirramento político no qual os atores do futebol também têm seu espaço.

    Nos anos 80, Sócrates pedia Diretas Já

    Política e futebol já se misturaram em outras épocas da história brasileira. Uma das figuras do futebol que mais se destacaram em razão de seu envolvimento com a política foi Sócrates, ídolo do Corinthians, que morreu em 2011. Mas a bandeira era oposta.

    O jogador foi personagem central do movimento do início dos anos 1980 que ficou conhecido como Democracia Corintiana, em que os integrantes do clube tomavam decisões colegiadas sobre treinos, concentração e escalação. O auxiliar de roupeiro tinha voto com mesmo peso que o dirigente do clube.

    Sócrates ainda foi personagem da campanha pelas Diretas Já, que em 1984 mobilizou multidões em manifestações pedindo a volta do voto para presidente da República, nos estertores da ditadura militar hoje defendida por Bolsonaro.

    O jornalista escocês Andrew Downie publicou em 2017 uma biografia do jogador intitulada “Doutor Sócrates: futebolista, filósofo e lenda”. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, Downie afirmou na quarta-feira (19) que os jogadores que se manifestam politicamente hoje em dia “são o contrário de Sócrates”.

    “Sócrates estaria chocado em ouvir jogadores de qualquer time grande falando a favor do Bolsonaro, do autoritarismo”

    Andrew Downie

    autor da biografia de Sócrates

    Ídolo da torcida do Atlético Mineiro nos anos de 1970 e 1980, o atacante Reinaldo ficou conhecido pelos gols e também pelo seu ativismo político, principalmente na luta contra a ditadura militar. Assim como Sócrates, Reinaldo tinha o costume de comemorar os gols fazendo o gesto do braço em riste e o punho fechado, em sinal de resistência. 

    Liberdade de expressão e uso de palanque

    O Nexo conversou com Marcel Tonini, cientista social pela USP e integrante do Ludopédio, um portal de pesquisas acadêmicas sobre futebol. Tonini defende que os atletas tenham direito a dar opiniões políticas, desde que isso esteja acordado com o clube onde joga.

    “Sou favorável a que jogadores de futebol apoiem publicamente quem eles bem entenderem em sua vida privada, fora do clube, se assim desejarem”, diz o cientista social. “Mas sou contra que eles usem as instituições em que trabalham e todo o espaço midiático que elas têm para fazer isso.”

    O cientista social disse desconhecer um episódio em que um jogador tenha saído de campo e dedicado um gol a um candidato à Presidência durante a campanha, como ocorreu com Felipe Melo. “Na época da Democracia Corinthiana, os jogadores pediam voto pelas Diretas Já. Não para determinado candidato, ainda que Sócrates tenha revelado seu candidato em entrevistas pessoais fora do clube.”

    Tonini lembra que a legislação desportiva não prevê punições a quem declara apoio a políticos. Mas diz que, dependendo dos casos, algumas atitudes específicas podem gerar sanções —  como no caso da torcida do Atlético Mineiro, por exemplo, que extrapola a questão política e parte para a homofobia.

    “Além de ser homofóbica, [a torcida] incitava diretamente o assassinato de homossexuais. O procurador-geral do STJD, Felipe Bevilacqua, denunciará o clube no artigo 191, que estabelece multa de R$ 100 a R$ 100 mil”, diz.

    Apesar de ter sido um caso protagonizado pela torcida atleticana, Tonini considera que o clube deveria ter penas mais rigorosas se não ajudar a identificar quem começou a incitar os gritos. “Deveria sofrer penas como perda de pontos no Campeonato Brasileiro, perda de mando de campo e exclusão do campeonato, tal qual o Grêmio sofreu na Copa do Brasil de 2014”, afirma.

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