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Como o aperto de mão é usado contra imigrantes na Europa

Governo da Dinamarca quer exigir gesto para conceder cidadania. Casos similares já aconteceram em outros países

    Um projeto de lei do governo da Dinamarca está gerando discussão sobre como o país e a Europa em geral estão acolhendo imigrantes e refugiados. A nova proposta envolve um gesto que pode parecer banal: cumprimentar outra pessoa com um aperto de mão.

    Por motivos religiosos, parte dos muçulmanos não faz contato físico com pessoas do gênero oposto, o que inclui apertos de mão. Existem exceções para cônjuges e parentes próximos — como pais, filhos, irmãos e avós. O cumprimento formal é feito sem contato. É polido, por exemplo, pôr uma das mãos no próprio peitoral.

    O projeto, de iniciativa da coalizão governista conservadora, prevê que imigrantes que vão receber a cidadania dinamarquesa precisam participar de uma cerimônia formal, com o prefeito da sua cidade. Nesses eventos, os imigrantes deveriam assinar um termo no qual se comprometem a respeitar valores dinamarqueses.

    Além disso, o projeto determina que devem “agir com respeito perante representantes das autoridades”. Segundo os defensores da proposta, essa atitude respeitosa inclui apertar a mão dos prefeitos na cerimônia. Negar o cumprimento violaria as condições para obter a nacionalidade.

    A ideia por trás dessa medida é que se recusar a apertar a mão de pessoas do gênero oposto indicaria uma cultura incompatível com valores dinamarqueses e europeus. Portanto, esses imigrantes não teriam direito a ganhar uma nova nacionalidade.

    “Um aperto de mão é como nos cumprimentamos na Dinamarca, é como demonstramos respeito uns aos outros”, disse Inger Stojberg, ministra da Imigração e Integração. O projeto ainda precisa ser aprovado pelo Parlamento dinamarquês.

    Alguns prefeitos do país criticaram a ideia publicamente e deram a entender que, se virar lei, eles vão ignorar a norma. Entre os argumentos estão o fato de que a Dinamarca prevê liberdade religiosa e que apertar ou não a mão não é determinante para indicar se um imigrante está integrado ao país.

    Outras partes da Europa

    Em abril de 2018, a Justiça da França manteve a recusa de cidadania a uma imigrante argelina que, em 2016, se negou a cumprimentar dois homens com um aperto de mão durante a cerimônia de obtenção da nacionalidade. A religião da imigrante não foi divulgada publicamente.

    Em agosto de 2018, um casal de imigrantes muçulmanos foi excluído do processo de obtenção da cidadania suíça. Eles haviam se negado a apertar as mãos de pessoas do gênero oposto e portanto, na avaliação do prefeito de Lausanne, não seguido valores e leis da Suíça.

    Casos do tipo não se referem apenas a imigrantes ou refugiados. Na Suécia, em agosto de 2018, Farah Alhajeh, muçulmana sueca, ganhou na Justiça uma indenização após ter se recusado a apertar a mão de um homem em uma entrevista de emprego e ter sido prontamente desclassificada do processo. Alhajeh diz que trata igualmente pessoas dos dois gêneros ao negar apertos de mão em geral.

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