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As 800 tumbas egípcias descobertas. E por que o achado é importante

A necrópole foi encontrada em área que corresponderia à capital do Médio Império, em um momento de fortalecimento da figura dos faraós

     

    Em 11 de setembro de 2018, uma expedição conjunta entre a Universidade do Alabama em Birmingham (EUA) e o Ministério das Antiguidades do Egito encontrou mais de 800 tumbas ainda inexploradas na vila de Lisht, ao sul do Cairo, datadas de pelo menos 4.000 anos, segundo o ministro Khaled El-Enany.

    Conhecido por ter sido um importante centro administrativo do período, o antigo sítio nunca foi segredo. A localidade de Lisht foi capital do Egito durante o período conhecido como Médio Império (entre 2030 a.C e 1650 a.C). Por centenas de anos, especulava-se que lá, além das duas pirâmides erguidas em honra de  Amenemhat I e Senusret I, houvesse uma grande necrópole enterrada.

    “O que nós temos é um dos maiores cemitérios do Médio Império”, diz a arqueóloga Sarah Parcak, que co-liderou a expedição junto com o diretor de pirâmides da região, em entrevista à revista National Geographic, que ajudou a financiar parte do projeto.

    Como ocorreu a escavação

    Os primeiros passos para a escavação começaram em 2014, com imagens de satélite de alta resolução mostrando evidências de fossos de pilhagem em crateras que se multiplicaram entre 2009 e 2013. Essa iniciativa começou a ser feita justamente devido a pilhagem e a necessidade dos estudiosos de manter um mapa detalhado dos sítios arqueológicos no país.

    Sem saberem ao certo o que eram aqueles túneis que viam pelas imagens do satélite, a equipe começou o trabalho em campo. Foi então que descobriram que a maioria desses fossos terminavam em tumbas. O método da escavação agora funciona pensando no propósito de mapeamento, com equipe de arqueólogos passando a não somente documentar informações sobre os achados, mas também a coletar imagens e coordenadas de GPS para formação de uma rede de dados.

    Território inexplorado

    Como a maioria dos lugares destinados aos mortos na região, o local já havia sido saqueado quando os pesquisadores chegaram. Parcak diz que os saques se intensificaram no Egito durante a instabilidade econômica que se seguiu à recessão de 2009 e à revolução que eclodiu no país em 2011. Mas ainda há muita informação para colher. Por enquanto foram encontrados pedaços de cerâmica, fragmentos de murais e restos humanos.

    Em entrevista ao Nexo, o professor Antonio Brancaglion, do Departamento de Antropologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que, por levantamento rapidamente feito pelas autoridades egípcias, atualmente só 20% do que foi produzido na região foi encontrado. “Os egípcios [na Antiguidade] tiveram mais de 3.000 anos de história, e a gente tem pouco mais de 200 anos de estudo sobre o Egito. Estamos para eles como a Grécia estava para a Renascença, ainda começando a ser descoberta”

    Muito do que foi encontrado até o momento está restrito às regiões de Tebas e Mênfis, enquanto outras localidades foram historicamente deixadas de lado, como a região do Médio Império, explica Brancaglion. “Pelos registros históricos de viajantes como Heródoto, sabe-se que por ali existiu muita coisa, só que essa é uma das regiões que não foram tão exploradas, é um dos lugares que ainda se tem muito para descobrir”.

    O número de tumbas encontradas (802) chama atenção. A partir delas será possível conhecer como era a vida nesses centros, principalmente a vida dos que não eram da nobreza. “Provavelmente vão encontrar grandes informações sobre o funcionamento da política, como era a vida dos funcionários nos centros administrativos, uma espécie de classe média.”

    Por isso, acredita Brancaglion, é tão importante investir esforços em uma região que ainda não foi explorada. “Achar uma ou duas tumbas é importante, mas achar um conjunto muito grande é incrível, provavelmente vão ser encontradas famílias, grupos sociais inteiros ali sepultados”, afirma o pesquisador

    A arqueóloga Parcak acrescenta que esses recentes achados são limitados à parte sul do sítio, e que a equipe ainda espera continuar a trabalhar na região norte nos próximos meses.

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