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A narrativa oral na obra de Svetlana Aleksiévitch

Vencedora do Nobel da literatura, autora bielorrussa passa anos colhendo relatos de gente comum. Obra dedicada à memória infantil sobre a 2ª Guerra Mundial acaba de ser lançada no país

     

    A autora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch teve seu primeiro livro, “A guerra não tem rosto de mulher”, publicado em russo há mais de 30 anos. A obra chegou ao Brasil somente em 2016, na esteira de seu prêmio Nobel.

    Com “Últimas testemunhas” não foi diferente: o livro que chega agora ao Brasil (ed. Companhia das Letras) foi publicado pela primeira vez em 1985. Mesmo na Rússia, a autora demorou anos para estrear no meio literário. 

    O livro recém-publicado traz relatos de adultos que, quando crianças, se viram em meio a uma guerra que não entendiam. Toda história começa igual: seus nomes, a idade que tinham quando viveram o que está sendo relatado e as profissões atuais. O livro nos dá uma dimensão clara de quem são essas crianças.

    A maioria das histórias se passa entre 1940 e 1945, período em que a morte e a pobreza marcaram a vida das famílias nas antigas repúblicas soviéticas. As vezes em menos de uma página - algo como olhar por uma fresta que aos poucos vai se expandindo -, acompanhamos uma criança de 6, 5 ou 10 anos convivendo com um mundo que se desfazia ao seu redor, vivendo a fome, o medo, as viagens forçadas e a perda de irmãos, mães e pais.

    Os livros de Svetlana são feitos de tempo e memória. Em entrevista ao jornal inglês The Guardian em julho de 2017, ela contou que passa anos no “modo auditivo”, recolhendo depoimentos de gente comum em fitas cassete e transcrições. 

    Um dos aspectos que tornam seus livros tão poderosos é sua escolha de imitar a linguagem oral no processo de escrita. “É diferente traduzir os livros dela. Porque uma preocupação de qualquer tradução é a de reconstruir a linguagem do livro, e nesse caso você fica pensando em maneiras de manter esse mesmo tom de oralidade também em português”, conta ao Nexo Cecília Rosas, que verteu a obra “Últimas testemunhas” diretamente do russo.

    A professora de literatura russa na Universidade de São Paulo (USP), Elena Vássina, descreve a escrita da bielorrussa como “literatura documental”, ressaltando que “[para a autora] é muito importante escutar e tentar reconstruir a verdade histórica, a verdade sobre os acontecimentos mais trágicos do mundo e do meu país”. Vássina nasceu e foi criada em Moscou, na Rússia.

    Quando o assunto é descrever acontecimentos grandiosos, discutidos a partir de diversos pontos de vista, Vássina ressalta por que Svetlana foi a vencedora do Nobel da Literatura em 2015. “Ela sempre tira o leitor da zona de conforto e nos obriga a mergulhar em um mundo de sofrimentos humanos por meio de destinos, vozes e memórias das pessoas mais ordinárias, mais comuns. Existe nisso grande impacto.”

    Vozes infantis

    Rosas, que também foi tradutora de outra obra de Svetlana, “A guerra não tem rosto de mulher”, publicado no Brasil em 2014, ressalta a diferença dessa nova publicação. “Apesar dos entrevistados já serem adultos, muito do que narram traz uma perspectiva infantil. Usam ‘papai’ e ‘mamãe’, uma linguagem mais rara entre adultos, mas como estão narrando algo que estão lembrando da infância, usam vocabulário infantil para descrever.”

    Quando questionada sobre qual a importância dos livros de Svetlana, Vássina diz, com sotaque carregado: “Na obra dela vejo a importância da história contada pelo prisma das vozes comuns, dos destinos comuns, o que chamamos de ‘a história do cotidiano’. Mas a história do cotidiano do meu país era muito trágica”.

    Vássina fala ainda sobre como Svetlana usa traços tradicionais da literatura russa em suas obras ainda hoje. “Seus personagens prediletos são os chamados ‘pequenos homens’. O homem pequeno da literatura russa é o homem simples. As vozes dessas centenas de pequenos homens comuns unem-se em um coro para relatar a grande história.”

    Rosas concorda com essa análise, dizendo que admira muito na literatura da autora as histórias que se repetem. “Inclusive às vezes são coisas improváveis que acontecem com várias pessoas diferentes. Essas histórias repetidas vão se sobrepondo e isso vai dando para o leitor uma dimensão da história coletiva. Acho isso muito poderoso”.

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