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Este é o desenho mais antigo de um Homo sapiens já encontrado

Segundo estudo, traços feitos com um giz ocre em uma caverna da África do Sul têm 73 mil anos, 30 mil a mais do que desenhos mais antigos conhecidos até então

Foto: Reprodução
Lasca de pedra com traços ocre encontrada em escavação na África do Sul
Lasca de pedra com traços ocre encontrada em escavação na África do Sul
 

Em um artigo publicado no início de setembro de 2018 na revista Nature, cientistas afirmam ter identificado o desenho mais antigo já feito por Homo sapiens, de cerca de 73 mil anos de idade. Ele é 30 mil anos mais velho do que os desenhos humanos mais antigos conhecidos até então.

Os sinais foram encontrados em 2011, em uma caverna no município de Blombos, na África do Sul, a 300 km da Cidade do Cabo. Aparentemente, eles não representam um animal ou objeto, mas sim uma série de traços em vermelho entrecruzados, que  lembram um jogo da velha.

Outros sinais antigos identificados

Pinturas de 30 mil anos

Um artigo publicado em 2016 no Journal of Archaeological Science indica que obras em sete placas de pedra encontradas na caverna Apollo 11, na Namíbia, provavelmente realizadas por Homo sapiens, segundo os pesquisadores. Pintadas há cerca de 30 mil anos, elas parecem indicar animais e seres antropomórficos, ou seja, que misturam traços de humanos e outros animais.

Pinturas de 40 mil anos

Em 2014, pesquisadores publicaram um trabalho na Nature em que relatam a descoberta de outras pinturas de cerca de 40 mil anos, encontradas no complexo de cavernas de Maros-Pangkep, no município de Moras, na Indonésia. Até então, as mais antigas atribuídas a Homo sapiens eram de cavernas de El Castillo, na Espanha, e de Chauvet, na França. Nesses casos, tratava-se também de arte figurativa, representando animais e objetos.

Pinturas de 64 mil anos

Em fevereiro de 2018, cientistas publicaram um trabalho nas revistas Science e Science Advances em que abordam pinturas encontradas em cavernas na Espanha. As obras têm 64 mil anos, e representam animais e uma escada, ao contrário daquelas encontradas na África do Sul, que são abstratas. Pela sua idade, cientistas atribuem as obras a neandertais, que, pelas teorias mais aceitas, estiveram na Europa antes do Homo sapiens. Caso sejam mesmo de neandertais, os trabalhos indicam que poderiam ser capazes de pensamento simbólico, um indício de que possuíam linguagem.

Entalhes de 540 mil anos

Alguns dos sinais mais antigos são entalhes de 540 mil anos escavados da ilha de Java, na Indonésia, na década de 1890. Tratam-se de pequenas conchas que parecem ter sido gravadas com algum item pontiagudo, como dentes de tubarão. Devido à sua idade e localização, cientistas acreditam que as marcações são de Homo erectus, e não de Homo sapiens.

A descoberta e a análise dos desenhos

A obra com os riscos encontrada na caverna da África do Sul, assim como outros indícios de ocupação humana no local datados de até 100 mil anos atrás, foram criados no chamado Paleolítico Médio, compreendido em um período de entre 250 mil anos atrás e 25 mil anos atrás. Outros itens encontrados na caverna foram dentes, pontas de lanças, ferramentas com ossos e contas feitas com conchas do mar.

Os traços foram encontrados em 2011 por Luca Parollo, um pesquisador da Universidade de Witwatersrand, de Johanesburgo. Ele estava limpando alguns artefatos escavados na caverna quando se deparou com seis linhas retas em um fragmento de pedra.

O objeto foi enviado para um laboratório na Universidade de Bordeaux, na França. Pesquisadores usaram um microscópio, um laser e um scanner de elétrons e concluíram que as marcas haviam sido feitas com uma espécie de giz com um pigmento natural chamado de ocre.

Tradicionalmente usado em pinturas, esse pigmento é composto por quantidades variáveis de óxido de ferro, argila e areia, com tons que variam do amarelo para o laranja ou marrom-avermelhado, dependendo de sua composição.

Eles também concluíram que o desenho fora feito em uma superfície lisa, e que o fragmento encontrado provavelmente fazia parte de uma imagem maior. Isso também é indicado pelo fato de que as linhas retas terminam abruptamente nas bordas do pedaço de rocha.

Foto: Reprodução
Desenhos indicando suposições sobre como os traços continuavam antes de a lasca ter se soltado de uma pedra maior
Desenhos indicando suposições sobre como os traços continuavam antes de a lasca ter se soltado de uma pedra maior
 

Em entrevista ao jornal americano The New York Times, Christopher Henshilwood, arqueólogo da Universidade de Bergen, na Noruega, e chefe da pesquisa publicada na Nature, afirmou que os desenhos trazem novas informações sobre as habilidades dos Homo sapiens na pré-história. “Nós sabíamos de muitas coisas que o Homo sapiens podia fazer, mas não sabíamos que eles podiam desenhar naquela época.” O fragmento foi inicialmente chamado de G7bCCC-L13, e posteriormente apelidado apenas como “#L13”.

No trabalho, os pesquisadores escrevem que outros itens encontrados na caverna indicam que desenhos podem ter sido feitos no local em um período ainda mais antigo.

“A descoberta do L13 demonstra que o desenho foi parte do repertório comportamental das primeiras populações de Homo sapiens no sul da África, há cerca de 73 mil anos. Ele demonstra sua habilidade em aplicar desenhos gráficos em vários meios usando diferentes técnicas. A descoberta de gravações abstratas em ocre, com padrões comparáveis aos de L13 e a produção de uma tinta rica em ocre armazenada em conchas de caramujos do mar podem ter sido produzidas em níveis mais antigos do Paleolítico Médio, talvez desde 100 mil anos atrás.”

Artigo ‘Um desenho abstrato dos níveis de 73.000 anos na Caverna de Blombos, na África do Sul’, publicado em setembro de 2018 na revista Nature

É arte?

Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Henshilwood evitou afirmar que os desenhos podem ser lidos como obras de arte, mas os identificou como um padrão frequente em obras humanas antigas.

“Não há dúvida de que se trata de um símbolo que significava algo com as pessoas que o fizeram (...) É um símbolo que foi repetido diversas vezes, e que continua sendo repetido ao redor do mundo, na Austrália, na França, na Espanha e em toda parte. Isso faz parte do repertório de sinais que o cérebro humano reproduz. Eu não posso dizer o que ele significa, e não posso saber se é arte.”

Christopher Henshilwood

Arqueólogo da Universidade de Bergen, na Noruega, e chefe da pesquisa publicada na Nature

 

 

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