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Ação de robôs cresce no Twitter: por que isso é um problema

Perfis automatizados que tratam de candidatos presidenciais são mais expressivos entre apoiadores de Bolsonaro, Ciro e Haddad

    Na semana de 5 a 11 de setembro, período no qual Jair Bolsonaro sofreu um atentado a faca e Fernando Haddad foi oficializado como o candidato do PT ao Palácio do Planalto, a ação de robôs no Twitter relacionada a temas da campanha presidencial duplicou.

    O dado é da FGV-DAPP (Diretoria de Análise de Políticas Públicas, da Fundação Getúlio Vargas), constatado a partir do número de retuítes, ou seja, de compartilhamentos de publicações que envolvam candidatos à Presidência na rede social.

    Robôs no Twitter

    Esse aumento foi generalizado, em contas favoráveis a diferentes candidatos. Na semana do estudo, a maior participação de robôs ocorreu nos perfis identificados como apoiadores de Bolsonaro, candidato do PSL. Em segundo lugar ficou a base de apoio a Ciro Gomes, candidato do PDT, seguida pela de Haddad. Os três são os mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto.

    O Twitter tem registrado mais mensagens sobre os candidatos presidenciais à medida que a eleição de 7 de outubro se aproxima. A porcentagem de interações de robôs dobrou na semana analisada, e, em números absolutos, o número de retuítes mais do que quadruplicou.

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    foi a média de retuítes que cada perfil robô deu sobre os presidenciáveis, entre 5 e 11 de setembro

    A FGV-DAPP identifica perfis robôs cruzando diferentes dados. Um deles é o publicador (generator) de tuítes de uma conta — alguns já são conhecidos como produtores automáticos de posts. Além disso, mensagens publicadas com intervalo muito curto, como menos de um segundo, também são um sinal de automatização.

    O que é um robô

    Os robôs, ou bots, são perfis programados para realizar tarefas específicas — como sempre retuitar mensagens de uma determinada conta ou publicar mensagens contra ou a favor de um político.

    Algumas características sugerem que um perfil é falso, por exemplo: horários iguais ou intervalos muito curtos entre as publicações, fotos de perfil com origem em bancos de imagem, nome de usuário com muitos algarismos, texto idêntico a outros perfis ou sites, assunto muito prevalente, entre outras.

    Além de análises acadêmicas de dados, existem ferramentas online que cidadãos comuns podem usar para esclarecer se uma conta é ou não um bot. Elas analisam esses diversos fatores e indicam uma probabilidade de se tratar de um robô, embora não afirmem com total certeza.

    O efeito dos robôs na campanha

    O Twitter, objeto do estudo da FGV-DAPP, é a quinta rede social mais usada no Brasil. Facebook, WhatsApp, YouTube e Instagram têm mais usuários no país. Nessas outras redes também existem perfis automatizados que postam ou interagem com conteúdo envolvendo políticos e candidatos.

    O Nexo perguntou a Amaro Grassi, sociólogo da FGV-DAPP e um dos responsáveis pelo estudo de robôs no Twitter, sobre os efeitos desses perfis para a campanha eleitoral brasileira.

    Qual é a consequência para a eleição da ação de robôs nas redes sociais?

    Amaro Grassi A ação de robôs é um problema porque tem o potencial de interferir e manipular o debate público sobre as eleições, em geral, e sobre os diversos temas da agenda pública, em particular. Por meio de perfis automatizados, grupos de interesse e atores políticos podem inflar determinadas posições políticas, atacar adversários, disseminar desinformação e promover ações coordenadas de campanha, sempre de forma artificial. Ações desse tipo podem influenciar a opinião pública em torno de pautas centrais da eleição e mesmo a respeito de candidatos e partidos. Uma outra consequência da ação de robôs é a radicalização do debate público, na medida em que ações de perfis automatizados reforçam, em geral, os polos de debate, que tendem a “capturar” a discussão e impedir um debate ponderado sobre os temas em questão. O aumento na presença de robôs, de acordo com as análises da FGV-DAPP, mostra a intensificação desse tipo de ação conforme a eleição se aproxima.

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