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Novo Datafolha: quais disputas emergem com Haddad candidato

Bolsonaro mantém viés de alta. Candidato apoiado por Lula cresce e trava disputa direta com Ciro. E uma questão sobressai: a dinâmica agora se dará entre petistas e antipetistas ou entre bolsonaristas e antibolsonaristas?

     

    O Datafolha divulgou na sexta-feira (14) sua mais recente pesquisa sobre a corrida presidencial. É o primeiro levantamento desde que o PT trocou seu candidato ao Palácio do Planalto, com a saída de Luiz Inácio Lula da Silva, preso pela Lava Jato e barrado pela lei da Ficha Limpa, e a entrada de Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo. Isso ocorreu em 11 de setembro.

    Resultado mais recente

     

    A pesquisa realizou 2.820 entrevistas em 187 municípios entre quinta-feira (13) e sexta-feira (14). A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Esse é o terceiro levantamento do instituto desde o início oficial da campanha, em 16 de agosto.

    Se a novidade agora é a oficialização de Haddad, entre a primeira e a segunda pesquisa também houve dois fatos relevantes: em 1º de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral barrou a candidatura de Lula, e em 6 de setembro, Jair Bolsonaro, candidato do PSL, sofreu um atentado a faca em Minas e está desde então hospitalizado.

    Três Datafolhas

    Bolsonaro vem numa curva ascendente e lidera a corrida presidencial com 26% das intenções de voto a pouco mais de 20 dias da votação de 7 de outubro. O crescimento mais acentuado é de Haddad, num empate numérico com Ciro Gomes, do PDT. Geraldo Alckmin, do PSDB, está tecnicamente empatado na segunda colocação, quatro pontos abaixo, no limite da margem de erro. O tucano, na prática, está estagnado, mesmo dispondo do maior tempo de propaganda de rádio e TV.  

    Uma das explicações para o ritmo de transferência de votos de Lula para Haddad, mais rápido do que em outras eleições nas quais o ex-presidente foi usado como cabo eleitoral principal de um petista, está na popularização do Whatsapp, conforme ressaltou o jornalista José Roberto de Toledo, em artigo para o site da revista piauí.

    A rejeição a Haddad cresce junto com suas intenções de voto. Veja abaixo a evolução dos índices de entrevistados que não votariam em determinado candidato de jeito nenhum.

    De jeito nenhum

     

    O candidato do PT e o candidato do PDT caminham, no momento, para uma disputa particular em busca de uma vaga no segundo turno contra Bolsonaro, o capitão da reserva que está no hospital e vê seu vice, general da reserva Hamilton Mourão, mais desenvolto tanto nos eventos quanto nas declarações públicas.

    Nas simulações de um eventual segundo turno, Ciro é o único que supera Bolsonaro para além da margem de erro. Alckmin e Marina ficam numericamente à frente do capitão da reserva. Haddad fica um ponto atrás. Tecnicamente, são empates, levando em conta a margem de erro de dois pontos para mais ou para menos.

    Duas análises sobre o resultado

    • Fernando Guarnieri, professor de ciência política da Uerj
    • Vitor Oliveira, consultor e mestre em ciência política pela USP

    O que este Datafolha desenha para a corrida presidencial, a pouco mais de 20 dias da votação do primeiro turno?

    Fernando Guarnieri A expectativa era que, com o horário eleitoral de rádio e TV, Bolsonaro seria desidratado e Alckmin subiria. O que vemos é Bolsonaro se consolidando na liderança e Alckmin estável.

    É na esquerda que aconteceram os movimentos mais interessantes. Em pouco mais de 20 dias, Marina caiu bastante. Os votos, ao que parece, estão indo para Ciro e Haddad. Isso indica que Haddad vai subir ainda mais. O ex-prefeito também vai se beneficiar de um voto estratégico, isto é, eleitores mais à esquerda que querem que um candidato mais alinhado passe para o segundo turno.

    Se Haddad subir e se a direita achar que Bolsonaro não ganha dele no segundo turno, então poderá ocorrer voto estratégico também na direita — podendo favorecer Alckmin. Por isso, a propaganda do tucano insiste  no discurso de que ele, e não Bolsonaro, é capaz de vencer o PT.

    Vitor Oliveira A pesquisa confirma algumas coisas que já vinham se desenhando. O crescimento de Haddad, a perda de espaço de Marina Silva e a resiliência de Ciro Gomes. Desenha-se uma disputa ferrenha pelo eleitorado lulista pela esquerda. A subida de Bolsonaro não surpreende e parece consolidar sua briga pelo segundo turno.

    Mas o crescimento de Bolsonaro ainda não livra o candidato do risco de um crescimento de seus adversários, em função de sua rejeição ainda elevada, bem como de seu desempenho nos cenários de segundo turno.

    Como fica a dinâmica da eleição: petismo contra antipetismo ou bolsonarismo contra antibolsonarismo?

    Fernando Guarnieri Com a tendência de alta de Haddad, o campo antipetista vai procurar o candidato com maior possibilidade de derrotar o PT. Mais uma vez, isso pode beneficiar Alckmin, que está constantemente disputando com Bolsonaro esse campo.

    Já no campo antibolsonaro, que engloba toda a centro-esquerda, o eleitor de centro se sente mais à vontade com Haddad do que com Lula ou Ciro. Isso indica que Haddad se consolidará como o candidato deste campo, eventualmente roubando votos de Ciro.

    Vitor Oliveira A clivagem petismo/antipetismo ainda é fundamental para a competição política nacional. Não se pode dizer o mesmo de um fenômeno tão recente quanto Bolsonaro, que tem até aqui encarnado o voto antipetista, repetindo o perfil eleitoral das últimas eleições.

    O que pode ter consequências para o voto estratégico ainda no primeiro turno é o desempenho das alternativas a Bolsonaro contra o PT no segundo turno.

    É comum visualizar uma flutuação grande de intenção de votos na reta final, exatamente pelo comportamento estratégico do eleitor. Se Bolsonaro não melhorar o desempenho no segundo turno, poderá ser abandonado por eleitores mais antipetistas do que bolsonaristas.

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