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A literatura nos filmes de Joaquim Pedro de Andrade

Diretor de ‘Macunaíma’ e ‘O padre e a moça’ construiu sua obra em diálogo contínuo com a produção literária brasileira

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De 6 a 23 de setembro de 2018, a sede do Instituto Moreira Salles em São Paulo, na Avenida Paulista, exibe, em 35 mm, a obra completa do cineasta Joaquim Pedro de Andrade (1932-1988).

A retrospectiva marca os 30 anos desde sua morte, completos em 10 de setembro. Conta com os 14 títulos dirigidos por Andrade, entre os quais estão seis longas (como “O Padre e a Moça” e “Macunaíma”) e oito curtas-metragens (entre eles, “O poeta do castelo” e “Vereda tropical”).

A morte precoce do diretor em 1988, vítima de um câncer no pulmão, deixou inacabados dois projetos. Um deles é o roteiro, nunca filmado, de “O imponderável Bento contra o crioulo voador”, lançado em livro pela editora Todavia em setembro de 2018. O outro, também inédito, uma adaptação de “Casa-Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre.

Segundo o professor Carlos Augusto Calil, coordenador da edição, “O imponderável Bento” foi publicado pelo interesse no filme em que poderia ter se transformado, mas, principalmente, por sua qualidade literária: incomum nos roteiros, que costumam ser essencialmente técnicos.

Um dos nomes do Cinema Novo, o diretor se dedicou a “pensar o Brasil e sua gente em meio a uma história plena de contradições”, como escreve Meire de Oliveira no texto de apresentação da mostra retrospectiva no IMS, “com uma argúcia ferina e incisiva”.

Construído em diálogo contínuo com a literatura, seu cinema se voltou para autores como Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles e Dalton Trevisan, cujas obras forneceram material para vários de seus filmes.

A origem da relação com a literatura

‘Berço’

Nascido no Rio, filho dos mineiros Graciema e Rodrigo Melo Franco de Andrade, o cineasta cresceu no convívio com figuras como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, amigos de seu pai, intelectual que fez parte da fundação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Sphan, atual Iphan.

Projeto modernista

Sua proximidade com os autores modernistas permitiu que dialogasse com o Modernismo em seus filmes e repõe “em novas bases as questões dos modernistas: quem somos nós? Que cultura é a nossa? Como nos relacionamos com o resto do mundo?”, escreveu o crítico José Geraldo Couto.

Para Couto, “o que unifica toda a filmografia de Joaquim Pedro é essa indagação do homem brasileiro em suas múltiplas faces, em sua miscigenada formação, em sua cultura híbrida e cambiante”.

“Os filmes de Joaquim Pedro atualizam de modo crítico e inventivo a investigação sobre a identidade brasileira empreendida pelos modernistas da ‘fase heróica’ (...) o diretor de Macunaíma de certa forma pratica uma antropofagia da antropofagia, desta vez mediante a inserção dos temas modernistas no contexto da cultura pop, do mercado de consumo e da revolução comportamental”

José Geraldo Couto

No texto ‘Eu vi um Brasil no Cinema’

Longas em diálogo com obras literárias

Para Carlos Augusto Calil, que também é professor do departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes da USP, as adaptações de Joaquim Pedro de Andrade costumam “trair” seus originais. 

“Uma adaptação é sempre uma análise crítica, uma tradução. E uma tradução é sempre uma traição”, disse Calil ao Nexo.

No caso de Joaquim Pedro de Andrade, essa traição, segundo o professor, introduz sempre um olhar político. Segundo Calil, “o texto para ele é um pretexto, a partir do qual ele elabora a sua visão, sempre muito maliciosa e politicamente engajada”.

“O desafio de Joaquim Pedro, quase sempre vencido a contento, era o de buscar a expressão audiovisual que dialogasse criativamente com a palavra escrita, que fosse fiel ao espírito e não necessariamente à letra”, corrobora José Geraldo Couto.

O Nexo lista abaixo longas-metragens do diretor que foram feitos a partir de obras literárias, comentando, a partir de falas do professor Carlos Augusto Calil, como ele traduziu e “traiu” os originais literários em seus filmes.

‘O Padre e a Moça’ (1965)

 

Inspirado pelo poema  “O padre, a moça”, de Drummond, o primeiro longa do diretor foi filmado em preto e branco no vilarejo de São Gonçalo do Rio das Pedras, em Minas Gerais. Ali se desenrola a paixão entre uma jovem casada (Helena Ignez) e o pároco local (Paulo José), evocado no poema. É caracterizado pelo crítico José Geraldo Couto como um “mergulho no Brasil católico e provinciano”.

Para Calil, nesta transposição, a traição reside no fato de que “o poema era uma fábula atemporal que se torna um filme realista”.

“Macunaíma” (1969)

Política e esteticamente ousado, o filme foi realizado na fase mais severa da ditadura militar, após a edição do AI-5 (1968), e é considerado uma expressão da estética tropicalista.

O personagem de Mário de Andrade é encarnado por Grande Otelo, enquanto o Macunaíma branco é vivido por Paulo José. A icamiaba Ci, amada do herói sem caráter, é transformada por uma guerrilheira urbana interpretada por Dina Sfat.

É, para Couto, o ponto mais alto do diálogo do diretor com a tradição modernista, com seu “contraste extravagante de cores, câmera aberta aos acidentes da natureza e da metrópole, humor chanchadesco e uma profusão de signos do consumo”.

“Em ‘Macunaíma’, ele recusa o aspecto mágico do filme – até por ser difícil lidar com isso – e inventa outro final. No livro, [Macunaíma] migra para o céu, vira uma constelação. No filme ele termina comido por Iara. Tem uma inflexão crítica, sobretudo moralista: ele considera Macunaíma não uma personagem sem caráter, mas de mau caráter”, diz Calil.

Ainda assim, o filme guarda muitas semelhanças com a obra original, segundo Calil, “e inclusive expande algumas metáforas do livro. Entre uma macarronada [no livro] e uma feijoada [no filme] antropofágica, a metáfora do filme é muito mais poderosa, sem traí-lo, porque não toma ao pé da letra mas toma o espírito. Ou seja, mesmo que o traia algumas vezes, trai a favor do livro”.

“Os Inconfidentes” (1972)

 

O drama histórico se baseia nos autos da devassa, no “Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meireles, e na obra poética dos próprios inconfidentes.

A traição é politizar, assumindo um lado: “Ele parte desses textos e impõe uma ideologia, porque, no fundo, consagra o mito da República, [por meio da figura] do Tiradentes, que não está consagrado, por exemplo, no documento dos autos. Neles, Tiradentes não se destaca. [Joaquim Pedro] condena a classe dominante e fica com o representante da classe popular, mesmo que isso contrarie os elementos históricos”, disse Calil.

“Guerra Conjugal” (1975)

 

Comédia de costumes amarga, a adaptação costura dezesseis contos do paranaense Dalton Trevisan. As histórias foram descritas por Joaquim Pedro como “crônicas de psicopatologia amorosa na civilização de terno e gravata”.

Segundo Calil, esta é a adaptação mais fiel do cineasta, em relação a seu original. “Eu tenho a impressão que Joaquim Pedro e Dalton Trevisan são irmãos de criação. Têm a mesma perfídia, ironia, sarcasmo, o mesmo olhar com relação às personagens. Acho que é o que menos tem ‘traição’”. 

‘O imponderável Bento’

O roteiro conta a história de um homem santo que levita, literalmente, sobre “a sordidez política e moral de Brasília, em plena ditadura militar”.

“Ele nasceu em um berço onde a literatura era parte do cotidiano. Mas acho que, se ele não tivesse talento, gosto [pela literatura], isso não teria prosperado”, disse Calil ao Nexo. “O talento dele como escritor aparece muito claramente em ‘O imponderável Bento…’. Não era só um cineasta sensível à literatura, mas era também um escritor. Isso não é comum”.

O professor explica que roteiros não são, de forma geral, peças literárias. “Não se publica. É uma peça intermediária, produzida para virar um filme. Uma vez que vira, não tem mais função. Só será valorizado se o filme o valorizar também”, disse.

Segundo Calil, “nesse caso, o produto final é o intermediário. O filme não existe, mas existe uma escrita que não é técnica. A escrita técnica é a rubrica inicial que descreve a cena, em frases curtas, sem pretensão literária. E há os diálogos, a dramaturgia. Neste trabalho, a rubrica é literária, é muito bem escrita. E os diálogos, irônicos e rascantes. É uma peça literária autônoma”.

“Ele era, talvez, o cineasta brasileiro mais sensível e ligado à literatura mas, no final da vida, é mais que isso. Era um escritor.”

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