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Megaexercício militar da Rússia: o que há de prático e simbólico

Além de tropas do país comandado por Vladimir Putin, forças chinesas e mongóis participam de atividades de treinamento

A Rússia está realizando o maior exercício militar da sua história. As atividades prévias tiveram início na terça-feira (11), mas os grandes exercícios em si começaram nesta quinta-feira (13), dia de visita do presidente da Rússia, Vladimir Putin, a um dos locais de treinamento.

Putin disse que a Rússia é um país “amante da paz”, sem nenhum plano de agressão, comprometido em investir em equipamentos militares e em parcerias internacionais na área de defesa.

O exercício recebeu o nome de Vostok-2018. Em russo, “vostok” significa “leste”, em referência à região do país onde estão acontecendo as atividades militares. O evento termina no sábado (15).

Os grandes exercícios militares russos acontecem anualmente. O que muda para a edição de 2018 é a escala. Estão envolvidos os três ramos das Forças Armadas russas — Exército, Marinha e Força Aérea.

300 mil

militares russos estão participando do exercício Vostok-2018, segundo o governo da Rússia

36 mil

tanques de guerra estão em uso no exercício Vostok-2018, segundo o governo da Rússia

A convite da Rússia, tropas chinesas e mongóis também estão participando. Não é a primeira vez que a Rússia convida e conta com as Forças Armadas de outros países, mas é inédita a participação da China, outra potência econômica e militar mundial. Segundo o governo russo, a parceria com a China deve ser regular no futuro.

O início da realização desses exercícios ocorreu na década de 1970, quando a Rússia era a principal república da União Soviética, que liderava um bloco de países comunistas e buscava a hegemonia global. Os soviéticos, comunistas, se contrapunham aos Estados Unidos, que tinham o mesmo objetivo, mas à frente do bloco capitalista.

A União Soviética chegou ao fim em 1991, marcando o fim da Guerra Fria. A edição de 2018 dos exercícios supera o tamanho das manobras de 1981, em plena Guerra Fria e tensão militar.

A Otan, maior aliança militar do mundo e da qual nem a Rússia nem a China fazem parte, declarou que o exercício militar de 2018 “demonstra o foco da Rússia em se preparar para um conflito de larga escala”.

A aliança ocidental é liderada pelos EUA e se opõe às ações militares russa e também chinesa. A Otan aponta a Rússia como a principal ameaça à estabilidade global.

Sobre os efeitos práticos e simbólicos do megaexercício militar russo, o Nexo conversou com Eurico de Lima Figueiredo, professor e diretor do Instituto de Estudos Estratégicos da UFF (Universidade Federal Fluminense).

O que acontece nesses exercícios militares? Qual é o significado prático?

Eurico de Lima Figueiredo Em geral, os exercícios visam a simular cenários possíveis de confronto. Simulam ameaças, que podem ser de caráter mais tangível (mensurável) ou intangível (meramente preparatório). Toda manobra militar começa, no mínimo, de um a dois anos antes. Não se trata apenas de deslocar a tropa para ocupar determinados locais. É preciso organizar a logística, a manutenção, a fluência, a capacidade de operação dessas tropas. É um treinamento intensivo. O objetivo primeiro é adestrar a tropa.

‘A ideia é que não vai ter guerra, mas é preciso que estejam preparados para a guerra’

Ao contrário de forças policiais, as Forças Armadas são potenciais, não visam a atuar no dia a dia, e sim no grande combate. As forças policiais podem ter combates cotidianos de certa letalidade. O poder das Forças Armadas se mantém na forma potencial, não na forma manifesta. Isso significa que as Forças Armadas precisam de exercícios que permitam mostrar para si mesmas, e também para os demais, a capacidade de organização, de ataque e defesa, de cumprir os objetivos pretendidos.

Os exercícios também implicam um planejamento conjunto entre Exército, Marinha e Aeronáutica. Imagine o que é deslocar milhares de soldados para regiões distantes, sendo capaz de manter essa tropa em situação-limite, ou seja, de vida ou morte. Simulando a realidade, os exercícios preparam a tropa periodicamente para eventualidades de uma ação concreta. A ideia é que não vai ter guerra, mas é preciso que estejam preparados para a guerra.

Qual é o significado simbólico desse exercício militar?

Eurico de Lima Figueiredo As manobras Vostok-2018 visam a uma demonstração de força, de poderio bélico, de capacitação por parte da Rússia nessa região dos exercícios. A Rússia quer mostrar, sob o governo de Putin, que pretende ser uma liderança em seu espaço geopolítico, o que requer defender seus interesses nacionais.

Não como na Guerra Fria ou logo após ela, de projetar o seu poder para o Leste Europeu, mas sim de mostrar às potências europeias a capacidade de reação a qualquer tentativa de ameaçar os interesses russos. Isso é resultado ainda da crise da Ucrânia, que a Rússia entendeu como uma interferência de poderes europeus e dos EUA [em 2014, em meio a uma crise interna na vizinha Ucrânia, a Rússia interveio militarmente e anexou para o seu território a região ucraniana da Crimeia, ação que desde então gerou críticas e sanções econômicas dos Estados Unidos e da União Europeia contra a Rússia].

Por que a China está participando?

Eurico de Lima Figueiredo É um jogo de xadrez geopolítico. Após a vitória da Revolução Chinesa, em 1949, a relação entre China e a então União Soviética passou por fases diferentes. O primeiro momento foi de entendimento, quase uma aliança automática da China comunista com os soviéticos. Depois, no decorrer dos anos 1960, começou a haver indícios de um antagonismo de dois gigantes territoriais e, posteriormente, dois gigantes político-militares, que portanto perseguem objetivos próprios. Surgiram tensões entre o Partido Comunista da China e o Partido Comunista da União Soviética.

Terminada a Guerra Fria, essas tensões não desapareceram, mas ficaram adormecidas. Acontece que, na década de 1990, a dissolução da União Soviética coincide com a expansão chinesa. Há 30 anos, não se pensava na China como a segunda maior economia do planeta, o poder americano era incontrastável.

A China tem interesse em mostrar ao mundo que na Eurásia, a vasta região que vai da Europa Oriental até o oceano Pacífico, existe um compromisso geopolítico de defesa mútua, em relação principalmente aos EUA. Parece haver uma combinação de interesses da Rússia e da China. Da Rússia sobretudo em relação à Europa, e da China sobretudo em relação aos EUA. Há uma união, não sei se momentânea, entre interesses chineses e russos.

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