Foto: Khaled Abdullah/Reuters

Adolescente passa por tratamento para desnutrição no Iêmen, em 2016
Adolescente passa por tratamento para desnutrição no Iêmen, em 2016
 

A fome voltou a crescer no mundo. Entre 2016 e 2017, 15 milhões de pessoas adentraram a lista de subnutrição da FAO – o órgão da ONU (Organização das Nações Unidas) voltado ao monitoramento internacional da fome – agora atualizada com aproximadamente 821 milhões de indivíduos nessa situação, ou uma a cada nove pessoas no planeta.

Este é o terceiro ano consecutivo de alta. De 2005 a 2014, a população com acesso apenas a uma alimentação com menos nutrientes do que o nível considerado adequado caiu de 945 milhões para 783,7 milhões. A partir de 2014, entretanto, os números voltaram a crescer, revertendo parte do avanço das últimas décadas. Com o número de subnutridos de 2017, a situação volta ao patamar de 2010.

A volta da fome

O relatório “Estado da Insegurança Alimentar e Nutrição no Mundo em 2018” afirma que, no ano passado, 124 milhões de pessoas em 51 países enfrentaram algum nível de crise de insegurança alimentar, em razão de fatores como conflitos armados, eventos climáticos (como secas e furacões) e crise econômica. Dessa relação de países, a maioria (76%) fica  na África e na Ásia. O restante é composto de países latinos e caribenhos.

O Brasil faz parte da lista entre aqueles que foram mais afetados pelo clima. Apesar disso, seus números são positivos. O país reduziu sua população em estado de subnutrição de 8,6 milhões (entre 2004-2006) para 5,2 milhões (entre 2015-2017). O relatório destaca o caso brasileiro entre os mais afetados pelo fenômeno El Niño entre 2015 e 2016, elevando a temperatura, prejudicando a agricultura e, assim, afetando a produção de alimentos e a geração de renda.

“Muitos países incluindo Brasil, Etiópia, Indonésia e outros no leste africano e na Ásia central vivenciaram três ou mais anos com temperaturas máximas mais extremas ocorrendo com mais frequência”, diz o documento.

O relatório, lançado na terça-feira (11), é o segundo do gênero feito com a intenção de acompanhar o desempenho dos países signatários das metas da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, dentre elas o fim da fome. O documento foi ratificado pelos Estados-membros da ONU em 2015, incluindo o Brasil.

“Até 2030, acabar com a fome e garantir o acesso de todas as pessoas, em particular os pobres e pessoas em situação de vulnerabilidade, incluindo crianças, a alimentos seguros, nutritivos e suficientes durante todo o ano (...) Até 2030, acabar com todas as formas de desnutrição, incluindo atingir, até 2025, as metas acordadas internacionalmente sobre nanismo e caquexia em crianças menores de cinco anos de idade, e atender às necessidades nutricionais dos adolescentes, mulheres grávidas e lactantes e pessoas idosas.”

Itens da Agenda 2030

Além da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), o relatório envolveu outras quatro agências da ONU: Fida (Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola), PMA (Programa Mundial de Alimentos), Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e a OMS (Organização Mundial da Saúde).

Subnutrição, desnutrição e fome

No relatório, a FAO faz uma breve definição de cada um dos termos usados para tratar do assunto.

  • Subnutrição: Condição em que o consumo habitual de comida por um indivíduo é insuficiente para garantir a quantidade de energia necessária para uma vida ativa e saudável.
  • Desnutrição: Condição que resulta de uma dieta pouco nutritiva em termos de quantidade e/ou qualidade, ou ainda de baixa absorção ou utilização pelo corpo dos nutrientes consumidos como resultado de doenças – muitas delas causadas por falta de saneamento básico, por exemplo.
  • Fome: Sensação física desconfortável ou dolorosa, causada por consumo insuficiente de calorias. No relatório, fome é usado como equivalente ao termo subnutrição crônica, ou seja, um estado contínuo de subnutrição.
  • Insegurança alimentar: Situação em que um indivíduo não tem acesso a uma quantidade segura e nutritiva de alimento para seu crescimento ou desenvolvimento normal e saudável. Pode ser resultado de falta de comida, baixo poder de compra (situações de crise econômica, inflação etc) ou má distribuição de alimentos em uma região. O relatório considera um estado de insegurança alimentar como severa quando há pessoas passando dias inteiros sem comer em razão de falta de dinheiro, por exemplo.

Crianças, mulheres e obesidade

A organização internacional chama atenção para os efeitos da subnutrição quando continuada, sobretudo no caso de crianças, resultando em indivíduos com crescimento físico abaixo do normal (stunting, em inglês), peso desproporcionalmente baixo em relação à altura (wasting) ou ainda sobrepeso.

A primeira condição, resultado do baixo consumo de nutrientes de modo contínuo e associado a doenças, costuma afetar crianças com até dois anos e seus efeitos – no desenvolvimento motor e nas funções cognitivas, por exemplo – são geralmente irreversíveis. Segundo o relatório da FAO, 151 milhões de crianças com menos de cinco anos no mundo sofrem com isso, a maioria de países da África (39%) e Ásia (55%).

Já a segunda, causada pelas mesmas razões, é um forte indicador de mortalidade entre crianças com menos de cinco anos, segundo a Unicef. Segundo o relatório, 50 milhões de crianças estão em risco, sobretudo na África e na Ásia.

Ambas condições coexistem com o risco de sobrepeso na infância e obesidade na fase adulta também por má nutrição. O problema de obesidade, grave em países como Estados Unidos – onde há 93,8 milhões de adultos obesos (2016) e 1,2 milhão de crianças menores de 5 anos com sobrepeso (2012) –, passou a ser motivo de alerta também na África e na Ásia.

“O alto custo de alimentos nutritivos, o estresse de viver com insegurança alimentar e adaptações fisiológicas por restrição alimentar ajudam a explicar por que famílias com alimentação restrita podem desenvolver um risco maior de sobrepeso e obesidade”, diz o relatório.

A FAO afirma que mais de 38 milhões de crianças com menos de 5 anos estão com sobrepeso no mundo, a maioria também em países africanos (25%) e asiáticos (46%). Entre adultos, o números de obesos passa de 672 milhões; no Brasil, são 33 milhões.

Entre as mulheres, preocupam os casos de subnutrição crônica que podem levar a desenvolver anemia. O relatório aponta que uma em cada três mulheres em idade reprodutiva no mundo é anêmica, taxa que vem aumentando desde 2012. No Brasil, são 15 milhões. 

África, Ásia e América do Sul

Abaixo, a relação das regiões e dos países distribuídos de acordo com a prevalência de subnutrição na sua população. A prevalência da condição mede em porcentagem o número de casos em uma população durante um período. Nos gráficos abaixo, os dados se referem a apenas parte do total de países por continente ou região e compreendem os períodos que vão de 2004 a 2006, e 2015 a 2017.

África

Ásia

América Latina e Caribe

América do Sul

O que fazer a respeito

Representantes das cinco agências internacionais envolvidas no relatório afirmam que para cumprir as metas de extinguir a fome e todas as formas de subnutrição “é imperativo acelerar e escalar ações que fortaleçam a resiliência e a capacidade de adaptação dos sistemas de alimentação e os meios de subsistência das pessoas em resposta à variação do clima e suas condições extremas”.

Isso implica a implementação de políticas e práticas de curto, médio e longo prazos por cada governo, os quais podem buscar orientações em documentos de diretrizes internacionais da própria ONU.

“Se não fizermos mais, os três anos de aumento serão quatro. Reduzir a fome não é uma questão de fé, depende de nossas ações”, disse Kostas Stamoulis, diretor adjunto da FAO, ao El País. “Precisamos ser positivos e acreditar que conseguiremos alcançar os objetivos, porque se nos dermos por vencidos agora, não seremos bem-sucedidos.”

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