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A trajetória de Haddad, novo nome do PT à Presidência

O ‘Nexo��� conclui a publicação das biografias dos postulantes ao Palácio do Planalto com a substituição de Luiz Inácio Lula da Silva, após ex-presidente ser barrado pela Lei da Ficha Limpa

 

Fernando Haddad é o novo candidato do PT à Presidência da República nas eleições de 2018, substituindo em 11 de setembro, a menos de um mês do primeiro turno, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, barrado pela Lei da Ficha Limpa.

Ele nasceu em São Paulo, em 25 de janeiro de 1963. Tem, portanto, 55 anos. É filho de Khalil Haddad, comerciante, e de Norma Thereza Goussain Haddad, professora e dona de casa. Haddad tem duas irmãs.

R$ 428,4 mil

é o patrimônio declarado por Fernando Haddad ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) em 2018

O que fez até disputar a primeira eleição

Haddad cresceu em São Paulo. Em 1981, ingressou na Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo). Enquanto estudava, também trabalhava como vendedor na loja de tecidos recém-aberta pelo pai na rua 25 de Março, no centro da capital paulista.

Foi durante a faculdade que teve início a atuação política de Haddad, quando ingressou no Centro Acadêmico 11 de Agosto, formado por alunos da Faculdade de Direito.

Encerrada a graduação, foi analista de investimento do Unibanco e consultor da Fipe (Fundação de Pesquisas Econômicas). Fez mestrado em economia política e doutorado em filosofia. Em 1997, tornou-se professor de teoria política na USP. Licenciou-se da sala de aula em 2003, voltou em 2015, e hoje está licenciado de novo.

Os cargos públicos que ocupou até aqui

A primeira função pública de Haddad foi na prefeitura de São Paulo, em 2001, quando chefiou o gabinete da Secretaria de Finanças e Desenvolvimento Econômico na gestão de Marta Suplicy (2001-2004).

Em 2003, o petista migrou para o governo do então recém-eleito presidente Lula, como assessor especial do Ministério do Planejamento, sob comando de Guido Mantega. Ali participou da formatação da Lei das PPPs (Parcerias Público-Privadas), modalidade de concessão de serviços públicos para a iniciativa privada que passaria a ser adotada em especial para a execução de obras de infraestrutura.

 

Em 2004, Haddad foi para o Ministério da Educação, onde se tornou secretário executivo na gestão de Tarso Genro. Em 2005, veio à tona o mensalão, com denúncias de compra de apoio político pelo governo Lula, o que obrigou Tarso a deixar o MEC para assumir a presidência do PT, sendo substituído por Haddad.

Como ministro, Haddad deu continuidade a projetos que se tornariam marcas da gestão petista. Implementou o ProUni, programa de concessão de bolsas universitárias a estudantes de baixa renda, criado em 2004; ampliou o Fies (Financiamento ao Estudante do Ensino Superior); criou o Fundeb (Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica); e reformulou o Enem (Exame Nacional de Ensino Médio) em 2009.

A passagem pelo MEC rendeu críticas ao então ministro, principalmente em razão do vazamento da prova do Enem em 2009 e, anos depois, por falhas na gestão do Fies. Mas a atuação no ministério serviu para Lula apostar em Haddad como candidato do PT para a Prefeitura de São Paulo nas eleições de 2012 — ano em que Haddad deixou o MEC.

“Em 2004 não li nenhum artigo defendendo o ProUni nos jornais, nenhum, absolutamente nada. Guardadas as proporções, é que nem o Enem hoje, apanha todo santo dia. Só que são essas realizações (...) que promovem maior avanço e acesso democrático às instituições de ensino superior”

Fernando Haddad

em discurso ao deixar o Ministério da Educação, em 23 de janeiro de 2012

Definido pelos opositores como o “segundo poste” de Lula, em referência à indicação de Dilma Rousseff como candidata à Presidência em 2010, Haddad foi eleito prefeito no segundo turno. Ele derrotou o ex-governador José Serra (PSDB), com 55,5% dos votos válidos.

 

A primeira experiência de Haddad num cargo eletivo foi tumultuada. Em 2013, ele teve de lidar com os protestos de junho, iniciados contra o reajuste da tarifa do transporte público. Depois, sofreu a influência do desgaste do governo Dilma Rousseff (2011-2016), abalado pelas crises econômica e política e também pelo avanço da Lava Jato.

Em sua gestão, deu ênfase a obras viárias, como a criação de faixas exclusivas de ônibus, a implantação de ciclovias e a redução dos limites de velocidade em vias da capital. No social, teve destaque o Braços Abertos, programa de atendimento a usuários de drogas. Outra marca foi a criação da Controladoria Geral do Município, que revelou o esquema de corrupção conhecido como a “máfia do ISS”.

Em 2016, ano de intensos protestos contra o PT e ano do impeachment de Dilma, Haddad tentou a reeleição, mas foi derrotado já no primeiro turno pelo empresário João Doria (PSDB), que agora disputa o governo paulista.

“[Minha derrota em 2016 ocorreu em] um contexto político muito difícil. Sobretudo para o PT. Não posso deixar de sublinhar que houve, da parte dos meios de comunicação, (...) uma oposição sistemática e desconstrutiva de tudo que era feito. (...) E eu acho também que da nossa parte deve ter havido falha de comunicação, falha de organização”

Fernando Haddad

em entrevista ao Nexo, em 28 de dezembro de 2016

A implantação das ciclovias resultou em uma ação de improbidade administrativa, pela qual Haddad tornou-se réu em 21 de agosto de 2018. O Ministério Público apontou irregularidades na construção de um dos trechos. A defesa de Haddad nega falhas e diz que o juiz, em despacho, destacou ações positivas da gestão do petista — o prefeito tomou medidas de combate à corrupção, o que supostamente afastaria sua responsabilidade no caso.

Mais recentemente, o nome de Haddad também foi envolvido em desdobramentos da Lava Jato em São Paulo. Em duas frentes, o Ministério Público de São Paulo e o Ministério Público Eleitoral acusam a campanha do petista em 2012 de receber caixa dois da empreiteira UTC, o que ele nega. Os processos estão em fase inicial e não enquadram o ex-prefeito na Lei da Ficha Limpa.

Qual sua trajetória partidária

Haddad filiou-se ao PT em 1983, seu único partido desde então. Embora seja um antigo integrante do partido, sua atuação em eleições ocorreu mais por força da conjuntura política do que por vontade própria.

A escolha de Lula para que ele concorresse à prefeitura paulistana em 2012 fiava-se na leitura de que o PT precisava se renovar, aos olhos do eleitor, após o desgaste público causado pelo mensalão.

Cálculo parecido levou novamente à escolha de Haddad para ser o vice de Lula e assumir a chapa presidencial quando o ex-presidente fosse barrado — desfecho já esperado pelo partido. Porém, a indicação, a exemplo do que se viu em 2012, teve resistências dentro do próprio PT.

 

Haddad nunca foi atuante na rotina partidária, razão pela qual seu nome não era unanimidade. Dentro das divisões internas do PT, o ex-prefeito era próximo a uma corrente menor (Mensagem ao Partido) — opositora à ala majoritária, Construindo um Novo Brasil, da qual Lula é o expoente mais importante. Em junho de 2018, Haddad ingressou na corrente do ex-presidente, num gesto considerado como tentativa de angariar apoio interno.

Com a legenda fustigada por escândalos de corrupção, com a condenação e prisão de Lula pela Lava Jato e sem outras alternativas, restou ao PT ter o ex-prefeito como “plano b”.

Onde está no espectro ideológico

O PT atualmente é classificado como uma legenda representante da centro-esquerda. Em sua origem, o partido surgiu associado a ideias de um “socialismo democrático”, tentando se contrapor a regimes socialistas autoritários.

Haddad define-se como socialista que tem como compromissos mais importantes a defesa da igualdade social e a recusa de práticas autoritárias.

Estudioso da teoria marxista (inspirada nas ideias do filósofo alemão Karl Marx), Haddad recorre a conceitos teóricos e ao pragmatismo para responder às críticas recorrentes vindas de parte da base do PT a respeito do distanciamento do partido das raízes de esquerda quando chegou ao poder.

“O desafio da esquerda é buscar a unidade perdida entre crítica e ação. (...) A esquerda crítica não age e a esquerda que age não é suficientemente crítica”

Fernando Haddad

em declaração à revista Piauí, publicada em outubro de 2011

Os pontos fracos

Pouco tempo de campanha

A oficialização da candidatura de Haddad ocorre a três semanas do primeiro turno, em 7 de outubro. Figura política pouco conhecida da maioria do eleitorado, ele sai em desvantagem na comparação com os demais candidatos, uma vez que terá menos tempo para se apresentar ao eleitor. Em razão de sua condição de vice e da prisão de Lula, Haddad ficou de fora até então da cobertura diária de telejornais e de debates e sabatinas promovidos por veículos de comunicação.

Desgaste petista

As investigações de corrupção ainda causam reflexos à imagem do partido, e o tema é explorado com frequência pelos adversários. O próprio Haddad também é alvo de acusações recentemente apresentadas pelo Ministério Público de São Paulo e pelo Ministério Público Eleitoral. Os processos transcorrem na primeira instância e não têm consequências jurídicas para a atual eleição.

Os pontos fortes

Relação com Lula

Até ter a candidatura barrada, o ex-presidente liderava as pesquisas de intenção de voto. Em parte, a decisão de adiar até o limite possível a oficialização da candidatura de Haddad sustentou-se na expectativa de que, dessa forma, seria mais fácil convencer o eleitor de que o ex-prefeito é o “candidato do Lula” e garantir a transferência de votos.

Estrutura e militância

O PT tem o segundo maior tempo de propaganda eleitoral em rádio e TV, depois de Geraldo Alckmin (PSDB). Nas redes sociais, Lula está entre os primeiros em engajamento, atrás do candidato Jair Bolsonaro (PSL). A militância nas redes e nas ruas é um dos ativos do PT, que atrai a preferência de 24% do eleitorado, índice mais alto na comparação com as demais legendas, segundo pesquisa Datafolha de agosto de 2018.

Quem é sua vice

Compõe a chapa com Haddad a deputada estadual Manuela D’Ávila, do PCdoB, tradicional aliado do PT. Aos 37 anos, Manuela começou a carreira política no movimento estudantil, integrando organizações como a UJS (União da Juventude Socialista) e a UNE (União Nacional dos Estudantes).

Em 2004, já filiada ao PCdoB, foi eleita a vereadora mais jovem da história de Porto Alegre, aos 23 anos. Dois anos depois, foi eleita deputada federal com a maior votação do estado, sendo reeleita em 2010. Em 2014, foi eleita deputada estadual, com a maior votação do Rio Grande do Sul.

ESTAVA ERRADO: Como ministro da Educação, Fernando Haddad respondeu pela implementação do Prouni e não pela criação do programa. A informação foi corrigida às 13h29 de 15 de outubro de 2018.

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