Lula por Haddad: a troca do nome petista a 26 dias da votação

Atendendo a determinação da Justiça Eleitoral, partido muda candidato à Presidência. E terá pela frente o desafio de tentar transferir as intenções de voto do ex-presidente para o ex-prefeito

     

    O PT confirmou na terça-feira (11) a candidatura de Fernando Haddad à Presidência da República nas eleições de 2018. Até então, Haddad era vice da chapa encabeçada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está preso e foi impedido pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) de disputar o Palácio do Planalto com base na Lei da Ficha Limpa.

    Líder com ampla vantagem em todas as pesquisas de intenção de voto, Lula foi barrado na madrugada do dia 1º de setembro. Naquela decisão, os ministros do tribunal eleitoral impuseram ao PT uma restrição: a troca de candidato deveria ocorrer em dez dias e, até lá, o ex-presidente não poderia ser apresentado como candidato, mesmo nos programas eleitorais de rádio e TV.

    Nesse período, Lula apareceu bastante, com vídeos gravados antes de sua prisão pela Operação Lava Jato. Mas o partido optou por uma mensagem dúbia, em que o ex-presidente aparecia como figura central e Haddad ainda como vice. Tanto que o TSE chegou a emitir novas decisões ameaçando tirar os petistas do ar caso não mudassem as propagandas. Agora, com a troca do candidato, a questão está encerrada.

    O desafio do partido que governou o país por 13 anos e deixou o poder após um impeachment, em 2016, é conseguir transferir as intenções de voto de um líder popular, como Lula, para Fernando Haddad, que disputa sua primeira eleição nacional.

    Os passos do PT na campanha

    Antes da decisão do TSE

    O PT vinha anunciando Lula como candidato durante a campanha de rua, mesmo sabendo da possibilidade que ele tinha de ser barrado pela Justiça. A estratégia era mantê-lo o quanto possível na disputa, a fim de unir o partido e fortalecer candidaturas a deputados.

    Depois da decisão do TSE

    Com Lula oficialmente barrado, o partido continuou usando a imagem do ex-presidente no horário eleitoral, sem deixar claro se ele era ou não o candidato. Haddad também apareceu, mas não era apresentado como vice. A ideia era fazer uma primeira associação entre os dois.

    Crescimento na pesquisa

    No mais recente Datafolha, divulgado na segunda-feira (10), Haddad registrou um crescimento de 5 pontos percentuais, empatando tecnicamente na segunda posição com Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Geraldo Alckmin (PSDB). O líder é Jair Bolsonaro (PSL), que sofreu um atentado a faca no dia 6 de setembro e está internado no hospital. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

    Variação pós-TSE

     

    De agora em diante

    Com a confirmação de Haddad, o partido parte para a fase de tentar fazer com que as intenções de voto de Lula passem para o ex-prefeito. Para o ex-presidente, Haddad tem que ser visto pelo eleitor como seu “porta-voz”. A vice na chapa é Manuela D’Avila, do PCdoB.

    ‘Haddad será Lula’

    O PT lançou Haddad em frente à Superintedência da Polícia Federal em Curitiba, onde Lula cumpre pena de prisão pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro no caso tríplex desde 7 de abril.

    Luiz Eduardo Greenhalgh, um dos fundadores do PT, leu o texto escrito por Lula de dentro da cadeia, intitulado “Carta ao Povo Brasileiro”. No documento, o ex-presidente pede votos em Haddad.

    “Quero pedir, de coração, a todos os que votariam em mim, que votem no companheiro Fernando Haddad para presidente. De hoje em diante, Haddad será Lula para milhões de brasileiros”

    Luiz Inácio Lula da Silva

    em carta lida no ato de substituição de sua candidatura

    Cercado por dirigentes petistas, Haddad disse “sentir dor” por saber que os “brasileiros não poderão votar em quem queriam ver subindo a rampa do Palácio do Planalto”. Segundo o PT, Lula sofre perseguição do Judiciário e foi preso apenas para não voltar ao poder. 

    “É uma tarefa monumental a que nós temos pela frente. É hora de ir para a rua de cabeça erguida e ganhar essa eleição, por Lula, pelo PT”

    Fernando Haddad

    candidato do PT à Presidência

    Como fica a situação de Lula

    Fora da disputa presidencial, o ex-presidente vai continuar tentando reverter na Justiça as decisões que o levaram para a prisão em 7 de abril de 2018. Réu em processos na Operação Lava Jato e condenado em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá, Lula aposta em algumas alternativas.

    Os recursos que a defesa do ex-presidente ainda pode apresentar aos tribunais superiores não têm a capacidade de mexer no mérito do julgamento do caso tríplex (se houve ou não crime). Mas podem anulá-lo caso sejam detectadas irregularidades no processo.

    Os recursos

    Especial

    É analisado pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça). Por meio desse recurso, a defesa de Lula pede que o tribunal analise se as leis federais foram cumpridas no julgamento do processo do caso tríplex. A defesa já ingressou com o recurso, mas o tribunal ainda não o analisou definitivamente.

    Extraordinário

    É analisado pelo STF. Por meio desse recurso, a defesa de Lula solicita que o tribunal analise se a Constituição Federal foi cumprida durante o julgamento do processo do caso tríplex. A defesa já ingressou com o recurso, mas o tribunal ainda não o analisou definitivamente.

    A questão da prisão em segunda instância

    Desde 2016, o Supremo Tribunal Federal admite prisões de pessoas condenadas em segunda instância. O tema, porém, voltou a gerar divergências na corte em abril de 2018, quando os ministros julgaram um habeas corpus preventivo da defesa de Lula antes de ele ser preso. Os advogados argumentavam que alguém só pode ser considerado culpado depois de todos os recursos julgados, conforme a Constituição.

    A maioria do tribunal, porém, manteve a posição de 2016 para Lula. Há ações que pedem uma nova avaliação a respeito do tema. É possível que o Supremo volte a discutir a questão das prisões em segunda instância em 2019. Se os ministros mudarem de entendimento novamente, Lula terá outra chance de recurso para tentar responder até a conclusão do processo em liberdade.

    O que muda na disputa presidencial agora

    Diante do novo cenário que se desenhou nas eleições de 2018, o Nexo perguntou a dois cientistas políticos quais serão os efeitos da saída de Lula da corrida presidencial. São eles:

    • Maria do Socorro Braga, professora de ciência política da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos)
    • Hilton Fernandes, professor de ciência política da Fespsp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo)

    Oficialmente fora da disputa presidencial, Lula continua tendo peso político central na campanha?

    Maria do Socorro Braga Sim. E existem vários fatores em jogo. O primeiro deles é o que chamamos de voto retrospectivo. O eleitor vai comparar a situação atual de crise e de retrocessos com os dois governos do ex-presidente Lula [de 2002 a 2010].

    O outro fator é o carisma do ex-presidente. Existe a questão de sua alta popularidade, acrescendo ainda o ingrediente que é a empatia de parte da população com a situação [de prisão] em que Lula se encontra hoje.

    Hilton Fernandes Sim, Lula ainda é o principal cabo eleitoral do Brasil. Não é à toa que candidatos em todo o país, incluindo de partidos adversários, como os emedebistas Eunício Oliveira no Ceará e Roseana Sarney em Alagoas, procuram utilizar a imagem e o nome de Lula em suas campanhas.

    Boa parte dessa força política vem da avaliação de Lula quando presidente, mas também da característica do voto, que é muito personalista. Figuras como Lula, que encarnam a imagem de líderes carismáticos, ainda são importantes nas eleições e existem de diferentes formas localmente.

    Jair Bolsonaro [que lidera as pesquisas e sofreu um atentado em Minas no dia 6 de setembro], por exemplo, alcança uma parte do eleitorado com esse apelo personalista, no entanto, creio que Lula ainda seja hoje a principal figura nacional com estas características.

    Em 2016, Haddad não conseguiu se reeleger prefeito de São Paulo. Ele tem chances numa disputa presidencial? Ou um triunfo dependerá apenas da popularidade de Lula?

    Maria do Socorro Braga Isso vai continuar dependendo da transferência de votos de Lula para Haddad. Mas sua atuação como ministro da Educação [na gestão de Lula] e sua boa imagem no geral vão ajudá-lo.

    Além disso, deve-se levar em conta a contribuição que a sua vice [Manuela D’Ávilla] poderá agregar, atraindo o eleitorado feminino, ainda que haja uma faixa considerável de eleitores indecisos.

    Hilton Fernandes A eleição nacional tem uma característica diferente de outras disputas, com muita dependência da propaganda política e dos apoios de líderes nacionais e regionais.

    Haddad não conseguiu se reeleger como prefeito de São Paulo, mas como candidato a presidente ele herdará parte dos votos de Lula e contará com a boa estrutura do partido nos estados e municípios. Ainda que não receba a maioria dos votos que Lula teria como candidato, em uma eleição pulverizada como a que ocorre neste ano, isso pode ser o suficiente para levar Haddad ao segundo turno.

    Em outras palavras, Haddad entra na disputa com um grande potencial garantido tanto pela estrutura do PT quanto pelo personalismo de Lula. O desafio do ex-prefeito será transformar esse potencial em votos até dia 7 de outubro.

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